Da polarização à politização da sociedade

publicada quinta-feira, 04/11/2010 às 10:52 e atualizada quinta-feira, 04/11/2010 às 13:21

Por Igor Felippe Santos

A eleição de Dilma Rousseff (PT) é uma vitória da sociedade brasileira. E não temos que ter vergonha de comemorar a derrota de José Serra (PSDB), que se tornou símbolo dos setores que se opõem às bandeiras progressistas no país.

A mídia burguesa, os setores conservadores da igreja católica e evangélica, os ruralistas mais truculentos e o imperialismo dos Estados Unidos perderam uma batalha importante com a derrota de Serra.

O tucano fez uma campanha fratricida, lançando mão de boatos, mentiras e ataques aos movimentos sociais (especialmente ao MST), com um corte de extrema-direita, para fazer terrorismo eleitoral. A imagem das mulheres grávidas no horário político de Serra demonstra sua opção pelo chamado “vale tudo”, inclusive jogar sua biografia no lixo.

Por debaixo dos panos, sem a coragem de debater publicamente, a campanha tucana satanizou a descriminalização do aborto e o casamento civil entre homossexuais, que já foram aprovados em países mais avançados. Com isso, os tucanos caíram no colo da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e da Opus Dei.

O clima criado pela campanha de Serra, tanto a oficial como a das sombras, causou uma polarização eleitoral, que obrigou os setores mais importantes da sociedade a tomarem partido. Organizações da sociedade civil, entidades de classe, intelectuais, artistas, estudantes, médicos, profissionais liberais, igrejas e a mídia (desde as televisões, passando pelos jornais, até chegar à internet) tiveram que fazer uma opção entre Dilma e Serra. E aqueles que se omitiram, pagarão o preço de ver o trem da história passar nos próximos quatro anos.

Como o embate eleitoral teve um nível muito baixo, essa polarização não girou em torno de projetos políticos antagônicos para o Brasil, mas na capacidade dos candidatos de continuarem as linhas gerais do governo Lula. De qualquer forma, dois campos políticos se expressaram de forma clara nessas eleições, contraponto o setor progressista e conservador. Em 2006, por exemplo, o quadro político não ficou tão claro.

Nesse quadro, o grande desafio dos setores progressistas é manter a coesão desse bloco construído em torno de Dilma e politizar as disputas políticas que virão, em torno do programa democrático-popular. Assim, a partir desta eleição, esse campo poderá fazer pressão por mudanças estruturais necessárias para a sociedade brasileira, que garantam educação, saúde, moradia, saneamento básico e terra para os brasileiros.

Embora as políticas públicas nessas áreas sejam muito importantes, não terão forças para solucionar os principais problemas que essa geração do povo brasileiro enfrenta no seu dia a dia. Os direitos sociais da população só estarão garantidos com reformas estruturais, que implicam enfrentar os interesses da classe dominante brasileira e internacional, que quer impor uma outra agenda ao país.

As forças do neoliberalismo, lideradas pelos bancos, capital financeiro, empresas transnacionais e os grandes meios de comunicação, farão o possível – e impossível, como mostraram na campanha – para impedir qualquer medida progressista do governo federal.

Não podemos ignorar, inclusive, que esses setores têm força e influência dentro da ampla coalizão de forças que venceu a eleição presidencial. Por isso, é fundamental a pressão da sociedade para enfrentar os interesses conservadores, inclusive dentro do que vier a ser o governo Dilma.

Os setores progressistas venceram uma batalha importante com a vitória de Dilma, mas a luta continua, será intensa e dependerá da participação de toda a sociedade brasileira, que precisa se posicionar em relação a cada disputa, enfrentando os interesses dos poderosos para garantir transformações sociais para resolver os problemas do povo brasileiro.

Igor Felippe Santos é jornalista, editor da Página do MST, integrante da Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária e do Centro de Estudos Barão de Itararé.

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7 Comentários

7 Comentários para “Da polarização à politização da sociedade”

  1. O Serra não é “cachorro morto”, muito pelo contrário…

    O Serra não é cachorro morto mas, ao contrário, é um perigo permanente para a democracia e para a evolução do país, na medida que se esforçou e conseguiu articular o que há de mais reacionário, fundamentalista, racista, machista, homofóbico e autoritário no país.

    O que ele deu a entender no seu discurso de “reconhecimento da derrota” é que a luta dura continuará. Não uma oposição normal, mas uma oposição sistemática que negará e tentará derrubar tudo o que o govero Dilma vier a propor ou construir.

    Sinalizou que coordenará o processo de desgaste permanente do Governo Dilma, que as Organizações Serra (Globo, Folha, Estadão e Veja, entre outros) executarão daqui pra frente.

    Texto completo em: http://festivaldebesteirasnaimprensa.wordpress.com/2010/11/04/o-serra-nao-e-cachorro-morto-muito-pelo-contrario/

    *

  2. Roberto de Paulo disse:

    Mostrou que é fraco,perdeu a Eleição fazendo a campanha mais suja até os dia de hoje,chega de dar nome a este sujeito,já era,a chance dele foi esta.

  3. Cabeda disse:

    A militância vai ter que trombar com esses pitbulls desde o primeiro dia do governo. Não vejo outra saída que não um incansável confronto de ideias e uma fiscalização sem tréguas e intransigente do conteúdo da mídia de massa.

  4. Eason Nascimento disse:

    Venho insistindo na tese de que a luta continua. Elegemos Dilma, mas não resolvemos os problemas que a direita nos impõe. Teremos que enfrentá-la mesmo com Dilma na presidência. O ínicio desta luta se dará já na indicação dos nomes para os mais altos cargos da República. Alguns nomes que o PMDB sustenta, me assusta.
    http://easonfn.wordpress.com

  5. Muito me honra, e engrandece, ler tais matérias jornalísticas, fartas de ilibada e aprofundada
    análise do comportamento social!

    Só tenho a agradecer, sempre, ao Jornalista com Jota
    grandão.

  6. Danilo disse:

    Algumas sugestões para Dilma:

    a) Aumentar uma faixa do imposto de Renda aos mais ricos: 35% por ex., transferindo essa RENDA EXTRA a incorporação de mais familias no Bolsa Familia
    b)Taxar mais o agronegócio, transferindo essa renda totalmente a agricultura familiar.
    c)Aumentar a taxação aos bancos, transferindo essa renda extra a área da Saúde.
    d) Taxar á imprensa nacional.

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