Eleições no Peru e a saída para o Pacífico

publicada quarta-feira, 01/06/2011 às 10:38 e atualizada quarta-feira, 01/06/2011 às 11:54

Por Marcelo Salles

Devemos acompanhar com atenção a definição das eleições no Peru, que no próximo dia 5 de junho escolherá seu novo presidente entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori – as últimas pesquisas apontam empate técnico. O Peru merece nossa atenção por qualquer ângulo que se olhe. Seja pelos investimentos que nossas empresas mantêm no país andino, seja pela importância de seu desenvolvimento para toda a região – como, por exemplo, ao garantir uma privilegiada saída para o Pacífico.

Mas o Peru merece nossa atenção principalmente porque há uma chance real de mudança nos rumos do país, que há décadas é dominado pela direita mais atrasada do continente. Essa direita tem no ex-presidente Alberto Fujimori, pai de Keiko, o seu retrato mais bem acabado.

Mas o patriarca da família Fujimori, que hoje se encontra condenado e preso por corrupção, é apenas a figura mais evidente de todo um processo que começa quando os assassinos espanhóis, liderados por Pizarro, aportaram em Nuestra América. Do Peru levaram toneladas de ouro e prata, além de incontáveis almas. Consta que os invasores apostavam quem conseguia furar mais índios com a mesma espadada. Sobre a economia inca, solidária e socialista, organizada nos ayllus (plantações comunitárias), impuseram uma violenta ordem colonial.

Na República, a gana imperialista passou do controle espanhol para o britânico. E a nova ordem capitalista mundial passou a se interessar pelo guano e pelo salitre, deslocando a geografia da dominação dos Andes para a costa.

O neoliberalismo é a continuidade desse processo, e a privatização das empresas públicas também chegou ao Peru. Assim como aconteceu no Brasil, a desnacionalização foi acompanhada por sucessivas campanhas midiáticas dedicadas a “provar” a ineficiência do serviço público. A estratégia deu certo, o patrimônio público foi dilapidado e muitos peruanos de boa fé repetem acriticamente nas ruas de Lima que as “empresas públicas são todas corruptas”

Do ponto de vista geopolítico, seguramente a saída para o Pacífico é o ponto mais sensível em se tratando do Peru. A depender de como o novo governo manejar essa questão, podemos ter um caminho obstruído, a servir aos interesses estrangeiros que lucram com nosso isolamento, ou então franqueá-lo aos demais países sul-americanos que avançam rumo à construção da Pátria Grande.

A vitória dela é a vitória do pai

Nesse sentido, a vitória de Humala – que se consagrou como homem nacionalista e de esquerda – poderia significar um ponto de inflexão nos rumos do Peru, país que vem servindo como um eterno enclave das potências imperialistas em nosso continente. Enquanto Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela e Uruguai e outros começaram a tomar uma nova direção nos últimos anos, o Peru até hoje destoa. Enquanto discutíamos avanços no Mercosul e criamos a Unasul, o Peru seguia firmando acordos bilaterais com os Estados Unidos.

José Carlos Mariátegui, escritor peruano, talvez tenha sido o analista político que melhor ilustrou a situação do país. Em seu livro “Sete ensaios de interpretação da realidade peruana”, de 1928, ele analisa os efeitos da colonização e a tarefa histórica que se impõe aos irmãos peruanos: resgatar o espírito indo-socialista que permeava as relações sociais e enfrentar todas as formas de violência impostas pelos invasores. É exatamente isso que estará em jogo no domingo dia 5 de junho.

Marcelo Salles, jornalista, atuou como correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro (2004 a 2008), e em La Paz (2008 a 2009).

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8 Comentários

8 Comentários para “Eleições no Peru e a saída para o Pacífico”

  1. Wendel disse:

    Marcelo, parabéns pela análise, perfeita.
    Eqto ficarmos dependentes desta direita, quinta coluna, não passaremos de quintais das potencias imperialistas.
    Pena que a grade maioria da população do Peru, ainda está anestesiada, e será um erro votar na filha de Fujimore, pois será em dúvida nenhuma um retrocesso imperdoável.
    Esperemos que o resultado das urnas no domingo, seja o melhor não só para o Peru, como tb para toda a AL.

  2. JOSE CARLOS DE CAMAR disse:

    Marcelo Salles: não seja oportunista, senhor jnl! Deixe de ser idiota!Pizzarro e espanhoís Assassinos?! Socieda-
    de Socilalista no Peru Inca, se lá a crença no Deus SOL,
    tal qual no México,implicava em Sacrifícios Humanos? Sa-
    be quantos milhares de escravos da colonização inca (ho-
    mens, mulheres e crianças) foram sacrificados aos Deuses
    Incas? Sabe como Pizarro derrotou êsse Império? Respondo:
    com a ajuda dos povos indíginas oprimidos pelos INCAS!!!
    É lógico que os espanhóis mandaram centenas de quilos de
    metais nobres (ouro, prata, etc) para a Espanha! Metais /
    nobres confiscados pelos INCAS junto aos povos colonizados
    e quetais! Más, não se preocupe: A Esquerda vencerá essas
    Eleiçoes no Perú, pois até o Vargas Llosa a apoia! E mais
    adiante, aproveite Marcelo, para estudar um pouco de His-
    tória, e assim não escrever asneiras nas suas matérias!

    • Sr. José Carlos
      Pizarro e espanhóis assassinos?
      Sim, como a maioria dos aventureiros que saíram naquela época da grande pobreza da extremadura espanhola em busca de riquezas no novo continente. Foram milhares e milhares de indígenas que eles e seus sucessores assassinaram na chamada América Espanhola, assim como os portugueses fizeram o mesmo no Brasil.
      Mesmo considerando-se que a mentalidade da época era essa, bem longe dos atuais conceitos de “direitos humanos”, não dá para negar que foram assassinos. Inclusive esses espanhóis assassinaram também milhares daqueles que eram oprimidos pelos Incas e que, sublevados, foram seus aliados num primeiro momento, ajudando-os a derrotar o Império Inca.
      Também é verdade que os Incas e outros povos ameríndios praticavam sacrifícios humanos. Mas continua sendo verdade e nunca poderá deixar de ser que os espanhóis, nos séculos de dominação, assassinaram centenas de milhares, talvez milhões, de indígenas nas Américas.
      E que roubaram, digo, “confiscaram” milhares de toneladas de ouro e prata que foram enviadas para a Espanha. Qualquer livro de história mostra isso.
      Chamar o outro de “oportunista”, de “idiota”, de escritor de “asneiras”, não vai nunca esconder essa verdade histórica comprovada.

    • Cloudman disse:

      Sr. Humberto Borges de lições de história precisa o senhor!
      É verdade que o Império Inca tinha esses defeitos,mas os espanhóis praticaram um genocídio de milhões na América do Sul.Não só étnico,mas também cultural. Queimaram milhares de livros com conhecimentos científicos e artísticos extraordinários das civilizações pré- colombianas, da mesma forma que os Nazis fizeram com os judeus, mas neste caso em muito maior número.
      Mesmo no século 20, os espanhóis e os anglo-saxões continuam a fazer tudo para exterminar os nativos americanos.
      300 mil no Peru e outros 300 mil na Guatemala.Já para não falar em El Salvador, Paraguai, Uruguai ou México.
      Portanto,não venha para aqui tentar branquear o genocídio étnico e cultural de milhões de Ameríndios.

      • Mr. Cloudman
        ou o Sr. está nas nuvens ou não leu o que escrevi ou me citou erroneamente, pois o que o Sr. disse foi o mesmo que eu disse, ambos contrários ao que disse o Sr. Jose Carlos de Camar, que mandou o articulista Sr. Marcelo Salles estudar história.

  3. Sousandrade disse:

    Boa análise. Simples como as situações simples. No Peru, a exclusão é grotesca. A direita-fujimore é ademar de barros x maluf elevado à décima! A Editora Expressão Popular publicou biografia de Mariátegui, com vários textos dos 7 Ensaios. Muito bom.
    Ler o Frei Bartolomé de las Casas tb é bom pra ver a contribuição civilizatória da Espanha no Peru…

  4. Brunete Frascaroli disse:

    Editor,

    Concordo com o José Carlos sobre o texto do tal “jornalista Marcelo Salles”, cheio de lugares comuns repetidos por jovens universitários adoradores da UNE e seus similares. Uma mistura das enciclopédias Barsa e Mirador e um pouco de gelo seco.
    Não é aceitável que um espaço como este traga panfletos em vez debate sério.

  5. eleiovaldo disse:

    fRANCAMENTE, o Peru ainda se recente das muitas guerras travadas contra os vizinhos e consequentemente a perda de territorios, por ex ao Brasil(acre) ao Chile, ao equador etc.

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