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	<title>Escrevinhador &#187; Entrementes</title>
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	<description>Por Rodrigo Vianna</description>
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		<title>Sou branco ibero-descendente. E daí?</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Nov 2010 12:54:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrementes]]></category>
		<category><![CDATA[Colunista]]></category>

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		<description><![CDATA[Nossa identidade talvez seja, em certa medida, forjada de fora para dentro, e quando nos sentimos obrigados a incorporar esta identidade (mesmo que à nossa revelia), bem então possamos estar falando de preconceito (de pele, de hábitos, de preferências etc). E muitas vezes esse tipo de atitude quando associada à cor de pele ganha o nome de racismo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<p>Sou branco ibero-descendente. Cheguei a esta fórmula caminhando pelo Aterro do Flamengo alguns anos atrás e pensando a respeito de uma campanha contra o racismo, da qual participei como assessor de imprensa contratado do Ibase, no Rio de Janeiro. Nunca tinha parado para refletir sobre essa coisa do racismo até aquele momento. O fiz por obrigação profissional.</p>
<p>Então, o que poderia eu falar sobre o racismo?  O que aquilo tinha a ver comigo, afinal de contas? Jamais sofri, até onde lembro, qualquer tipo de preconceito por causa de minha cor de pele. Nunca me abordaram na rua, nem na porta de um restaurante ou hall de hotel. Já fui parado pela polícia, mas como motorista de um carro velho, nunca pela minha aparência. Jamais alguém comentou: lá vai o branco ibero-descendente! (“magrão” foi o apelido mais próximo associado a minhas características físicas que já tive, mas isto entre peladeiros de rua dezenas de anos atrás).</p>
<p>Como poderia contribuir? Afinal havia sido contratado como jornalista exatamente para isto, para ter ideias de comunicação. O diferencial da iniciativa é que a campanha teria como público-alvo os brancos. O “conceito” (toda campanha publicitária tem um) era o de que as pessoas precisavam, em primeiro lugar, admitir seu próprio preconceito, para depois livrar-se dele. Se minha missão era comunicar isto de alguma forma, bem, então melhor começar comigo mesmo para ver no que ia dar.</p>
<p>Já escreveu Carlos Drummond de Andrade, certa vez, que caminhar é ótimo para colocar as ideias no lugar. Neste caso, funcionou, pelo menos em parte.</p>
<p>Suando na orla carioca, primeiro me perguntei se fazia algum sentido considerarmos o “negro” como fonte suficiente de identidade. Se eu nunca tinha pensado em mim mesmo como “branco” como fator de identidade, por que cargas d´água um “negro” o faria? E se assim fosse, bem, então onde colocar esse negócio de racismo?</p>
<p>Para começar, a classificação “branco” me pareceu pouco convincente, abrangente demais. Ok, sou branco, mas muito diferente em aspecto físico do Henrik, meu amigo sueco com quem tomo chopp de vez em quando. Ele é loiro de olhos azuis e tem a pele quase vermelha. Não tenho nada a ver com seu fenótipo. Sou branco, mas diferente dos nórdicos, e, por tabela, dos germânicos, dos anglo-saxões, dos eslavos e assim por diante.</p>
<p>E foi então que tentei outro caminho, me perguntando de onde vim. Do meu avô para cima (todos estão no céu), são, até onde sei, portugueses ou brasileiros, mas com antepassados lusitanos. Em Os Lusíadas o primeiro nome próprio que aparece é exatamente o de um Pacheco (ou Jordão, agora não me recordo).</p>
<p>No exercício forçado de auto-definição – e transpirando na pista do Aterro – cheguei portanto a “branco ibérico”, o que me distinguiria, por exemplo, dos ingleses, alemães, russos e suecos. E me aproximaria de algum modo dos latinos, dos espanhóis, franceses e italianos. Mas como não sou de fato português, mas brasileiro, a definição ficaria falha. Então veio o “descendente”, completando a fórmula que abriu este pequeno ensaio.</p>
<p>A pergunta seguinte foi um inevitável: e daí?</p>
<p>E daí raciocinei que esta minha auto-definição teria algum significado real e concreto apenas se me fosse extremamente útil ou se, por circunstâncias, outros grupos me obrigassem a me sentir como um “branco ibero-descendente”, mesmo que à minha revelia. Mas como seria isto, se eu passasse a ser visto, antes de tudo, como um branco ibero-descendente?</p>
<p>Andando na rua, alguém gritaria, “e aí ibero!”. Possivelmente me sentiria mais à vontade em bares freqüentados também por “iberos”. Músicas, comidas, me lembrariam de que sou “ibero”. Talvez muita gente, de fato, não gostasse dos “iberos” – nosso cheiro seria diferente do dos outros, vai saber.</p>
<p>Viajando nestas conjecturas já deixara o Aterro para trás e subira a Rua Paissandu no Flamengo, a algumas dezenas de metros de casa. Desacelerei o passo, pois a caminhada ajuda na elaboração das ideias, mas é preciso concluí-las minimamente antes de chegarmos ao nosso destino – e ainda não tinha costurado os pensamentos totalmente (se é que vou conseguir até as últimas linhas que restam deste artigo).</p>
<p>Ok, branco ibero-descendente; mas isto não faz sentido na minha vida cotidiana – e basicamente porque ninguém me obriga a lembrar que sou ibero-descendente. E isto na verdade é um alívio. E se não me enxergam deste modo, bem então não há conceitos preconcebidos a meu respeito, não no que diz respeito ao meu fenótipo. Ou seja: por não receber este tipo de preconceito, eu não preciso me identificar de acordo com minha cor de pele ou descendência, ou ambos.</p>
<p>Colocado de outra forma: nossa identidade talvez seja, em certa medida, forjada de fora para dentro, e quando nos sentimos obrigados a incorporar esta identidade (mesmo que à nossa revelia), bem então possamos estar falando de preconceito (de pele, de hábitos, de preferências etc). E muitas vezes esse tipo de atitude quando associada à cor de pele ganha o nome de racismo.</p>
<p>A caminhada rendeu frutos. Certamente não cheguei a conclusões brilhantes mas consegui me aproximar de um tema instigante. E hoje me classifico como um branco ibero-descendente, embora não saiba exatamente a serventia disso. Em tempo: aqui segue o <a href="http://www.dialogoscontraoracismo.org.br/">site da campanha contra o racismo</a> citada no texto.</p>
<p><em><br />
Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com">Entrementes</a>.<br />
</em></p>
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		<title>Intervenção urbana: as causas públicas</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Sep 2010 18:25:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrementes]]></category>
		<category><![CDATA[Colunista]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Rogério Pacheco Jordão: "Sempre achei interessante a capacidade de certos grupos de gerarem fatos a partir de intervenções criativas que despertam a atenção das pessoas. Quem tem idade para isto e não se lembra, por exemplo, dos barcos do Greenpeace em meio a baleias para impedir sua pesca, enfrentando arpões e a ira dos baleeiros, nos idos de 1980?"]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<p>Sempre achei interessante a capacidade de certos grupos de gerarem fatos a partir de intervenções criativas que despertam a atenção das pessoas. Quem tem idade para isto e não se lembra, por exemplo, dos barcos do Greenpeace em meio a baleias para impedir sua pesca, enfrentando arpões e a ira dos baleeiros, nos idos de 1980?</p>
<p>Lembrei-me disso recentemente quando assisti a uma palestra de um jornalista alemão e que trabalha na comunicação política de uma think-tank (instituto) que promove “valores” próximos ao da Democracia Cristã (a direita de lá). Ele descreveu suas campanhas de mídia e de como se pode “influenciar” a opinião pública ao longo do tempo – o que inclui planejamento, profissionalismo e dinheiro. E a certa altura referiu-se ao Greenpeace como uma espécie de modelo, uma fonte de inspiração. E isto porque a ONG verde mobiliza a opinião pública alemã, em especial os mais jovens (apesar de o fazer na direção contrária aos interesses da democracia-cristã, segundo o jornalista).</p>
<p>Na Internet selecionei alguns exemplos legais de ações criativas voltadas para causas públicas  – e que podem, quem sabe, nos inspirar por aqui.</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/v_mg_4623.jpg" rel="lightbox[3503]"><img class="size-full wp-image-3502 alignleft" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/v_mg_4623.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Os artistas Helen Evans (Inglaterra) e Heiko Hansen (Alemanha) (http://hehe.org.free.fr/ )   realizaram uma “intervenção” interessante em Helsinki, capital da Finlândia. Durante uma semana projetaram raios laser sobre os contornos da fumaça que saía da chaminé de uma estação de energia. Denominada de “instalação ambiental”, a nuvem verde (“Nuage Verte”, acima) teve como objetivo chamar a atenção para o consumo de energia na cidade (a usina é uma geradora de eletricidade movida a carvão).O conceito do trabalho: “realizar uma pesquisa artística explorando a poluição desde um ponto de vista especulativo e cultural”.</p>
<p>Já na Inglaterra, artistas têm usado as imagens das milhões de câmeras de segurança (CCTVs) instaladas pelo país em supermercados, shoppings, estacionamentos, nas ruas, enfim, em praticamente todos os recantos onde há viva alma, como fonte de criação. A cineasta  Manu Luksch produziu um filme (abaixo) a partir de imagens dela própria que ela requisitou ao longo de 4 anos – pela lei inglesa qualquer cidadão tem o direito de pedir suas imagens a quem controla as câmeras, inclusive as instaladas por estabelecimentos particulares. O título: Faceless (Sem Rosto, já que, também por lei, pode-se pedir suas imagens, mas as outras pessoas que aparecem na “cena” – digamos, uma tarde em algum parque de Londres ou subindo-se uma escada rolante do metrô – devem ter suas identidades apagadas, no caso, com bolas no rosto). A iniciativa vem de encontro à crescente inquietação gerada pelo excesso de câmeras de segurança e a consequente invasão de privacidade.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/yLzJCeGYgbg&amp;feature" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/yLzJCeGYgbg&amp;feature"></embed></object></p>
<p>Outro britânico interessante é o <a href="http://www.banksy.co.uk">Banksy</a>.  Abaixo uma intervenção dele em Londres que pode funcionar como uma bem-humorada crítica á quantidade de carros nas cidades.</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/flower011.jpg" rel="lightbox[3503]"><img class="alignnone size-full wp-image-3504" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/flower011.jpg" alt="" width="499" height="345" /></a></p>
<p>Ainda na Inglaterra, em 2006, um ativista do grupo Fathers For Justice, que defende o direito de pais verem seus filhos após separações judiciais,  invadiu o Palácio de Bukingham vestido de Batman e conseguiu uma exposição mundial para o endereço de sua URL (abaixo).</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/13-palace.jpg" rel="lightbox[3503]"><img class="alignnone size-full wp-image-3505" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/09/13-palace.jpg" alt="" width="200" height="180" /></a></p>
<p>Mas, pelo menos neste caso, a busca pela mídia cobrou um preço alto: algum tempo depois o Fathers For Justice chegou a ser fechado temporariamente após a polícia detectar conversas de seus membros planejando, supostamente, sequestrar o filho do (então) primeiro-ministro Tony Blair.</p>
<p>Aí foi demais.<br />
<em><br />
Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com/">Entrementes</a></em></p>
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		<title>Os Pretos Novos</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 14:55:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrementes]]></category>
		<category><![CDATA[Colunista]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA["Em 1996, Merced recebeu um telefonema em seu trabalho. Os pedreiros que trabalhavam em uma obra em sua casa tinham, ao cavar um buraco, encontrado um punhado de ossos. Era o início de uma descoberta arqueológica dessas passíveis de acontecer em uma cidade histórica como o Rio." Leia o novo artigo na coluna de Rogério Pacheco Jordão. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Os Pretos Novos</strong></p>
<p><em>Por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<div id="attachment_2426" class="wp-caption alignnone" style="width: 354px"><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/08/rg3.jpg" rel="lightbox[2416]"><img class="size-full wp-image-2426 " src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/08/rg3.jpg" alt="" width="344" height="458" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: quadro “Filhos dos Reis brincando”, de Maria Lúcia dos Santos, em foto de Dominique Lieutet</p></div>
<p>Fiz uma visita ao <a href="http://www.pretosnovos.com.br/index.html">Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos</a> (IPN), que fica no bairro da Gamboa (antiga Saúde), na região portuária do Rio de Janeiro. Passei uma ótima tarde conversando com a presidenta do Instituto, a Ana Maria de La Merced G.G.G dos Anjos, ou simplesmente, Merced. Filha de português com uma espanhola, a história do Instituto esta umbilicalmente ligada a sua trajetória pessoal e à de seu marido, Petrucio.</p>
<p>Foi assim: em 1996 Merced, que mora na Rua Pedro Ernesto, recebeu um telefonema em seu trabalho, dando conta que os pedreiros que trabalhavam em uma obra em sua casa tinham, ao cavar um buraco, encontrado um punhado de ossos. Era o início de uma descoberta arqueológica, dessas passíveis de acontecer em uma cidade histórica como o Rio. Tratava-se do antigo cemitério dos pretos novos, onde foram enterrados em fossas comuns, nos séculos XVIII e início do XIX, milhares de escravos africanos, muitos dos quais recém-chegados ao Brasil (daí o nome “pretos novos”), e que ficavam “armazenados” não longe dali, no mercado do Valongo. Até aquela manhã em que os pedreiros removeram a terra e se depararam com os restos mortais (e outros objetos), acreditava-se que o cemitério ficasse em outro lugar. Calcula-se que, apenas no período entre 1824 e 1830, 6.122 pessoas tenham sido sepultadas no local.</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/08/rg2.jpg" rel="lightbox[2416]"><img class="size-full wp-image-2418 alignnone" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/08/rg2.jpg" alt="" width="534" height="130" /></a></p>
<p>Na época da descoberta – e após Merced (na foto acima) pensar que se tratava dos restos de uma chacina (“cheguei a procurar um delegado”) – as autoridades competentes foram acionadas e arqueólogos retiraram parte do material – atualmente em poder do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). O trabalho de escavação – que teve repercussão na imprensa no período –, porém, ficou basicamente restrito ao que os pedreiros já tinham feito: fechou-se o buraco e a obra prosseguiu. Hoje um conjunto de 4 ou 5 casas (entre elas a de Merced e a sede do IPN, que fica ao lado) repousa sobre o que muitos acreditam ser o principal depositário de restos mortais de africanos no Brasil. No presente, um estudante de arqueologia, que ficou amigo de Merced, está trabalhando para calcular as dimensões exatas do cemitério.</p>
<p>De lá para cá, o IPN foi criado e virou ponto de cultura do governo federal e da Secretaria de Cultura do estado do Rio de Janeiro. Passada a euforia do achado, porém, tem-se um sítio arqueológico não explorado – e as tentativas de Merced e seu marido de criarem algo a partir do fato. Mas o quê? Um museu? Por ora, eles mantêm as atividades do IPN, que abarcam, entre outras iniciativas, uma série de oficinas sobre história, voltadas para estudantes do ensino médio e professores.<br />
Mas os recursos são esparsos e a manutenção é cara – as casas são tombadas pelo patrimônio histórico, o que significa, por exemplo, que os telhados não podem ser trocados – e manter um telhado antigo e calhas não é tarefa banal.</p>
<p>A sede do IPN funciona em uma casa comprida com um belo teto de vigas de madeira. No salão principal há uma exposição permanente de pinturas (a Galeria de Arte Pretos Novos), alguns tapumes com fotos do sítio arqueológico, além de equipamentos de escritório. As oficinas funcionam em uma sala contígua.</p>
<p>Mas como manter a iniciativa é um dilema – o mesmo vivido, aliás, por diversas organizações não governamentais e iniciativas do gênero, ancoradas em excelentes intenções mas limitadas do ponto de vista de recursos. Se o Brasil fosse um país que preservasse sua memória, valorizasse isto, talvez os caminhos descortinassem com mais naturalidade, mas como não é o caso, Merced e Petrucio têm muitos sonhos mas a sensação de que o “o tempo é curto”.</p>
<p>O cemitério, se bem tratado, com certeza poderia fazer parte, por exemplo, de um roteiro turístico-cultural, que englobaria as diferentes facetas da vida dos africanos no Rio de Janeiro em séculos passados, ao lado do mercado do Valongo (atual Rua Camerino), o porto, entre outros pontos da região hoje chamada de Gamboa. Em um clima favorável, pró-valorização da memória, o IPN não seria um (importante) fio solto, mas elo para muitas outras coisas.</p>
<p>E lá estão também as pinturas de uma figura excepcional, que conheci no final da visita e com quem peguei o ônibus de volta para casa. Maria Lucia dos Santos é uma artista e tanto – uma senhora negra com cabelos suavemente acizentados e um olhar vivaz. Ela me mostra quadro por quadro, povoados por dragões do céu, dragões da terra, leõezinhos, macacos, pássaros azuis, além de outros seres que ela enxerga nas paredes e passa para as telas.</p>
<p>MLS, como assina a artista, mora no Morro do Pinto e conta que já foi passar dois meses em Minas Gerais pesquisando pedras. Cada pedra, ensina, tem suas qualidades. Pergunto se para esculpir, ela dá risada, e diz que é para cura – que a pedra ela arranca das grutas com as mãos, mas que o segredo ela não ensina para ninguém, pois tem gente que pode usar para o mal.</p>
<p>No trânsito da Av Rio Branco parado na hora do rush, ela fala sem parar, lembrando que foi para Tiradentes, em Minas Gerais, e lá pintou um quadro chamado Inocência. Por que este nome, pergunto. “É porque lá tem muita gente inocente”. E ri.<br />
<em><br />
Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com/">Entrementes</a></em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma favela em SP, 20 anos depois</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 13:47:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrementes]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha busca começou por encontrar o telefone de Celina. Depois de tantos anos, ela não guarda nenhum papel, nenhuma lista de presença, nem material didático de nossas aulas de alfabetização pelo método Paulo Freire que dávamos na favela do Jardim Colombo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_2145" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg-20-j.jpg" rel="lightbox[2144]"><img class="size-full wp-image-2145" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg-20-j.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem noturna do Colombo, com os prédios do Morumbi ao fundo </p></div>
<p><em><br />
Por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<p>Minha busca começou por encontrar o telefone de Celina. Depois de tantos anos, ela não guarda nenhum papel, nenhuma lista de presença, nem material didático de nossas aulas de alfabetização pelo método Paulo Freire que dávamos na favela do Jardim Colombo. Curiosamente, recorda-se apenas de um nome, coincidentemente o único que também guardo na memória e que motiva esta busca, mais de 20 anos depois: José Suzarte. Por que procurar Suzarte? Ou seria Sozarte?</p>
<p>Nos meus arquivos o que ainda resta são três números do Candeia, jornal artesanal que fizemos –estudantes de Ciências Humanas da USP – em 1986. Naquele tempo fui ao Colombo dia sim, dia não, incluindo-se alguns finais de semana, durante dois anos. Eram cerca de 20 alunos, entre eles – o único do qual me recordo feição e nome completo – José Suzarte de Carvalho. É difícil definir a grafia do nome, visto que no jornal Candeia número 2, de agosto de 1986, que listava os candidatos à União dos Moradores, aparece como José Sozarte de Carvalho – e na edição do mês seguinte, ele é o candidato número 15 onde se lê José Suzarte (Mé).</p>
<p>Coveiro do cemitério Gethsêmani, colado na favela, Suzarte ou Sozarte era analfabeto e seu perfil não se encaixava nas linhas dos livros de Paulo Freire: era uma espécie de anti-aluno, de anti-herói. Enquanto buscávamos desvendar mundos e horizontes pelas letras, a partir de “palavras geradoras” como ti-jo-lo, fa-ve-la, sa-la-ri-o, Suzarte queria apenas – e dizia isto – aprender a assinar o próprio nome. E ainda assim porque o cemitério passara a exigi-lo de uma hora para outra.</p>
<p><strong>Google &amp; interurbanos</strong><br />
Os dados do IBGE para o Jardim Colombo revelam uma população de 5.245 pessoas e que a situação geral melhorou de saneamento, renda, educação, tanto nas regiões “subnormais” (como as favelas são definidas nas estatísticas censitárias) Colombo 1 como na Colombo 2, pois a favela é dividida em duas. A Rua Clementino Brene, que as separa, desemboca na extensa Av. Giovanni Gronchi, no Morumbi, na entrada de uma das maiores favelas de São Paulo, a Paraisópolis, na zona sul.</p>
<p>No Google, a primeira referência a Jardim Colombo toca a corda do medo. Diz que “Os escritores do livro Hip-Hop a Lápis; Ridson, Justin e Zero4 são alguns dos moradores do Jardim Colombo perseguido (sic) pela polícia”. O texto ainda descreve helicópteros policiais sobrevoando a favela. Onde estará Suzarte? Magro, baixo, com a cara chupada, era um cara confuso, quase engraçado. Veio do interior da Bahia e chegou a São Paulo nos idos de 1970 na antiga rodoviária da cidade na Luz.</p>
<p>Na internet localizo o telefone da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor no Colombo, que passou o número da União dos Moradores e o nome do seu presidente. Genilson ouve a minha breve história. Quando falo em Suzarte, se o conhece, ele diz que é claro!, ele é da União, “nosso braço direito” e pede que eu ligue no dia seguinte para falarmos num aparelho fixo. Na União atende Luciene, a secretária; segundo ela, Suzarte anda “chique”, tem dois aparelhos celulares – e me fornece os números.</p>
<p>Suzarte responde ao meu alô empregando a terceira pessoa: “Quem quer falar com ele?”. Me apresento, lembra de mim?, ele diz “sim”. Ressabiado, seco – contraria minhas expectativas de um diálogo após 20 anos de ausência. Diz que lá agora “está muito bom”, que “mudou muito”, se anima, e digo que seu nome foi o único que me lembrei, para o que, aparentemente feliz, comenta: “É, Suzarte”.</p>
<p>No telefonema seguinte ele conta que o Colombo já não é mais favela, “virou cidade”. Sugere que domingo não é bom para aparecer, que “dia de semana é melhor”. Diz que sofreu um acidente, que quebrou a perna e o braço, aposentou-se por invalidez; tem 55 anos e está “mais gordo”. Não é fácil entender sua língua. Rua Clementino Brene vira algo incompreensível terminado com “Bene”. E sacramentamos o encontro: segunda-feira às 9 da manhã na União, virei do Rio de Janeiro.</p>
<p><strong>A “realidade”</strong><br />
Às nove da manhã em ponto me posiciono em frente à casa amarela-descascada protegida por um portão de ferro vermelho trancado a cadeado. Não tenho dificuldade para reconhecer a União, ali da entrada da favela pela Rua Clementino Brene, local de onde obtém-se uma vista panorâmica da comunidade, instalada dentro de um pequeno vale. A paisagem agora é laranja, dos blocos, pois a comunidade ganhou em volume de construção – no passado tendia para o marrom, cor de tábua, e o verde, pois havia clarões com árvores e mato.</p>
<p>Levo alguns segundos para reconhecê-lo quando chega acompanhado por uma mulher loira e é ela, Luciene, a secretária da União, quem olha e fala o meu nome. O rosto de Suzarte é o mesmo, só que inflado. Não olha diretamente, estende rapidamente a mão. Não sei o que fazer nem o que perguntar; ele me encaminha: “entra”.</p>
<p>Observo ao redor a antiga sala de aula, estreita, escura. Abro a pasta, tiro os jornais daquela época, ele demonstra satisfação, alegra-se ao relembrar “aquele tempo”, “era mais sossegado, antigamente”. Faz referências genéricas às drogas e comenta que “os jovens são a tristeza do Brasil”.</p>
<p>De lá partimos para a visita, sem um aparente roteiro prévio, mas que, percebo, Suzarte quer mostrar as melhorias. A primeira parada é o prédio de concreto aparente sustentado por pilotis da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor, um conjunto de salas de dois andares, que chama a atenção pela modernidade, destoa do restante, principalmente do acanhamento da sede da União, que fica ao lado. O conjunto tem uma quadra de esportes, ar-condicionado para os computadores, salas de aula de informática e de formação profissional. E hoje há provas de redação – “se eu fosse Presidente da República”, e, na sala contígua, uma mensagem à giz na louza: “Só temos uma chance para causar a primeira boa impressão”, Woll Disney.</p>
<p>Suzarte apresenta as pessoas que passam, as mais velhas, “o professor, lembra?”, leva na mão um exemplar do jornal, “muito importante, ajudou muito”, que por vezes mostra, como fazia há vinte anos, de ponta cabeça, já dando sinal (hesito em perguntar, é delicado) de que não aprendera a ler. Pergunto. Ele sorri, encabulado, “aprendi a fazer meu nome”. E continua nas vielas, por onde circulam algumas motos e há carros (poucos) estacionados, “lembra do Sebastião?”, eu não lembro, nem da Igreja em obras, uma casa espremida entre outras.</p>
<p>Visito as duas creches (que não existiam antes), bem arrumadas com desenhos infantis pendurados nas paredes – e a reclamação é que o repasse da prefeitura é pouco, paga os salários, mas e a mistura?; o telefone não funciona há dois dias. As creches atendem a mais de 200 crianças, mas o número que está fora é igual ou maior que este, informam.</p>
<p>No vai-e-vem das vielas, Suzarte para e aponta por três vezes, no mesmo local, uma passagem de água suja que corre a céu aberto por debaixo de uma casa, “vem lá de cima”, inocentemente pergunto onde está a nascente, “é esgoto”. No trajeto de volta – e depois de passarmos na casa de Chico Paraíba, 75 anos, o morador mais velho, “fui o terceiro a chegar, era tudo mato, tinha um rio que a gente lavava roupa, uns peixinhos vermelhos que pareciam camarões, lembra Suzarte?, tudo mudou” – já a caminho da União, da saída, mostra no braço direito a cicatriz do acidente, um atropelamento dentro da favela, um motorista “emaconhado”, “esbagaçou o braço e a perna, quase morri”. Difícil entender o que ele fala, como o é decifrar as pequenas letras estampadas em sua camiseta azul, onde lê-se, em formato de rodamoinho, “Colisão – here, there and everywhere”.</p>
<p>Suzarte é de poucas palavras. Evita encarar o interlocutor, observa de soslaio; nas vielas, porém, se comunica o tempo todo com todos, frases cifradas, em tom baixo. “Tenho audiência na comunidade”, refere-se aos quase 600 votos em uma das eleições para a União. Ele faz as apresentações, depois fica observando, intervém, aqui e ali, para lembrar que antes, não agora, em São Paulo se ganhava dinheiro com “rifa”, “cocada”, “ferro velho”, mas hoje, hoje&#8230;na favela “ninguém conhece ninguém, parece cidade grande”.</p>
<p>Já na União, sozinhos, e como último ato, inquiro-lhe se é Suzarte com “u” ou Sozarte com “o”. Ele não entende a procedência da pergunta, então escrevo-lhe o nome na folha em branco com “u”, é assim?, ele mal olha, não foca na grafia mas confirma. Peço, então, amistosamente, que ele assine o próprio nome, para o que acede, empunhando a caneta, as pernas cruzadas. Concentra-se. Leva um tempo grande para desenhar cinco letras: ‘Jozte’.</p>
<p>Agradeço pela cortesia, foi bom ter vindo, ver o que havia mudado em 20 anos. Ele arregala os olhos pela primeira vez no dia e pergunta, ansiando pela resposta: “e mudou, Rogério?”.</p>
<p><em>Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com/">Entrementes</a>. Foto por </em><em><a href="http://www.flickr.com/photos/slave/21796630/">liquidslave</a></em>.</p>
<p>Nota: Este texto, aqui em versão editada, foi publicado  na revista Caros Amigos em janeiro de 2008</p>
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		<title>Uma conversa sobre lixo nos mares</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 14:38:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
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<div id="attachment_1840" class="wp-caption alignnone" style="width: 301px"><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg2.jpg" rel="lightbox[1838]"><img class="size-full wp-image-1840 " style="border: 2px solid black; margin: 2px;" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg2.jpg" alt="" width="291" height="217" /></a><p class="wp-caption-text">Detritos encontrados em alto-mar</p></div>
<div id="attachment_1841" class="wp-caption alignnone" style="width: 511px"><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg3.jpg" rel="lightbox[1838]"><img class="size-full wp-image-1841 " style="border: 2px solid black; margin: 2px;" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/07/rg3.jpg" alt="" width="501" height="330" /></a><p class="wp-caption-text">Mapeamento de lixo no Pacífico Norte: agora é a vez do Atlântico Sul</p></div>
<p><em>por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<p>Transcrevo abaixo uma conversa que tive, recentemente e por e-mail, com o pesquisador americano Marcus Eriksen, um dos organizadores da expedição que mapeará, pela primeira vez, a partir de agosto, a situação do lixo plástico existente no Oceano Atlântico Sul entre o Brasil e a África. O projeto será levado a cabo pela <a href="http://www.algalita.org/about-us.html">Algalita</a>, uma fundação baseada na Califórnia (EUA) e que há anos tenta dimensionar o tamanho do problema nos mares. No Oceano Pacífico Norte (onde são feitas coletas sistemáticas na faixa entre a costa oeste americana e o Havaí) a questão tem se agravado – os cientistas chegaram a recolher  peixes que continham restos plásticos em seus organismos. Esta, evidentemente, não é uma informação das mais palatáveis: além de ser um detrito em si, o plástico, ao decompor-se em micro-partículas, acaba absorvendo outros poluentes. E como estarão as coisas aqui por nossas plagas? Acompanhe a conversa com o pesquisador:</p>
<p><strong>Como será a expedição pelo Atlântico Sul?</strong><br />
<strong>Eriksen: </strong> Em agosto deveremos sair do Rio de Janeiro rumo às ilhas Ascenção (no meio do Atlântico), retornando para a cidade do Recife. Na seqüência, partiremos novamente do Rio rumo à Cidade do Cabo (África do Sul), pela via da corrente marítima sub-tropical do Atlântico Sul.  O principal objetivo é pesquisar a quantidade bem como o tipo de lixo plástico existente nesta parte do Oceano. Nós também coletaremos amostras de peixes para saber se há ingestão de plástico e a presença de poluentes em seus tecidos e órgãos.<br />
<strong><br />
Mas por que pesquisar as correntes marítimas e não outras zonas, como as costeiras, por exemplo?</strong><br />
<strong>Eriksen:</strong> As correntes marítimas, como as cinco sub-tropicais existentes no mundo, e que são as maiores, são zonas naturais de acúmulo de restos plásticos. De uma maneira ou de outra, já pesquisamos três das correntes sub-tropicais. Nos faltam agora as do Atlântico Sul e a do Pacífico Sul. No passado, os restos que encontrávamos nestas correntes eram troncos de árvores e cascas de coco. Agora não é mais assim: entre 60% e 80% do que nossos pesquisadores encontram é plástico.</p>
<p><strong>E de onde vem o lixo plástico que flutua nos Oceanos, afinal?</strong><br />
<strong>Eriksen</strong>: A principal fonte de lixo plástico nos mares são os restos gerados pela indústria de pesca, como boias, linhas e redes. Mas há também os produtos plásticos descartados como lixo nos diversos países. Acredito que a solução do problema passa necessariamente pelas indústrias. Se você fabrica um produto, é preciso que ele seja totalmente, ou quase totalmente, reciclável, ou que seja feito de componentes 100% biodegradáveis. E o plástico, definitivamente não se encaixa neste perfil. A prática de se descartar o plástico deve ser abolida.<br />
<strong><br />
A Fundação Algalita pesquisa há 10 anos a situação do lixo plástico na corrente sub-tropical do Pacífico Norte. Há algum balanço desta experiência?</strong><br />
<strong>Eriksen:</strong> Nós podemos dizer com segurança que a presença de restos plásticos nesta parte do Oceano tem aumentado. No caso, o plástico provem de países como o Japão, China, Estados Unidos, México e Canadá. É importante pesquisar o resto plástico, já que outros poluentes são absorvidos por este no mar, como PCBs (policlorobifenilos, um poluente orgânico), DDT (pesticida), PAHs (hidrocarboneto) e outros derivados de combustíveis fósseis.</p>
<p><strong>Em pesquisas no Pacífico, vocês coletaram amostras de peixes que continham plástico em seus organismos. Quais as conseqüências disso?</strong><br />
<strong>Eriksen:</strong> As nossas pesquisas mostram que os peixes têm ingerido partículas de plástico quando eles sobem à superfície para caçar alimentos. E quando o plástico boia no mar, ele absorve, naturalmente, outros tipos de poluentes. Não sabemos ainda se o peixe, ao ingerir o plástico, também acaba absorvendo estes outros poluentes – que por sua vez, pela lógica da cadeia alimentar, estariam sendo consumidos por seres humanos no final da linha. É neste ponto em que concentram-se, agora, os nossos estudos.</p>
<p><em>Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com/">blog Entrementes</a></em></p>
<p><strong>PS</strong> – Para quem quer saber mais sobre como é o dia-a-dia no barco em uma expedição de coleta de plástico no mar, sugiro este blog, com fotos e filmes: <span style="color: #0000ff;"><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://5gyres.org/whats_happening_now/blog/">http://5gyres.org/whats_happening_now/blog/</a></span></span></p>
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		<title>Um passeio pelo Rio de Janeiro dos escravos</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Jun 2010 13:12:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Pacheco Jordão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrementes]]></category>
		<category><![CDATA[escravidão]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Em um início de tarde calorento do Rio de Janeiro, subo uma escadaria íngreme que surge, como que do nada, da Rua Camerino, na zona portuária da cidade.  Após uma dezena de degraus, num escape à esquerda, vejo um mendigo e logo adiante três ou quatro corpos estendidos em meio a restos de comida e garrafas PET.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por <span style="color: #ff0000;">Rogério Pacheco Jordão</span></em></p>
<p>Em um início de tarde calorento do Rio de Janeiro, subo uma escadaria íngreme que surge, como que do nada, da Rua Camerino, na zona portuária da cidade.  Após uma dezena de degraus, num escape à esquerda, vejo um mendigo e logo adiante três ou quatro corpos estendidos em meio a restos de comida e garrafas PET. Eles estão deitados sobre o chão de terra numa clareira onde trilhas levam a outras escadarias que, por sua vez, dão em raízes de árvores ou interrompem-se em muretas, numa espécie de labirinto sem pé nem cabeça.  Não parece, mas trata-se de um parque, ou mais precisamente o “Jardim Suspenso do Valongo”, construído em 1906, informa a plaqueta. E embora não existam indicações aos transeuntes, foi nesta encosta que funcionou, 200 anos atrás, o maior mercado de escravos do Brasil.<br />
Cheguei até lá por meio de um mapa do século XIX, reproduzido no ótimo livro “<em>A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850</em>”, da historiadora norte-americana Mary C. Karasch. Ela esmiúça a vida dos escravos no Rio na primeira metade do século XIX, apoiada em extensa documentação. Muito interessante. A partir desta leitura, elaborei um breve roteiro turístico-histórico.  O passeio pode ser feito em um único dia e circunscreve-se à área central da cidade, a começar pela zona portuária.  Uma das regiões mais antigas do Rio, será “revitalizada” por conta das Olimpíadas e das obras do projeto “Porto Maravilha” (verbas públicas e privadas).  O  momento é, pois, oportuno para que aliemos reformas urbanas à recuperação &amp; preservação da memória – coisa rara de acontecer no Brasil.</p>
<p>O roteiro:</p>
<p>Parada 1: o Valongo</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/valongo.jpg" rel="lightbox[1553]"><img class="alignnone size-full wp-image-1554" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/valongo.jpg" alt="" width="100" height="77" /></a><br />
<em>O Valongo em pintura de <a href="http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&amp;source=hp&amp;q=imagens+debret&amp;um=1&amp;ie=UTF-8&amp;ei=OTvGSvmdEs6QuAfY7fXsCg&amp;sa=X&amp;oi=image_result_group&amp;ct=title&amp;resnum=1">Jean-Baptiste Debret</a></em></p>
<p>Na virada do século XVIII para o XIX o Rio de Janeiro já suplantara Salvador como o principal porto de desembarque de escravos vindos da África. Entre 1790 e 1830  chegaram na então capital da Colônia (depois Império) 706 mil africanos, provenientes principalmente de onde hoje ficam Angola, Congo e Moçambique, conforme dados compilados pelos historiadores João Fragoso e Manolo G. Florentino. Parte significativa desta massa humana teve como destino inicial no Brasil o mercado do Valongo &#8212; na verdade um conjunto de casas ou “armazéns” distribuídos ao longo de um vale entre os morros da Conceição e o do Livramento, na região do cais (10 minutos a pé da atual Praça Mauá).</p>
<p>No local há hoje, na subida para o Morro da Conceição, a ladeira do Valongo, uma travessa estreita que sai da Rua Camerino e que circunda pelo alto o chamado “Jardim Suspenso do Valongo”,  onde durante o dia dormem mendigos e crianças, ambos protegidos dos olhares dos pedestres pela arquitetura do local – da calçada abaixo vê-se apenas uma murada alta. Subindo a ladeira, enfim, e contornando o dito jardim – e após passar por um conjunto de casebres — você tem uma vista do vale, sendo possível imaginar, com algum esforço, como era a área 200 anos atrás.</p>
<p>No cume do Morro estão instalados uma unidade do Exército  e um observatório astronômico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não há referência ao antigo mercado – nenhuma placa, nada. A única indicação explicitamente histórica visível no entorno encontra-se materializada na praça abaixo, em um obelisco, onde lê-se que o “Cais do Valongo” foi reformado e “embelezado” em 1843 para a recepção à princesa Teresa Cristina de Bourbon, que,  vinda de Nápoles, casar-se-ia com D. Pedro II. E é tudo.</p>
<p>E do lado oposto, subindo-se a ladeira do Livramento (onde, aliás, nasceu o escritor Machado de Assis), dominada por casarões do início do século XX, muitos dos quais transformados em cortiços, chega-se a uma torre de transmissões da Embratel. De lá é possível avistar, virando-se as costas para a região do Cais, a Central do Brasil e o Campo de Santana.</p>
<p>Mas antes da próxima parada, um adendo, já que estamos perto do Valongo: a uns 400 ou 500 metros dali, na Rua Pedro Ernesto, 36, funciona o <a href="http://www.pretosnovos.com.br/index.html">Instituto Pretos Novos</a> (IPN), no antigo bairro da Saúde, atual Gamboa. O IPN repousa sobre um cemitério – o dos Pretos Novos – onde foram enterrados milhares de africanos, muitos advindos dos barracões do Valongo ou diretamente dos navios negreiros,  e que funcionou entre 1769 e 1830 (a partir deste ano o tráfico tornou-se ilegal). O cemitério foi “descoberto” por acaso em 1996 durante a reforma de uma casa – vale a pena ver os detalhes no site do IPN. E prossigamos.<br />
Parada 2: o Campo de Santana</p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/campo-de-santana1.jpg" rel="lightbox[1553]"><img class="alignnone size-full wp-image-1557" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/campo-de-santana1.jpg" alt="" width="500" height="316" /></a></p>
<p><em>O Campo de Santana em 1820, na concepção de Franz Josef Frühbeck: no canto direito, no alto, os morros do Livramento e da Conceição, em cujo vale ficava o mercado do Valongo. E abaixo a vista aérea nos tempos atuais.</em></p>
<p><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/campo-de-santana-hj.jpg" rel="lightbox[1553]"><img class="alignnone size-full wp-image-1556" src="http://www.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2010/06/campo-de-santana-hj.jpg" alt="" width="500" height="340" /></a></p>
<p>Em seu livro Karasch diz que o Campo de Santana (na região central, atual Praça da República) foi um ponto importante para a vida social dos escravos, que para lá iam, particularmente aos domingos, em suas horas de liberdade (outro local de reuniões era a Praça Tiradentes, não muito longe dali). Eram ocasiões festivas, com música e dança. A historiadora reproduz a descrição de um desses momentos feita por um mercador inglês chamado Robertson, que em 1808 achou que “não havia nada igual fora da África”.</p>
<p>Escreveu o viajante: “Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant´Ana, o teatro de destino da festança e algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola (…). A densa população do campo de Sant’Ana estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres. Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos”. (Karasch, pág 326).</p>
<p>Posteriormente, as autoridades proibiriam as grandes concentrações de escravos, consideradas “perturbações da ordem pública”, nas palavras de Karasch (embora, frise a historiadora, a proibição não tenha surtido totalmente efeito, tendo os encontros perseverado).</p>
<p>Fui ao Campo de Santana para tentar identificar algum rastro deste passado. Ficava por lá, também, um dos principais pelourinhos da cidade. Era ainda local para vendas públicas de escravos. Mas, mesmo com estes elementos significativos – e assim como no Valongo –, não há pistas.</p>
<p>Ponto de passagem, a algumas centenas de metros da Central do Brasil, de onde partem os trens para as zonas oeste e norte da cidade, chama a atenção no parque, a despeito de seus ares decadentes, suas belas árvores e cutias, que andam a solta. É certo que o local foi palco de grandes “momentos históricos”, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_de_Santana_(Rio_de_Janeiro)">nos dizeres da Wikipedia</a>, como a coroação de D Pedro I e a Proclamação da República, conforme nos lembra, também, um desgastado monumento eregido no centro do Campo. Mas  creio que não faria falta ao menos uma plaquinha no local, algo como: “E aqui reuniam-se na primeira metade do século XIX os escravos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em seus momentos de liberdade, aos domingos…”, lembrando, talvez, como aponta Karasch, que, em alguns intervalos de anos, quase a metade da população da cidade chegou a ser formada por cativos, em grande parte africanos, que trouxeram consigo diversas culturas, ricas em línguas (de origem banto, kikongo, quimbundo), hábitos, crenças (diferentes religiões), culinária (pirão, angu), musicalidade (tambores de diversos tipos, marimbas) , sabedorias etc. E tocamos adiante.</p>
<p>Parada 3 — Igreja Nossa Senhora do Rosário</p>
<p>A Igreja Nossa Senhora do Rosário (metrô Uruguaiana) é uma das poucas construídas e fundadas na cidade por irmandades de escravos e libertos. No fundo desta igreja funciona atualmente o Museu do Negro.</p>
<p>Ocupando um corredor e uma sala, o Museu é acanhado, com imagens de santos (como a de São Benedito, depositário de bilhetes pedindo graças), um busto de Zumbi dos Palmares (que recebe homenagens dos devotos), um pequeno mapa com os fluxos do tráfico negreiro da África para o Brasil a partir do século XVII, fotos de procissões da Irmandade nos anos 1950 (curiosamente a maioria dos que aparecem nelas é de brancos), uma palmatória de madeira, além de retratos de pessoas negras de destaque, como o de um Marechal do Exército (que agora me escapa o nome) e o da ex-governadora Benedita da Silva.</p>
<p>Já a Igreja propriamente dita é toda reformada, pois pegou fogo nos anos 1960, informa uma tabuleta de metal na entrada.</p>
<p>E na sala escura e quente da nave lateral onde as velas queimam, há duas reproduções de pinturas com homens trabalhando o que parece ser uma moenda de cana; é difícil distinguir por conta do negrume. Dali é possível ver por uma fresta a calçada do lado de fora, onde, ao alcance dos braços, uma mulher toda de branco monta diariamente uma tenda para consultas – quase ouve-se sua voz lá de dentro.</p>
<p>Pode-se sair deste breve roteiro com a impressão de que as pessoas teriam muito a ganhar se fossem oferecidos nos espaços públicos (via monumentos, placas, exposições criativas) resquícios mais amplos (e generosos) de nossa história. Se, como já sugeriu o cientista político americano <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Benedict_Anderson">Benedict Anderson</a>, as nações são “comunidades imaginadas”, é certo que o acesso a informações mais diversificadas nos estimularia a sonhá-las, quem sabe, em tons mais coloridos.<br />
<em><br />
Rogério Pacheco Jordão é jornalista e mantém o blog <a href="http://rogeriojordao.wordpress.com/">Entrementes</a></em></p>
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