Os ensinamentos de Realengo à República
publicada terça-feira, 12/04/2011 às 10:46 e atualizada terça-feira, 12/04/2011 às 10:22
por Marcelo Salles
A tragédia em Realengo não é apenas mais uma entre tantas que nos atingem – desde desastres aéreos até chacinas como a de El Dourado dos Carajás. O que aconteceu no Rio de Janeiro é um divisor de águas, uma mudança substantiva no modo de o Brasil se relacionar com a escola e um salto sem precedentes em direção ao pânico social.
A partir dessa tragédia, as famílias não terão apenas o receio de que ofereçam drogas a seus filhos nas escolas. Agora elas temerão que algum psicopata entre atirando nas salas de aula.
Acidentes como o da TAM e o da GOL sempre poderão ser compreendidos pela imprevisibilidade inerente ao transporte aéreo, enquanto Carajás é fruto de um conflito social que, infelizmente, sabemos que ainda provoca mortes no país. Mas e as crianças? Abatidas como patos, num ato supremo de covardia? Como classificar a tragédia em Realengo? O que pode vir depois? Alguma coisa poderia ter sido feita para prevenir? Como conviver com essa incerteza mortal?
Difícil responder a tudo isso, mesmo porque não há como uma sociedade criar políticas públicas específicas para impedir que pessoas saiam por aí matando as outras. Mas é possível construir políticas públicas para dificultar o acesso a armas, por exemplo.
Além disso, há outra coisa a se fazer. Rever a forma como tratamos nossas crianças e adolescentes, qual o lugar que lhes reservamos no imaginário social, de que forma elas se inserem e são inseridas nos espaços público e privado.
E mais. Seria bom que começássemos a discutir, seriamente, que tipo de sociedade estamos construindo. E começar a perguntar quais fatores contribuem para que um cidadão cometa um crime como esse. Sim, é preciso traçar o perfil psicológico do criminoso e pesquisar se ele foi mesmo vítima de abusos, assim como é preciso conhecer sua verdadeira inserção em meios fundamentalistas religiosos – tenham estes quaisquer matizes.
Além disso, vale ressaltar que nenhuma análise que se pretenda séria pode deixar de lado a responsabilidade das corporações de mídia, entendidas aqui de modo amplo, desde empresas que fabricam jogos violentos até os meios de comunicação de massa (sobretudo cinema e televisão) que cotidianamente impõem valores individualistas, egoístas, que fazem com que o outro seja visto como um adversário ou inimigo – o tal programa BBB é o exemplo mais bem acabado disso, e aí você pode acrescentar o incentivo à inveja, à superficialidade, à competição desmedida. Vale qualquer coisa para ganhar 1,5 milhão ou 15 minutos de fama.
Não há um estudo a esse respeito, mas o fato é que todos os casos de psicopatas que promovem chacinas em locais de grande circulação de pessoas e depois cometem suicídio são registrados em países capitalistas avançados, a começar pelos EUA. O raciocínio faz todo o sentido numa terra que hiper-valoriza a ideia de “self made man”, que se diz o país das oportunidades para todos e ao mesmo tempo joga a culpa do fracasso sobre aqueles que não conseguiram ganhar dinheiro – medida suprema de sucesso nesse modelo de sociedade.
Sendo assim, o mais provável é que a tragédia de Realengo tenha sido motivada por uma conjunção de fatores, a saber: abuso anterior contra o atirador, inclusive por parte de familiares (uma possibilidade que merece ser investigada), o fundamentalismo religioso, o sucateamento do ensino, o aprofundamento do capitalismo no país e os valores disseminados pelas corporações de mídia.
Não há como trazer de volta os mortos em Realengo, mas é possível que eles sirvam de alerta para pensarmos – e agirmos – na construção de uma sociedade pautada pela busca da harmonia, da paz e da elevação espiritual.
Marcelo Salles, jornalista, atuou como correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro (2004 a 2008), e em La Paz (2008 a 2009).
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4 Comentários







” É possível construir políticas públicas para dificultar o acesso a armas, por exemplo.”Com certeza,Marcelo!Acho inclusive que,de todas as soluções propostas via mídia(que virou um inabalável quarto poder público nesse caso) essa é a mais palpável….
Rodrigo,
É INACREDITÁVEL O QUE ESTÃO FAZENDO COM ESSAS CRIANÇAS!
Alguém aqui deixaria seu filho de 10, 12 anos, voltar pro mesmo lugar, pra mesma sala (mesmo que pintada, repaginada) , onde tivesse visto seus coleguinhas serem assassinados com tiros na cabeça, tivessem sido alvejados , fugindo pelos corredores de um louco assassino com disposição ferrenha em lhes tira a vida (e que matava RINDO)?!!
Alguém permitiria isso com um filho que ama? Alguém trabalharia e dormiria tranquilo sabendo que seu filho terá que conviver diariamente com uma tragédia dessa proporção que viveu na pele de forma INTENSAMENTE DOLOROSA com tão pouca idade?!
É INACREDITÁVEL O QUE ESTÃO FAZENDO COM ESSAS FAMÍLIAS!
No filme SEVEN , onde o personagem de Kevin Spacey faz a série de assassinatos baseados nos “7 pecados”, ele coloca ardilsosamente o personagem de Brad Pitt para completar seu plano, apertando o gatilho e dando desfecho conjunto ao último pecado “ira”.
O que estamos assisitindo na mídia e em boa parcela da sociedade agora não é muito diferente. Fazia parte dos planos daquele homem essa notoriedade e transformação em mito midiático como um cara de ideias, propositos, vinculos e motivações definidas. Pois aí está o que ele queria:
ESTAMOS TODOS COMO SOCIEDADE “APERTANDO O GATILHO” E PARTICIPANDO DO SEU PLANO.
Marcelo, seu artigo está espetacular, como sempre você o faz, tocando na questão central! É possível, necessário e imperativo discutir amplamente (e mudar) os parâmetros que norteiam nossa sociabilidade, a completa decadência moral e profissional da mídia, assim como a irresponsabilidade desta, a escancarada abertura e facilidade para comercializar e utilizar armas e munições.
Não por acaso, a mídia que se fez de tão solidária na dor daquela tragédia é exatamente a mesma que esconde esse fundamental debate, porque age em causa própria, visto que lucra astronomicamente com os setores que representam as armas e a decadência ética da sociedade. Os melhores exemplos são a publicidade, os BBBs e o obsequioso serviço prestado ao derrotado José Serra nas últimas eleições e aos Bolsonatros da vez. Sinceramente, não dá mais prá empurrar a democratização dos meios de comunicação!
Aproveito para sugerir aos leitores o artigo do Prof. Washington Araújo: “Tiros em Realengo – peguntas, mortos e feridos” (site Carta Maior)