ANT: uma voz contra a elitização do futebol
publicada quarta-feira, 10/11/2010 às 10:15 e atualizada segunda-feira, 14/03/2011 às 12:46
por Felipe Carrilho
“A religião é o ópio do povo” é uma das mais conhecidas frases de Karl Marx. Apesar da minha confessa admiração pela obra do pensador alemão, nunca consegui esconder certa ressalva em relação à sentença.
Dita isoladamente, a máxima estabelece uma regra geral para o papel social dos narcóticos e das crenças metafísicas (dito alienante), sem considerar os usos, as especificidades dos mais variados sistemas de representação mítica do universo, nem avaliá-los em perspectiva histórica.
Mas o pior acontece quando algum sabichão – geralmente metido a intelectual e esnobe – resolve adaptar a frase ao mundo da bola. “O futebol é o ópio do povo”, brada com ar de originalidade, e prossegue em sua perspicaz análise: “o Brasil não vai para frente porque o povo gosta mesmo é de pão e circo”.
Nem parece que estamos falando do esporte que um político conservador estadunidense, Jack Kemp, há alguns anos tratou de atacar de modo sintomático: “que se faça uma distinção entre o futebol norte-americano, democrático e capitalista, e o outro, europeu e socialista”. Sim, nos EUA o futebol é visto como uma atividade “suspeita”, de gente “esquerdista”.
E, como não bastassem os exemplos de resistência futebolística histórica do povo brasileiro, como da inclusão social do negro pelo exemplo de figuras emblemáticas – que vão de Friedenreich a Pelé, passando pelo goleiro Barbosa -, ou de afirmação da nossa cultura popular, com a conquista de cinco Copas do Mundo, surge agora mais um testemunho do potencial de mobilização do futebol: a ANT – Associação Nacional dos Torcedores.
Fundada há apenas um mês, dia 10 outubro, no Rio de Janeiro, a ANT é uma organização sem fins lucrativos que congrega torcedores de todos os clubes do Brasil. O objetivo geral é lutar contra a elitização do futebol brasileiro, cristalizada pela eminência da realização da Copa do Mundo de 2014 no país.
Sim, o futebol é a nossa cachaça, sem a qual ninguém segura o rojão das injustiças sociais. Abaixo, alguns tópicos, que podem ser encontrados no site da associação, e que dão conta do adversário a ser batido.
“1- A exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, fruto de uma política deliberada de diminuição da capacidade dos estádios, extinção de setores populares e aumento abusivo dos ingressos.
2- O desrespeito à cultura torcedora, com a extinção de áreas populares, como a geral, onde há uma tradição própria de participação no espetáculo, que inclui assistir ao jogo de pé (o que acontece na Alemanha).
3- A falta de transparência no futebol brasileiro, há décadas nas mãos de dirigentes incompetentes e corruptos; exigimos a democratização das decisões acerca do futebol brasileiro, com a participação dos torcedores; por exemplo: as sucessivas e milionárias reformas do Maracanã, feitas sem nenhuma consulta aos torcedores.
4- A exploração politiqueira do futebol visando eleger candidatos que se aproveitam da sua popularidade para conseguir mandatos contra o povo.
5- O controle das tabelas e horários dos campeonatos na mão da rede de televisão que há décadas detém o lucrativo monopólio das transmissões televisivas de jogos de futebol; horário máximo de 20h para o início das partidas durante a semana e 17h aos domingos.
6- A retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
7- A falta de meios de transporte dignos durante os dias de jogos; exigimos esquemas especiais em dias de jogos”.
Veja também esse vídeo informativo:
Felipe Carrilho é historiador e autor do livro “Futebol, uma janela para o Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”.
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16 Comentários







O pior é ver o meu querido Corinthians, um dos clubes brasileiros mais ligados ao povão, aquele torcedor que deixa de comer prá ir no estádio ver os jogos, ser um dos baluartes dessa elitização.
O Corinthians talvez seja o clube que mais precisa desse povão prá sobreviver. O que tornou Corinthins grande foi a sua gente. O bando de loucos existe devido à loucura dos seus torcedores mais pobres – num dos filmes recém-lançados sobre o clube, Sócrates exemplifica: “você consegue imaginar um sujeito sem casa, sem emprego, sem comida, consegue imaginar que esse cara pode ser feliz?”.
Porém, nos últimos anos, o Corinthians tem afugentado esse torcedor que melhor o representa. Ir a um jogo do Corinthians é caríssimo, e quase todos os eventos realizados pelo clube visam o torcedor que pode pagar (e bem).
Sei que outros clubes populares também sofrem do mesmo problema, mas como corinthiano só conheço os detalhes do meu. Mas sei que aparecerão flamenguistas, atleticanos e demais torcedores indignados com a elitização das suas praças também.
E apesar de falar demais no Corinthians (coisa de corinthiano doente) acho que a ANT, embora não deva esquecer os casos dos clubes, precisa sim nascer pensando principalmente na Copa de 2014.
A única forma de essa Copa ser “a melhor Copa da história”, como diz o presidente Lula, é se o torcedor de verdade puder ir aos jogos. Não o playboy que assiste futebol americano na tv a cabo e quando vai ao estádio ver futebol brasileiro assiste com cara de bunda e um pensamento crítico ridículo.
A nossa Copa precisa do torcedor típico do futebol, aquele qua vai fantasiado, que entra no estádio ajoelhado, que inventa canções e coreografias belíssimas ali mesmo na arqubancada. O torcedor que passa do riso do gol ao choro pela emoção daquele mesmo gol em questão de segundos.
Se a Copa desprezar nossa gente suada que vive e morre pelo futebol, se for feita pro mesmo pessoal que o César Maia escalou prá vaiar o presidente Lula no Pan 2007, vai ser um fracasso, como tudo o que é feito prá nossa elite medíocre.
Infelizmente, eu moro no Chile, embora apareça por São Paulo uma ou duas vezes por ano. Mas gostaria de participar da ANT de alguma forma, pelo menos farei todo o possível para colaborar de alguma forma e lhe desejo todo o sucesso do mundo.
Boas palavras Victor!
Essa é mais uma grande e bela briga que nossa “nova sociedade” (com muito mais acesso à informação e seus direitos) tem pela frente.
Temos que redirecionar o futebol para sua raiz, reviver a alegria de ir ao estádio.
Valorizar o torcedor e desvalorizar os cartolas, político e os poderes das TV´s.
Só p/ citar algumas coisas: Acabaram com a Geral, acabaram com os ingressos baratos, acabaram com os Grandes Públicos e colocaram jogos durante a semana às 22h !!!
Isso é evolução? Daqui a pouco futebol vai virar Teatro, freqüentado por poucos e ricos…
Vamos tratar de parar com essa bobagem. Primeiro, nos últimos anos a cultura sul-americana invadiu o futebol, ou seja. As pessoas não gostam de futebol, gostam do seu clube. Se para ser campeão tiver que quebrar a perna ou romper os ligamentos de um craque adversário, a torcida irá vibrar como um gol. Estamos na cultura da vitória a qualquer custo. As faixas nos estádios são o retrato disso, “Treino é jogo, jogo é Guerra”, “Deixem o sangue no campo, que deixamos a vida na arquibancada”. Aliás, a grande culpada disso foi a torcida do Grêmio FBPA(Nem sou gaúcho para me acusarem de algo), que extinguiu a cultura brasileira dos estádios e importou um misto do pior dos “barras” argentinos e dos “hooligans” europeus. A torcida do Grêmio não se fruta de cantar hinos racistas(os torcedores do S.C. Internacional são cantados como macacos e a torcida do Grêmio tradicionalmente lincha um boneco de macaco, como se fazia no sul dos Estados Unidos antes dos direitos civis). Um núcleo nazista já foi detectado pela Polícia Civil e pelo MP do RS dentro da torcida do Grêmio. Tudo é batalha, guerra, combate.
Sobre a elitização. Os clubes agora não querem meros torcedores, querem sócios. Novamente falo do sul, o S.C. Internacional tem mais de 100.000 sócios, o Grêmio FBPA, tem 60.000 e fechou novas filiações por absoluta falta de infraestrutura. O Estatuto do Torcedor obrigou os lugares marcados e sentados, que convenhamos, alguém aqui senta no lugar que está escrito no seu ingresso? Ao mesmo tempo o Estatuto do Torcedor tornou os clubes responsáveis pelo bem estar dos torcedores nos estádios, nada mais natural. Mas aí fica o dilema, como manter a segurança de torcedores de pé, amontoados, correndo nos setores dos estádios? É preciso repensar o Estatuto do Torcedor.
Nossas canções são horríveis. 10% são realmente belas, o resto são apelos por sangue, morte e destruição. Não basta vencer o adversário, é necessário aniquilar o “inimigo”. Nossas músicas são racistas(macacos), homofóbicas(bambis, “marias”, gazelas), socialmente discriminatórias(gambás, favelados).
O futebol brasileiro perdeu o aspecto lúdico, popular, do samba, da malandragem(no bom sentido), a alegria. Queremos a vitória a qualquer custo, nossos torcedores viraram soldados, os jogadores gladiadores hiper-preparados fisicamente, técnicos generais mais preocupados em não perder, do que prestigiar a maior manifestação cultural brasileira, junto com o carnaval.
O torcedor brasileiro virou cliente, e cliente quer resultado, não interessa a maneira, não interessa a forma.
Num único aspecto discordo totalmente de você. Os estádios brasileiros são verdadeiros CURRAIS humanos. Sujos, desconfortáveis, desorganizados, contruídos em grande parte por políticos populistas. Depósitos de gente.
A primeira mudança da cultura para um torcedor alegre, feliz com o espetáculo do FUTEBOL é tratar o torcedor com dignidade, não feito GADO sendo espancado pela polícia.
Um grande abraço e saudações
Cara tu teria que reveer terus conceitos, vou te ajuda: primeiramente muda de esporte, vai torcer numa partida de peteca, segundo, o estado que nasceu deve ter muito a ensinar em termos de cultura ao RS e terceiro e não menos interessante futebol é coisa de homem, não de boneca que chora quando ouve um palavrão.
Tudo é relativo. Americanos consideram futebol esporte de maricas.
Concordo com algumas coisas, mas discordo de outras.
Concordo que é preciso tirar das TVs o controle dos horários e tabelas de jogos, e concordo que é preciso garantir esquemas melhores de transporte antes e depois dos jogos.
Mas acho que o fim da geral foi um avanço. É preciso pensar no conforto de todos os torcedores, mesmo que alguns deles queiram abrir mão disso. Não é pelo fato de ficar sentado que ele vai participar menos do espetáculo.
Quanto à redução da capacidade dos estádios, também acho saudável, por questões de segurança. 75 a 80 mil pessoas num estádio é razoável e já garante um grande espetáculo. A FIFA recomenda que a capacidade dos estádios não ultrapasse 100 mil pessoas. Isso já equivale a uma população de uma cidade de médio porte. Agora imaginem o que era fazer esquemas de segurança para 150 ou até 180 mil pessoas num Maracanã lotado, como era até os anos 90.
Como Santo Patrono desta romantica associação sugiro São Thomaz Morus, o Utópico – , esportes de alto desempenho hoje e no futuro são comandados pelo dinheiro, como disseram acima, torcedor é cliente, um comprador de produtos e multiplicador de marcas, estádios são arenas para varias finalidades: shows, shoppings etc.., não são feitos para pobres, pois somente se financiam com sócios ou consumidores de médio poder aquisitivo ou mais altos.
Quem quiser ser romantico, torça para o time da esquina ou da padaria.
Ia me esquecendo de algumas sugestões a tão inteligente proposta: – retorno da bola de capotão, proibição de propaganda nos uniformes, banimento de chuteiras de marcas multinacionais exploradoras da mão de obra asiatica, teto salarial para jogadores e técnicos, proibição da exportação de pé-de-obra até os 35 anos, que todo jogador de futebol só se profissionalize após curso superior e prova do NENEM, exames obrigatórios de doenças venéreas e atestado de fertilidade de marias chuteiras, fornecimento aos torcedores de pó-de-arroz em jogos do fluminense e são paulo, proibição do porco para o Palmeiras pois eleva o colesterol.
Não esqueçam de solicitar ao Dep. Aldo Rabelo, a alteração do termo futebol, derivado da palavra de origem inglesa “football”, claramente um termo imperialista, para ludopédio – Campeonato Brasileiro de Ludopédio, fica tão brasileiro e charmoso.
tomara que essa ANT consiga, junta com outra emissora de vergonha, tirar da mãos da suja da globo o nosso amado futebol. tentam a todo custo enfraquecer os clubes fora do eixo RJ-SP, impondo ao restante do Brasil os clubes desses estados; boicotam qualquer campeonato regional, como estão fazendo com a Copa do Nordeste, para não deixar o futebol nordestino respirar; e cometem de forma deliberada a exclusão do povo em só disponibilizar os jogos na tv por assinatura. basta de canalhice da globo, futebol para o povo já!
Gostei, um contradiscurso interessante.
“Sim, o futebol é a nossa cachaça, sem a qual ninguém segura o rojão das injustiças sociais”
Gostei da frase!
Esse negócio a que chamam futebol já não tem mais nada a ver com aquele esporte. Já passou do futebol. Mafiosos europeus não tardam a chegar aqui para comprar os antigos clubes de futebol.
Vejo um pouco de razão em cada um dos comentários e no artigo. Há alguns equívocos e muitas lacunas. A falta de conhecimento sobre esses meandros do esporte prova que é um assunto marginalizado, tratado de forma secundária, mesmo aqui, na “pátria do futebol”. Os programas esportivos repetem à exaustão lances de impedimento mas não discutem nunca a implicação do futebol na cultura e do torcedor no futebol.
Quando Marx fala que a religião é ópio do povo, e daí derivam para o futebol, é que tanto o futebol quanto a religião têm um elemento profundamente alienador, que é o fanatismo. O fanatismo retira a percepção crítica do sujeito, da mesma forma que a papoula quando entorpe os sentidos.
Digo isso porque considero que gosto de futebol. Tanto de assistir quanto de jogar. Torcer é diferente de assistir: torço para o meu time, mas assisto bons jogos com prazer. O Flávio tem razão quando fala que a cultura da vitória suplantou qualquer aspecto lúdico do futebol. O Aurélio, com seu ceticismo irônico também está certo quando ridiculariza o excesso de nostalgia; e o Mário percebe que logo uma máfia comprará nossos times, como fazem na Europa.
Mas podemos lutar contra isso. Nadar contra a correnteza.Me decepcionei muito quando, diante da resolução do CADE acabando com o monopólio da Globo nas transmissões, e as inúmeras possibilidades de democratizar surgiram, os clubes(!) reforçaram o discurso elitista, de manter o modelo de transmissão via pay per view…
Na Inglaterra, por exemplo, apesar dos grandes clubes concentrarem grande parte da torcida, há ainda torcedores fiéis aos seus pequenos clubes, que vivem no semi-amadorismo. Que mal há nisso? Nenhum, apenas não dá lucro… Mas o futebol como parte integrante da cultura é muito mais vivo e apaixonate do que o dos brahmeiros guerreiros…
Peço mais textos sobre o assunto
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