A postura de Bolsonaro e o racismo no Brasil

publicada segunda-feira, 11/04/2011 às 09:01 e atualizada segunda-feira, 11/04/2011 às 09:34

Por Igor Felippe Santos

As declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) causaram indignação em todos aqueles que consideram o racismo uma ferida profunda e ainda aberta nosso país. Já a imprensa burguesa lançou mão da liberdade de expressão para limpar a barra do parlamentar. Um grupo de neonazistas convocou um “ato cívico” pró-Bolsonaro em São Paulo.

As manifestações do deputado, e toda a polêmica em torno do episódio, são apenas a ponta de um iceberg histórico da sociedade brasileira e suas contradições. A questão do racismo faz parte do processo da formação política, econômica, social e cultural do Brasil, que tem como elemento central a escravidão. Não podemos ignorar o passado, porque deixaríamos em segundo plano os fundamentos do preconceito contra os negros. Tanto que a associação de negros a promiscuidade vem desses tempos.

Desde a escravidão, os negros estão na base da pirâmide social e, os brancos, na parte superior. A escravidão acabou em 1888, com a Lei Áurea, mas pouca coisa mudou na estrutura social. Mesmo com a abolição, os negros ficaram impedidos de ter acesso à escola e à terra, por meio da Lei de Terras (decretada antes, em 1850). Com isso, foram obrigados a exercer para sobreviver atividades consideradas menos qualificadas, ficando como “serviçais dos brancos”.

No processo histórico do último século, os resultados do mecanismo de exclusão dos negros ficaram diluídos, ou seja, há negros com boas condições de vida, pardos pobres e brancos miseráveis. No entanto, a estrutura social continua sendo racista. Enquanto os brancos são excluídos por diferenças de classe, os negros são marginalizados por uma questão de classe e cor de pele.

O capitalismo brasileiro foi estruturado na dependência internacional e no racismo, que é um dos fatores determinantes da nossa formação. Ou seja, o racismo não é apenas uma declaração de preconceito na TV, mas uma cicatriz profunda no povo brasileiro. Enquanto os negros se identificam com os escravos, pois lá estão as raízes da atual exclusão, tem sido conveniente aos brancos deixar isso de lado, afinal de contas, não é nenhum orgulho. Daí surge o “esquecimento” das nossas raízes históricas.

Embora os homens e mulheres brancos não sejam “culpados” pela escravidão, se constituem como um bloco social, que sustenta e preserva essa formação social racista, que concentrou neles o poder e capital. Os negros, descendentes de escravos ou não, também formam um bloco social, marcado pela exploração do trabalho e discriminação.

O problema é que o processo de exclusão dos negros parece encoberto por um véu, como se as consequências de 300 anos de escravidão tivessem sido superadas. Só que o Brasil não passou uma Revolução Burguesa de tipo clássico, como na França e na Inglaterra, onde houve uma ruptura que levou ao enfrentamento das contradições sociais do regime anterior.

Florestan Fernandes ensina que não houve um colapso do poder oligárquico e a tomada do poder pela burguesia no Brasil. A oligarquia escravocrata entrou em crise, mas manteve a hegemonia sobre o processo de recomposição das estruturas de poder para a consolidação da dominação burguesa. Nesse processo, a oligarquia e burguesia conviveram nos mesmos círculos sociais, formando um padrão comum de ação e pensamento da elite brasileira.

Como não houve ruptura, não superamos os fundamentos que sustentam o racismo. Daí a importância da sociedade brasileira e o Estado admitirem que o nosso processo histórico marginalizou e marginaliza o negro. Só com esse diagnóstico entrará no horizonte as mudanças sociais necessárias para acabar com o ciclo racista. Isso pode representar um “sacrifício” da sociedade como um todo em benefício dos negros, só que não existiu sacrifício histórico maior do que a escravidão.

Uma medida importante é que a lei brasileira prevê a prisão por crime de racismo. Essa lei coloca no plano simbólico (lugar onde o racismo é muito forte) a noção de que ser racista é crime, que os negros precisam ser respeitados e tiveram força suficiente para que isso fosse regulamentado.

Só que essa lei só terá efetividade se for aplicada contra todos, principalmente os ricos e poderosos, que costumam ser beneficiados pela impunidade. Daí a importância da cassação do mandato do deputado Bolsonaro, que depois de perder a imunidade parlamentar deve ser preso por crime de racismo. Essa punição exemplar terá um significado importante pelo Estado admitir e punir o racismo na nossa sociedade.

No entanto, mais do que punir os racistas, a sociedade brasileira precisa ir à raiz da questão para subverter a lógica da exclusão do negro, por meio de mudanças estruturais que acabem com o processo histórico que se perpetua até hoje. Essa transformação só será possível com a organização e luta dos trabalhadores negros, em aliança com todo o povo brasileiro, para  pressionar e sustentar essas transformações.

Igor Felippe Santos (@igorfelippes) é jornalista, editor da Página do MST, integrante da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária e do Centro de Estudos Barão de Itararé.

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14 Comentários

14 Comentários para “A postura de Bolsonaro e o racismo no Brasil”

  1. A extrema direita tem se juntado no entorno do Bolsonaro. NAzistas, fascisas e nacionalistas protestaram sábado em Sampa, unidos, contra a esquerda e a favor do canalha! Fiquemos de olho!

    Vejam os vídeos do protesto, coisa de assustar. Em um momento um nazi diz pras câmeras q DH é pra humano e gay e esquerdista não são humanos, sem nem piscar!

    http://tsavkko.blogspot.com/2011/04/os-videos-do-protesto-dos-neonazistas.html

  2. Luana disse:

    Perfeito! O que mais me surpreende após a leitura de artigos como este, são os comentários deixado por alguns leitores. O discurso não muda: “somos todos iguais”, “não somos racistas”, “o preconceito é social”, etc, etc, etc. Cansa, mas seguimos lutando!

  3. marcosdascanio disse:

    Rodrigo,

    Sabadão eu estava trabalhando no centrão velho, próximo do belíssimo viaduto Santa Ifigênia. Na rua, avistei alguns jovens, todos de jaquetas em nylon preto, com punhos apertados e sempre largas nas costas e peito,coturnos disfarçados pelas calças jeans tradicionais com barras largas e as cabeças raspadas. Num ou noutro, raparam-se tatuagens alusivas aos nazismo. Um ar sarcástico, ao cruzar pela rua com um casal de negros, de quem diz : a hora de vocês está chegando !! Manifestaram-se no MASP. Saudações de braços estendidos acima das cabeças carecas com as mãos espalmadas. Outros, mais “comportados”, usavam ternos azuis com brasões, alguns com camisetas de “bolsonaro presidente”. Domingo, na Vila Madalena,dois se conversavam com palavras indignadas pelas prisões que ocorreram no sábado : Onde é que está a democracia ?” e falavam ao celular sem parar, se articulando. – Saíram de lá apressados…
    Por onde passam, mesmo que sejam dois, atraem a atenção dos demais populares e uma tensão toma conta do espaço como se todos estivessem esperando que aconteça uma agressão e alguém saia gravemente ferido por socos ingleses e botinadas. Vai acontecer…

  4. Rafael disse:

    O problema esta na estrutura racial ou em uma FALA racista? Punir o deputado é pura demagogia e não ataca o problema levantado no texto.

  5. JOSE CARLOS DE CAMAR disse:

    IGOR: matéria fácil, pois é fácil ser pedra contra a frá-
    gil vidraça! Eu sou, por formação cristã e vivência, ple-
    namente ANTI-RACISTA, pois sempre tive gente de côr nos /
    meus relacionamentos. PORISSO, posso falar: chega dessas
    críticas tão OPORTUNISTAS! Sim, há uma DISCRIMINAÇÃO la-tente na Sociedade Brasileira, más ela é mais SOCIAL que
    RACISTA! Até porque também é fácil estabelecer paralelos
    entre a situação dos Afro-Brasileiros com os próprios A-
    fricanos. Como é terrível a situação dos negros africanos
    em sua terra, a MAMMA ÁFRICA! TERRÍVEL já há séculos, por
    questões TRIBAIS -étnicas, religiosas, geográficas, etc!
    PORRISSO, é oportunismo barato essa crítica em relação à
    situação dos Afro no BrASIL! À medida que êsses Afro con-
    seguirem se elevar na escala social (isso é uma questão /
    de tempo e de esfôrço próprio), a discriminação se esvai-
    rá! O tempo, senhor da razão, comprovará êsse fato! Demo-
    rou +- 450 anos para a civilização dos mongóis na China -
    o Imperador chinês calculou 300 anos! Demorou aproximada-
    mente 400 anos para a erradicação da barbárie na Europa /
    pela ação fantástica da Santa Igreja Católica! Aproxima-
    damente o mesmo tempo que ocorreu na civilização da Améri-
    ca Latina! Assim sendo, vamos dar tempo ao tempo e dessa /
    forma todas as discriminações desaparecerão! Chega de crí-
    ticas gratuítas, de oportunismo barato! A História, agora
    uma Ciência, comprovará tudo isso! Saudações!

  6. Edno Lima disse:

    O negão ( ele gosta de assim ser chamdo), vereador Netinho de Paula, já espancou duas mulherese e agrediu um repórter do pânico e ainda por cima tem o hábito de colocar os bens em nome dos filhos a fim de evitar pagamento de indenizações, mas como é de esquerda (pertence a PC do B) nunca foi incomodado pelo jornalismo esquerdista!

  7. Renato - Economista/INCRA/SC disse:

    O próprio estudo da história brasileira nas escolas, coloca o negro em posição inferior. A forma como é abordada a questão da escravidão não é entendida pelas crianças, pelos jovens. Como ela foi escrita e publicada por estudiosos que fizeram parta da oligarquia/burquesia ou foram financiados por elas, essa história inibe a imaginação dos alunos colocando-os sempre em situação de inferiroridade. Essa história não desperta o interesse das jovens para a formação de uma base de luta por mudanças estruturais.
    Então é preciso mudar a forma de abordagem dessa hitória, assim como faz o MST nos acampamentos e Projetos de Assentamentos.

  8. dilmão disse:

    Me lembrei uma manisfestação do sociólogo FFHH ( não o presidente ) que falou de uma certa idealização quando se fala no sujeito ameríndio. Quando se examina a questão do Índio, parece que eles não tinham vontade própria e não se matavam mutuamente, os tupis do lado português, os guaranis do espanhol, p ex. Que viviam no paraíso terrestre e todas suas práticas eram corretas ou quando muito apenas questão de identidade cultural. Como afogar cianças com deformações físicas ou psicológicas. Assim como muitos defendem que a amputação de clitórias nos países africanos, antes de ser um barbarismo, seria cultural. Eu por exemplo acho injusto, descabido e “contra-producente” para a sociedade, que se tenha cotas afros e outros para concursos públicos. Acho que é um arranjo mal-feito. Aconteceu em porto alegre para concurso de médico. Um concursado com nota 8,3. O concursado pelas cotas 6,7. A sociedade realmente saiu ganhando? Um concurso é a melhor maneira de aferir capacidade e conhecimento? Sei, não inventarm ainda um melhor. Não achei tão sem sentido a colocação referente ao Netinho de Paula. A esquerda “adora” não falar de seus problemas, nisso, aprendeu direitinho o jogo político. Da mesma forma, vemos centenas de jogadores de futebol “negros” que na hora de casarem e terem filhos, se casam invariavalmente com “brancas”. Pelé é o exemplo maior. Poderia citar centenas. Tal assunto não merece exame, autocrítica e reflexão por parte do movimento? Será que é culpa só do “meio”? Ou é questão de amor? Quando se enaltece a contribuição afro, sempre se fala da música, culinária, cultura..se fala também da “capacidade erótica” afro, sem que existam nenhum posicionamento contra isso. É um jogo de duplo-vínculo: De um lado ele é sensual, sedutor…mas de outro é apenas algo como um animal reprodutor. Mas quando se fala de alguma contribuição dos imigrantes europeus, ainda mais em algum blog de esquerda..ah, aí vem chumbo grosso: Ganharam as terras de mão beijada, tinham tudo na mão, mataram a fauna e flora. Quando se para para pensar no quanto a região Sul e o estado de São Paulo, por exemplo, são diferentes da maior parte do Brasil. Quando se vê o desenvolvimento, não só econômico, mas indissociável desse, cultural e social, parece que o trabalho dos imigrantes sequer existiu. Lembro de uma camisa que era moda anos atrás: 100% Negro. Claro que era panfletária, talvez necessária na época. Mas e se eu escrevesse 100% italiano! 100% Polonês, com certeza seria execrado. Quando se analisa a trajetória de algum ditador africano ou latino-americano, ah mas as grandes potências isso e aquilo, sempre há uma desculpa. Quando se é um ditador branco, ele é apenas facista. Vamos ser mais humanos.

  9. dilmão disse:

    Eu por exemplo sou loiro. Não quero dizer que tive dificuldades como a maioria dos negros tiveram. Alguém imagina que eu tive todas as portas abertas, todos sorrisos escancarados, todas facilidades encontradas por onde quer que tenha passado? Não! Já convivi com muita gente que sem trocar nenhuma palavara comigo, por semanas à fio, fazia questão não somente de me ignorar, como ser agressivo. Já ouvi falar na minha frente: Não gosto de alemão! Frequentei muitas rodas-de-samba, escolas-de-samba. Quando fui discriminado, e não foram poucas as vezes, talvez uma ou duas vezes partiram de negros. Em outras foram brancos um pouco mais escuros que eu, com talvez algum “quosciente” afro, que ali, naquele meio, se achava suficientemente mais autêntico e legítimo do que eu para frequentar. E também já fui desrespeitado, não sei porque, por gente da minha côr. Então, ficar colocando pecha de racismo em tudo na sociedade brasileira, que sabemos o quanto é miscigenada, é uma forma de vigiá-la. É assim que se constrói uma democracia racial? Quanto ao ensimo de história africana no país, já passou da hora. Embora deva ser enfocada, essa deve ir na direção universal, como bem convéem ao nosso país multicultural. Claro, se falarmos da história do Brasil, deve ser examinar Portugal, o que existir de registros e história dos índios e da história africana, seus apectos culturais, geográficos e políticos e aí sim, explanar o que foi o desumano comércio de humanos na escravidão.

  10. Cleber Folgado disse:

    Não costumo comentar ou mesmo fazer a disputa ideológica nestes meios, mesmo que eu os entenda como muito importantes. No entanto ler os comentário deixados, me instigou a escrever algumas linhas e expressar algumas ideias:
    1- O texto esta bastante bom, pois aborda de forma histórica os problemas enfrentados em relação ao racismo.
    2- Rafael, a FALA racista é apenas o reflexo, ou a expressão verbal do problema social, ou seja, o problema que temos na estrutura da sociedade vai se refletir, se reproduzir e se massificar das diversas formas, entre elas uma FALA racista. Punir alguém que representa-nos como é o caso de um deputado da nação é algo mais que justo, ou seja, segundo a nossa constituição é algo legal. Demagogia é seguirmos olhando a nossa constituição como apenas um monte de leis que devem ser usadas a favor da classe dominante e ignoradas quando se trata de defender o povo brasileiro. Portanto caro Rafael, seria importante que você primeiro compreenda o que é demagogia, para depois atrever-se a fazer algum comentário como este de baixa qualidade e argumentação feito por ti.
    3- José Carlos, se esta é uma matéria “fácil”, então atreva-se a fazer uma “Difícil” e não apenas fazer um comentário de ante-mão racista e barato, tentar justificar sua formação cristã e seu relacionamento com pessoas negras que você chama de pessoas de “Cor”, se faz apenas mais um comentário absurdo. Acaso “branco” também não é uma cor? imagino que muitos negros também se relacionam com pessoas de cor “branca”. Desculpe meu caro, mas sua formação cristã é muito pobre, e o próprio cristo deve ter se envergonhado deste seu comentário.
    O fato de que as injustiças sociais tardaram a se suprimir em outros países, não pode ser argumento para que esperemos que as mudanças acontecem. Se você quer mesmo um basta para as (como você mesmo disse) “criticas gratuitas e oportunismos baratos” devia ter como bom cristão que diz ser, começar por você mesmo, e não ter publicado este monte de bobagem presentes em seu comentário. E com relação as ações da santa igreja católica, talvez seria bom você estudar um pouco melhor a história, e ver que ela também foi historicamente um instrumento racista, machista e preconceituoso (claro que temos exceções em alguns lugares).
    4- Edno; com este seu comentário, vemos que o Netinho não foi criticado nem pelo jornalismo esquerdista e tampouco pelo de direita. Ambos são equivocados, pois qualquer ato de preconceito ou de covardia, rejeição e discriminação de qualquer individuo é um crime, do qual devemos nos manifestar, e se pessoas como você que tem estas informações ainda não se manisfestaram, então atribuo a você o pecado da omissão.

    Por ultimo, creio que devemos seguir nos manisfestando e que a justiça seja feita.

    abraços.

  11. Rafael disse:

    Cleber, é evidente que a FALA racista é um reflexo do problema social. O que qualifico como demagogia é o circo armado com a declaração do deputado. Ou você vê a mesma ânsia de justiça da mídia quando um negro é espancado pela polícia? É isso, quando envolve uma celebridade e um político é notícia, quando envolve um agente do Estado e um pé-de-chinelo qualquer não é nada. Mas estamos combatendo o racismo! Ô…

  12. Rafael disse:

    E outra Cleber, falar em “defender o povo brasileiro” é demagogia também.

  13. luiz costa disse:

    É muita frescura. Bolsonaro não queria envolvimento com pessoas com o comportamento de Preta Gil. É o direito de escolha seja branco,preto,amarelo,azul ou qualquer cor. Se um homosexual vier me cantar e eu não gostar,será homofobia? Vamos deixar de palhaçada.

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