Contradições da sexta economia do mundo

publicada segunda-feira, 02/01/2012 às 10:43 e atualizada terça-feira, 03/01/2012 às 19:33

Por Igor Felippe Santos

O maniqueísmo domina as análises sobre o Brasil e o desempenho do governo Lula/Dilma. De um lado, alguns avaliam que o governo é responsável por dádivas de Deus. Do outro, não fez nada que preste e merece as chamas do inferno. A leitura do estudo da consultoria britânica, especializada em análises econômicas, de que o Brasil ocupará o posto de sexta maior economia do mundo seguiu o mesmo padrão.

Nos últimos oito anos, o Brasil teve um crescimento baixo em comparação com os outros países emergentes, mas bem maior do que no sombrio período do FHC. No entanto, o principal fator para o Brasil chegar ao posto foi a crise capitalista de 2008, que derrubou países centrais.

O fortalecimento do mercado interno, com a valorização do salário mínimo, políticas de crédito e políticas sociais também foi importante, mas não central para o país se tornar a sexta economia do mundo. Isso acontece porque o mercado interno brasileiro, embora fortalecido, não está no centro da dinâmica da nossa economia, que é dependente do mercado externo.

Quem sustenta a economia brasileira é a exportação de matéria-prima mineral e agrícola, controlada por empresas transnacionais e do mercado financeiro que não paga impostos na exportação (por causa da Lei Kandir, uma herança maldita do governo FHC mantida até hoje), para China e outros países centrais.

Por isso, a “grande” vantagem comparativa do Brasil na disputa capitalista internacional é o baixo valor de troca da força de trabalho (nossos trabalhadores têm um nível de renda menor que dos países centrais, assim são superexplorados), a exploração de recursos agrícolas e minerais e o desrespeito a direitos sociais básicos.

O Brasil é uma formação social fundada na desigualdade social e violenta concentração de renda, riqueza e capital. Isso é o paraíso para as empresas transnacionais. Quanto maior essa concentração (viável pela falta de um sistema tributário progressivo, que taxe mais que tem mais e movimenta mais dinheiro), maior as possibilidades de investimentos e lucros.

Um dos elementos que garante essas condições é o pagamento de salários baixos. Segundo dados preliminares do Censo divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maioria dos postos de trabalho criados a partir de 2000 foi ocupada por trabalhadores com remuneração de até dois salários mínimos (igual a R$ 1.244 com o novo salário mínimo). Essa faixa de remuneração representa 63% do total em 2010.

Em relação à exploração dos recursos naturais, o país passa por uma ofensiva do capital estrangeiro, para controlar as nossas terras e a produção agrícola. A desnacionalização das terras e da agricultura chega a níveis inéditos, enquanto o governo não tem instrumentos para mensurar e controlar. De 2002 a 2008, empresas do agronegócio trouxeram uma avalanche de investimentos estrangeiros, que somaram US$ 46,91 bilhões, de acordo com dados do Banco Central.

Ao mesmo tempo, enquanto exporta matéria-prima mineral, para que os países centrais produzam máquinas, equipamentos e produtos eletrônicos, o Brasil passa por um grave processo de desindustrialização. Uma moção do Congresso Brasileiro de Economia, realizado em setembro, apontou que “o Brasil não pode continuar com o atual processo de aumento da dependência da importação de produtos industrializados. A atual substituição da produção interna por produtos importados ocorre antes que o país tenha alcançado o domínio dos processos tecnológicos estratégicos para assegurar a sustentabilidade de seu desenvolvimento soberano”.

Por fim, os direitos sociais dos brasileiros são desrespeitados, o que abre a perspectiva de investimentos do grande capital em empresas do setor de serviços e, ao mesmo tempo, “libera” o Estado de aplicar os recursos dos impostos nessas áreas para pagar os juros, amortizações e os títulos da dívida pública, que são controladas por bancos brasileiros e estrangeiros e empresas transnacionais. Do orçamento geral da União, apenas em 2010, R$ 635 bilhões (que representa cerca de 45% do montante total do orçamento) para o pagamento de juros, amortizações e o refinanciamento da dívida pública brasileira.

O que o Brasil oferece ao mundo, ou melhor, às empresas capitalistas transnacionais são trabalhadores mal remunerados, condições para concentração de renda e riqueza para novos investimentos, terras (além de sol e água) para a produção de commodities para exportação, minérios sem valor agregado para os países centrais e mercado para investimentos no setor de serviços.

Aplaudir com entusiamo e sem fazer necessárias ponderações ao 6º lugar do Brasil na economia mundial é comemorar a consolidação e expansão de um modelo econômico que se sustenta nas más condições de vida do povo brasileiro, na desigualdade de riqueza/renda e na desnacionalização/desindustrialização da economia, que fazem do Brasil o paraísos das empresas transnacionais.

Só valerá a pena para o povo brasileiro continuar crescendo na lista das maiores economias do mundo se foram realizadas mudanças estruturais – que possam garantir melhores condições de vida a toda a população, com maiores salários e a efetivação dos direitos sociais, e a independência econômica, industrial e tecnológica em relação às empresas estrangeiras – em torno de um projeto popular para o desenvolvimento do Brasil. Que o povo brasileiro se organize e lute para construí-lo em 2012!

Igor Felippe Santos é jornalista, editor da Página do MST, do conselho político do jornal Brasil de Fato e do Centro de Estudos Barão de Itararé.

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11 Comentários

11 Comentários para “Contradições da sexta economia do mundo”

  1. JOrge disse:

    Perfeito, é isso mesmo!
    Uma pena que a maioria dos brasileiros não enxergue isso.

  2. Danilo Morais disse:

    A desindustrialização, a parcela inaceitável do orçamento da união mobilizado para o pagamento de juros da dívida pública e a importância dos commodities na agenda de exportações brasileiras realmente são fatos. Entretanto, dizer que o desrespeito aos direitos sociais e a desigualdade estão aumentando não tem base factual, segundo os mesmos dados oficiais que o autor mobilizou para fazer as afirmativas anteriores. Uma questão que me parece também importante considerar é que mesmo o governo ao anunciar a tal 6a posição, na economia mundial, do PNB brasileiro, fez questão de salientar que as condições de vida da população do país ainda estão muito longe dos padrões de um Estado de bem-estar e que, segundo o próprio governo, este deveria ser o objetivo do país, não apenas o expansão do PNB.

  3. juarez campos disse:

    Já pensou se tivessemos nossas estatais nas mãos brasileiras? Temos que impedir a desnacionalização da terra, minerais e nossa indústria de base.

  4. Mel disse:

    Já estou chorando. Que horror! Não quero mais que o Brasil seja a 6ª economia do mundo. Afinal, tudo só está piorando. Na próxima eleição vou votar no Cerra, no Plínio ou na Marina. Esses governos Lula/Dilma só ferrou o Brasil. Não tem nada de bom… Me poupe.

  5. marcosomag disse:

    O problema dos impostos regressivos é o principal a ser resolvido. É a perna que falta do tripé necessário para a valorização do trabalho no Brasil, ainda que no contexto capitalista. As políticas sociais e a valorização do salário-mínimo no período petista na Presidência da República são as outras duas pernas deste tripé. Creio que um “choque tributário” nas grandes fortunas, com paulatino decréscimo dos impostos indiretos é o caminho a seguir. Agora, se o PT vai dar a velha desculpa da “correlação de forças desfavorável na sociedade” para adiar tal mudança estrutural é questão. Um dos pilares da “força” do lado de lá (burguesia) é o oligopólio da mídia corporativa. E o PT tem perdido diversas oportunidades de acabar com tal Poder. Vai perder a nova chance (CPI da Privataria) de esmagar Globo, Folha e assemelhados? Infelizmente, creio que sim.

  6. Henrique disse:

    O engraçado é que quando o gov/FHC quebrou o país e estabilizou a miséria, ninguém fez ponderação nenhuma!
    Lógico! Falta muita coisa para ‘consertar’ neste país. Até aí dizer que o país não melhorou, por pouco que seja, a condição de vida do brasileiro, é mesmo que ficar antenado na mídia onde o Brasil não passa.
    Eu não vi ponderação nenhuma quando FHC disse “…é que eu traí os anseios da pátria…”(Rev. Piauí/agosto/2007).

    Comecem uma campanha para a taxação das grandes fortunas, prevista na constituição, aí vai dar para se fazer algumas ponderações!

    • galdério disse:

      O problema é a quantidade de “aliados” do atual governo federal que terão que ser taxados. Aí, meu amigo, faltou muito culhão do lula e muito mais faltará a Dilma! Já era…

  7. C.L. Dias disse:

    Saliento q n se está a viver um “pra frente Brasil!” -graças a Deus!.

  8. JMZem disse:

    Olá Rodrigo!
    Seu texto está correto. Sem tirar nem por. Os que não querem ou acham que isso não está assim, deveriam sair da casca, abrir as janelas e olhar para os lados. Temos grandes problemas sim! E não estão sendo resolvidos. O governo Lula/Dilma, especialmente Lula, jogou muito para a plateia. Não há investimento sério em educação. o que há é muita perfumaria. É só olhar como estão as Universidades. O que elas estão formando???? Jogar gente aos borbotões no sistema é legal. As classes menos assistidas estão conseguindo levar seus filhos a Universidade. Isso é muito bom. Mas não podemos ficar olhando e falando apenas disso. Trata-se de qualidade de ensino, de qualidade de formação. E isso não está acontecendo. Desde o governo FHC abriram-se um sem número de cursos superiores, faculdades, universidades e tal. Especialmente as privadas. Mas o que elas estão devolvendo à sociedade??? Um pessoal, que com raras exceções, mal sabe ler um texto e compreendê-lo. Isso é realidade!!!! Tem um grande contingente de pseudo-cidadãos concluindo o ensino médio e entrando na faculdade. Um bom número está saindo com o curso concluído. E isso já basta??? É de se perguntar como esse pessoal está saindo, que formação estão tendo. Se estivessemos recebendo dessas “escolas” boa formação, não teríamos tanta falta de mão-de-obra qualificada. E isso ocorre em todos os setores da economia. Empresas não fecham seus quadros e postos de trabalho ficam abertos por pura falta de qualificação. E quem procura essas vagas são pessoas que se dizem formadas nessas áreas. se tivessemos uma boa preparação, não teríamos tanta reprovada ou não aprovação nas provas da OAB. Não teríamos tantos jovens médicos recém formadas que não conseguem entrar numa residência médica. Não teríamos tantas vagas de TI em aberto nesses país. Em minha cidade, há uma empresa, pelo menos, que tenta preencher algumas vagas há mais de um ano. O dono desta veio a público avisando que iria importar mão-de-obra européia ou asiática para preenchê-las. Inquirido pela repórter sobre o porque do não preenchimento das vagas, ela falou que simplesmente os candidatos não tem preparação mínima para executar as tarefas. E olha que as vagas são para “graduados” e não estudantes de TI. É só olhar em volta. Quantos engenheiros não conseguem emprego num país e numa época em que a engenharia está bombando com tanto trabalho e oportunidade. Façam uma avaliaçõa honesta e correta para ver a qualidade de nossos professores, em todos os níveis para ver como a coisa está! Os cursos de pós-graduação (especialmente as chamadas especializações) são um horror. Não qualificam ninguem. É pura enganação. Sei do falo! Já tenho 4 em meu currículo. Conheço o sistema e percebo como ele tem andado. Dá minha primeira especialização, na década de 1990, até a última (anos 2000), só vi piorar. A qualidade dos cursos e dos professores só cai. Nas graduações então…Sem falar nesses cursos a distância…Tenho dó desse povo que se joga de corpo e alma nisso, achando que assim vai ter algo a mais. Pode até ser, se até agora ele teve coisa ainda pior. Então, se queremos realmente melhorar, evoluir enquanto nação, com esse sistema de ensino que temos hoje, não chegaremos a lugar algum. Continuaremos a ser o que sempre fomos: colônia e subservientes das economias centrais, alem da China, é claro. Outra coisa: o problema não é só com o governo Federal, que faz pouco em relação ao que deveria fazer; os governos estaduais (especialmente onde a turma do psdb/dem/pmbd está no poder) estão ridicularizando com o ensino. Os professores desses estados já se acham ridículos há muito tempo. Abraços.

  9. Patrick Sandre disse:

    O Brasil precisa passar por uma Primavera Árabe. 2012, gostaria que fosse o Ano das Revoltas Populares e da conscientização política do povo brasileiro!
    Parabéns pelo texto.

  10. Geraldo Magela Ramalho disse:

    É verdade que o Brasil tem melhorado, mas há muito ainda para ser feito. Não adianta ser a sexta economia do mundo e ser a 83ª em IDH, que é o que realmente interessa.Portanto,o Brasil precisa melhorar muito para que nosso povo tenha orgulho de viver num país socialmente justo.

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