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Ataques e contra-ataques do racismo na terra de Pelé

publicada terça-feira, 16/11/2010 às 11:56 e atualizada segunda-feira, 14/03/2011 às 12:09

por Felipe Carrilho

O futebol, verdadeira instituição nacional, pode ser visto como um indicador privilegiado da realidade social do Brasil quando abordado de modo mais profundo e analítico. Na semana em que se comemora a consciência negra, é oportuno tratar das contribuições do negro para a construção do nosso país a partir de uma lente de observação futebolística.

No momento em que ganha força o argumento segundo o qual a inconsistência do conceito de raça, do ponto de vista biológico, inviabiliza a constatação do racismo na prática social brasileira, é necessário tratar do negro, indissociável da história do nosso país e da sua principal prática esportiva.

No início da trajetória do futebol em nossas terras, o negro se tornou um elemento central para o debate a respeito dos rumos da nação. No final do século 19, com a abolição do regime escravista, optou-se por uma política de branqueamento de nosso povo, em que o incentivo à imigração europeia para abastecer as lavouras de café e a produção industrial representou o seu carro-chefe. Por meio da aposta em certo modelo de miscigenação, tal ideologia procurava diluir o elemento negro, sufocando a diversidade racial ao forjar uma sociedade pretensamente branca e homogênea.

Oliveira Viana talvez seja o apologista mais notório do branqueamento da sociedade brasileira. Para o intelectual, o mestiço representava um atraso inevitável para o país, que só poderia ser remediado com a “arianização” de nosso povo. Assim, os “elementos bárbaros” de nossa constituição social seriam reduzidos pela crescente entrada de brancos em nosso país.

O futebol, índice preciso do estado geral da nação, explicitou as consequências da disseminação desse pensamento ao seu modo. Artur Friedenreich, por exemplo, filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra, considerado o primeiro craque de nosso futebol, precisava disfarçar a sua negritude, esticando os cabelos e empapando-os com brilhantina, para se sentir socialmente incluído. Logo ele, sobre quem o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, disse: “de Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer”.

Sem falar do que ocorreu no célebre caso do jogador do Fluminense, Carlos Alberto, que branqueou a sua pele com pó de arroz para fugir ao preconceito, em jogo realizado, ironicamente, no dia 13 de maio (data que marca o fim da escravidão) de 1914.

No clássico livro “O negro no futebol brasileiro”, de 1947, Mário Filho narra a trajetória dos descendentes de escravos em sua luta por inclusão no futebol, pautado pelos valores elitistas do regime amador de seus primórdios. Segundo o autor, na década de 1920, por meio de clubes de formação popular, como o Bangu, o Vasco da Gama e o São Cristóvão, os negros pressionaram os dirigentes pela adoção do regime profissional, garantindo espaço de destaque na Copa do Mundo de 1938.

A década de 1930, além de marcar a adoção do regime profissional no esporte, foi palco de importantes elaborações teóricas a respeito da identidade do país. “Casa grande e senzala” (1933) e “Sobrados e mucambos” (1936), de Gilberto Freyre, são obras referenciais no que diz respeito ao elogio da mestiçagem enquanto trunfo da cultura nacional. E Freyre, em sua veia interpretativa, arrisca-se também no terreno do futebol. Para o consagrado antropólogo, a conversão do “jogo britanicamente apolíneo” em “dança dionisíaca”, por influência dos movimentos corporais do samba e da capoeira, seria resultado do processo de mestiçagem verificado no Brasil.

O samba e a capoeira, manifestações de matriz claramente africana, com raízes profundas nas religiões tradicionais dos negros, aparecem, então, “sublimados” na interpretação de Freyre, traduzidos como produto do que se chamaria de democracia racial, assim como ocorre, por extensão, com o modo característico de jogar futebol do brasileiro. A contribuição do negro é “promovida”, assim, à categoria de “progresso da mestiçagem”. Em última análise, é possível dizer que temos, desse modo, a realização do ideal de homogeneização de nossa sociedade no mundo das especulações interpretativas sobre o Brasil.

Edições posteriores do livro de Mário Filho acompanham também a saga do negro no futebol até a realização da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Como não poderia deixar de ser, um dos momentos mais marcantes da narrativa de Filho refere-se à “tragédia”, à derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã. Diz o autor sobre a responsabilização ocorrida após o fracasso:

“Assim, três pretos foram escolhidos como bodes expiatórios: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os outros mulatos e pretos ficaram de fora: Zizinho, Bauer e Jair da Rosa Pinto. Era o que dava, segundo os racistas que apareciam aos montes, botar mais mulatos e pretos do que brancos no escrete brasileiro”.

Essa passagem permite perceber a persistência do preconceito racial no país após o advento das ideias do “futebol mestiço” e da “civilização mestiça”. Na ocasião em que a nacionalidade brasileira sofria um duro golpe dentro das quatro linhas, assim como costuma ocorrer cotidianamente nos momentos de acirramento social – como na busca por colocação no mercado de trabalho, por exemplo -, fomos divididos em dois grupos: os brancos e os não brancos, os culpados, os negros. Nem o coroamento da geração de Pelé e Garrincha, com o bicampeonato mundial, nem o ápice da demonstração do futebol-arte, transmitido ao vivo pela televisão, durante a Copa de 1970, foram capazes de extinguir o racismo à moda brasileira, aquele que está sempre escamoteado, com vergonha de si mesmo, mas que não se abstém de atuar.

Depois de Barbosa, o primeiro goleiro negro a defender a seleção brasileira, como titular, em Copas do Mundo foi Dida, em 2006, após 56 anos de um sinistro intervalo. Nenhuma outra posição, do lateral-direito ao ponta-esquerda, ficou tanto tempo sem ser ocupada por um negro no time nacional. E, hoje, as ocorrências de racismo no futebol continuam a ser registradas dentro e fora do país.

Na semana em que se celebra a consciência negra no Brasil, é preciso retomar tal contribuição futebolística, dando ao negro o que é do negro. A ancestral concepção festiva da vida permitiu, aos descendentes de escravos, introduzirem um modo peculiar de tratar a bola e de ser brasileiro, um jeito de jogar e de viver voltado ao prazer e à beleza, que está na base do que se pode chamar de identidade nacional brasileira.

Felipe Carrilho é historiador e autor do livro “Futebol, uma janela para o Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”.

*Artigo publicado originalmente em edição de novembro de 2009, do jornal Brasil de Fato, e agora revisto e ampliado pelo autor.

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12 Comentários

12 Comentários para “Ataques e contra-ataques do racismo na terra de Pelé”

  1. Thiago disse:

    Sinceramente, discordo da opinião de que o Gol brasileiro ficou sem negros desde Barbosa devido ao preconceito, ou qualquer outra coisa que seja.

    No futebol, diz-se que quem vai pro gol, normalmente, tem falta de habilidade para a “linha”.

    Talvez mais por “excesso de qualidade”, do que por preconceito, os negros não frequentem tanto o gol.

    De resto, concordo com o texto e gosto das análises que mostram o futebol como uma espécie de miniatura da sociedade brasileira.

  2. Eason Nascimento disse:

    Na sociedade brasileira impera um racismo velado, subterrâneo, não tão às claras como em outros países. Só mesmo ALI KAMEL pra achar que no Brasil não existe racismo. Alguns chegam a dizer que preto só é rejeitado se for pobre. Penso que se for as duas coisas aí não tem saída.
    htt://easonfn.wordpress.com

    • Wanderson Brum disse:

      Tenho uma percepção um pouco diferente em relação ao tal racismo velado, o racismo no Brasil assumiu contornos impares, porém aonde esta besta-fera não se personalizou?

      O que me parece é que quando o racismo brasileiro age nos seus contornos caracteristicos ele permanece oculto, não porque seja assim tão disfarçado, mais sim porque já estejamos condicionados a encarar tais manifestações como naturais, só quando há manifestações aberrantes é que nos damos conta da sua magnitude. Isso me lembra um frase bem tipica de filme gringo que não lembro qual.

      “O maior truque já realizado pelo diabo foi convencer o mundo de que ele não existe .”

  3. fabio nogueira disse:

    É LEMBRARMOS-NOS,QUE COM A VINDA DO NEGRO NO FUTEBOL,OS CLUBES LOGO SE APRESARAM PARA FAZER ENTÃO HOJE CONHECIDA SEDES ATLETICAS.POR QUÊ?COMO TINHA AS SEDES SOCIAIS,OS JOGADORES NEGROS E NORDESTINOS,ERAM PROIBIDO DE ENTRA NESSES LUGARES,SENDO OS LIMITES DO CAMPO DE TREINO ERAM O MÁXIMO QUE PODIAM CHEGAR.

    OLHA,TEM GENTE QUE AFIRMA QUE O BRASIL NÃP CRIOU LEIS RECISTAS PÓS-ABOLIÇÃO,ENTÃO O QUE FOI A LEI DA VADIAGEM?OS ATAQUES A OS CULTOS DE MATRIZES AFRICANAS? ÉO ELEVADOR DE SERVIÇO?

  4. Marcelo Solidade disse:

    Nas indas e vindas, vale salientar que em todas as copas que nos sagramos campeões a principal estrela do time era um negro ou um mestiço.

  5. Os próprios jogadores nos provam a existência do racismo. Quando se destacam no esporte esquecem sua negritude Exemplos: Pelé, Ronaldo e Neimar. O “rei” Pelé foi um péssimo exemplo, parece jamais ter admitido ser negro e nada fez pelos seus irmãos de cor, nada fez para que fossem valorizados e tivessem melhores oportunidades neste país. Se dependessem do seu apoio, nada tinha mudado até aqui.

  6. Kassow disse:

    Excelente Texto!

    Trata bem da diferenciação que se faz no Brasil, no que se refere à cor de pele, credo, condição social, origem geográfica, etc. O Futebol é realmente o espelho da nossa sociedade.

    Parabéns ao autor por abordar este tema de forma tão clara, nos fazendo refletir sobre nossas ações (tomara que todos os brasileiros lessem a coluna!).

    E lembrando: Programas de assistência social do governo pode ajudar a melhorar a vida do povo, mas somente uma mudança cultural e educacional seria (também vinda do governo) vai fazer com que todos os brasileiros se enxerguem como iguais, como um único povo!

  7. Rodrigo Meller Fernandes disse:

    Ô necessidade medonha de polarização…

    É fato, quer conquistar uma sociedade, coloca os homens contra as mulheres, as crianças contra os pais, etc, etc, e pra que não em um país multi-racial? Os negros contra os brancos óbvio. Nordestinos contra sulistas e sudestinos e vai por aí a fora.
    A situação dos negros no Brasil, merece sim ações positivas, não vão resolver nada, mas aconteceu e não custa nada dar uma vantagem a um segmento da sociedade que lagou atrás.
    De outra parte, são “conservadores” (do próprio bolso) brancos ou culturalmente embranquecidos que montaram essa estrutura podre toda que tá aí a séculos.
    Enfim, de tudo, o futebol acaba por se tornar sempre um péssimo parâmetro. O futebol é a nossa cocaína-maconha-circo-ópio e sei lá mais o que. Só o futebol impede nossa evolução enquanto seres espirituais a uma anarquia selvática plena. Só o futebol preserva o sistema. Mas tudo bem, parem de querer roubar o campeonato brasileiro para o Corinthians (Ronaldo fofômeno hein, DOIS BI EM PUBLICIDADE – HEHEHE – E VEM ME FALAR QUE JUIZ DE FUTEBOL TEM CARATER ILIBADO, em um país onde até Ministro do supremo tá na pista pra negócio) e deixem ao menos nosso fator de alienação fora de questões raciais e economicas.

  8. Domiciano disse:

    Não lembro do Pelé ter se manifestado sobre negritude.Custou, inclusive, a assumir a paternidade de sua filha negra. Se ela tivesse nascido de pele clara…

  9. Marcelo disse:

    No caso específico do Vasco da Gama, não era apenas contra o negro que a elite decadente do Rio de Janeiro destilava o seu ódio e preconceito, era também contra nordestinos e membros da colônia portuguesa. Essa elite decadente jamais aceitou que um clube nascido verdadeiramente de bases populares, como o Vasco, pudesse crescer e competir com os queridinhos e cheirosos da Zona Sul do Rio. A história do Vasco sempre refletiu o momento atual brasileiro. Um clube que nasceu pequeno, ousou, se transformou num dos maiores, e paga, até hoje, um alto preço por essa ousadia.

  10. Mário Pinheiro disse:

    Texto eivado de distorções. Nem para tema de samba de enredo presta. Essas contações de estõria só se prestam para ampliar o espaço da alienação. Oh,cidadão, procure entender qual é o opressor. O que você está fazendo é acirrar ânimos de pessoas que têm uma luta comum com brasileiros que estão lutando por mudanças no estado; que objetivam uma sociedade mais justa e você vem com essa praga de discurso étnico de sambas de enredo,estimulados por movimentos negros burgueses mitômanos.Será que não percebe a Lei do Talião,muitas vezes aplicada nos crimes comuns em nossa sociedade?Oh, cidadão você sabia que o maior traficante de escravos no último período do tráfico no Brasil era negro eque existe tráfico entre negros hoje na África e,portanto, essa infâmia continua, estimulada por negros,desgraçadamente? Oh, cidadão o opressor dos brasileiros é comum e defende a desigualdade e cotas étnicas enquanto procuramos ampliar a democracia.É contra opressor de todos os brasileiros que devemos lutar unidos.A ordem jurídica oligárquica,o salário de miséria,a exploração, , a mais-valia absurda, a renda cada vez mais concentrada, as amarras do aparelho ideológico do estado burguês diversionista a que você com esse tralalá étnico está servindo talvez por alienação.

  11. Miguel disse:

    O texto é bom, o negro teve um papel fundamental no futebol nacional, mas hoje em dia não existe clube e nem seleção que não tenha um negro jogando, até em nações brancas como a Alemanha é comum ver negros jogando na seleção. Mas o racismo no futebol de hoje é diferente dos tempos antigos. Nas últimas décadas o racismo se expressa de outra forma: xingamentos e gestos pela torcida rival imitando macacos quando um afro descendente está com a posse da bola, ou pelo próprio jogador da torcida adversária. Mas o que o sistema quer na verdade é só preto no futebol e no samba! Negro é uma pessoa como todas as outras, ele pode tocar guitarra, pode ser um maestro, pode jogar tênis, pode ser presidente, ateu ou católico…. ou seja, pode ser o que ele quiser, as vezes algumas lideranças negras fazem o jogo dos racistas! Tenho um amigo que é negro e gosta de rock and roll das antigas e dos bons e não curte pagode. Um pagodeiro uma vez disse a ele que ele não era negro…. então ele deu uma aula de história ao ignorante…
    Explicando como surgiu a música lá dos seus primórdios (blues). O negro tem personalidade também. Para eles todos eles são iguais com uma personalidade unânime.
    Desculpem-me se eu desviei um pouco a discussão do assunto.

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