Carnaval, uma nota

publicada quarta-feira, 15/02/2012 às 10:10 e atualizada quarta-feira, 15/02/2012 às 10:10

Por Felipe Carrilho

Em seu pioneiro livro “Carnavais, Malandros e Heróis”, o antropólogo Roberto DaMatta definiu o Carnaval brasileiro como “um momento em que se pode totalizar todo um conjunto de gestos, atitudes e relações que são vividas e percebidas como instituindo e constituindo o nosso próprio coração”. A folia seria, em outras palavras, uma das nossas instituições identitárias, “que fazem do Brasil, o Brasil”.

Atualmente, a palavra “carnaval” surge tão revestida de brasilidade que a maioria das pessoas deixa escapar o fio do seu lastro histórico. É como se o festejo fosse um elemento inato da nossa nacionalidade.

Mas o Carnaval é um fenômeno de longa duração. No século 19, era sinônimo de Nice e, no século 18, estava associado a Roma e Veneza, cidades que fervilhavam durante essa estação festiva, repletas de visitantes. E mesmo muito antes disso, já era uma das principais manifestações populares da Europa.

Os estudiosos, no entanto, não chegaram a um consenso a respeito da interpretação desse festival. Uma ala afirma que o Carnaval europeu é, originariamente, um ritual essencialmente cristão, e que o apelo ao consumo de carne, bebidas, e a ênfase na sexualidade são explicados pela necessidade de se abster dessas atividades no período subsequente.

Outros enxergam o Carnaval sob a ótica das tradições pagãs. Essa festa seria, assim, um resquício de antigos rituais agrários de fertilidade. Decorreria disso, o realce dos elementos fálicos, como salsichas e narizes compridos, símbolos da fecundidade almejada.

Para o renomado teórico literário russo, Mikhail Bakhtin, o Carnaval é, ainda, uma encenação do “mundo de pernas para o ar”, um momento em que o normalmente proibido é permitido ou até mesmo obrigatório. Funcionando como uma “válvula de escape” – ao autorizar, além dos prazeres da carne, a crítica às autoridades – o festejo teria o poder de garantir um funcionamento razoavelmente ordeiro da sociedade no restante do ano.

Essas tradições europeias atravessaram o Atlântico e chegaram ao Novo Mundo no século 16, principalmente às regiões colonizadas por católicos do Mediterrâneo. Por aqui se transformaram, ganhando contornos de outras culturas, principalmente das africanas. No caso brasileiro, isso fica evidente na importância da dança e dos instrumentos de percussão.

O Carnaval, assim, foi interpretado como uma das mais importantes expressões culturais, ao lado do futebol, do que Gilberto Freyre chamou de democracia racial. O próprio samba, espécie de ritmo oficial da nossa folia, representa, basicamente, uma síntese das intersecções rítmicas e harmônicas entre gêneros europeus, como a polca, e os batuques africanos, principalmente das populações de origem banto.

Além disso, se, por um lado, as alegorias do nosso Carnaval são tributárias de procissões de outrora, como as de Florença e Nuremberg – que contavam com carros alegremente decorados – por outro, as fantasias de nossas alas não escondem o parentesco com as vestimentas rituais do candomblé, sendo a tradicional ala das baianas – obrigatória tanto no desfile oficial das escolas de samba do Rio, quanto no de São Paulo – um indício inequívoco dessa realidade.

É também verdade que a ideia de democracia racial vem sofrendo duras críticas dentro e fora da academia, como nos movimentos sociais de afirmação negra. A questão central é o fato de Freyre amenizar, em sua obra, as tensões e os conflitos decorrentes dessas interações culturais históricas. Assim, numa interpretação ingênua da história do Carnaval, poderíamos ignorar, por exemplo, que, antes de se tornar um símbolo da nossa identidade, o sambista era visto como um infrator e que, ao portar um pandeiro na rua, poderia ser preso.

No intuito de superar por completo essas mazelas, vivemos um novo tempo, de descoberta e valorização da cultura popular. E, às vésperas dessa celebração nacional, outra frase do livro de Roberto DaMatta costuma dar samba: “No Carnaval, ensaiamos viver com mais liberdade”.

Felipe Dias Carrilho é historiador e autor do livro Futebol, uma janela para o “Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”

Leia outros textos de Felipe Dias Carrilho

Leia outros textos de Jogo de Classe

15 Comentários

15 Comentários para “Carnaval, uma nota”

  1. Julio Cesar Montenegro disse:

    Os terreiros, onde se brinca carnaval, estão para os salões coloniais, onde se cultua e cultiva a cultura eurocêntrica entronizada, assim como a con fusão mistura junto e a di fusão espalha separado. Apesar de velho, ainda me surpreende a idiotice prepotente mente convicta que menospreza a cultura como produto obtido do fazer humano para valorizar apenas a Cultura & Cia. Ltda. tradicionalmente explorada em obras raras reproduzidas ou exibidas como exemplo de uma maneira mais CULTA,sutil, refinada BEM informada de ser…
    Cu(r)(l)tos, não querem divisões em classe. Apenas TER classe.

  2. Sônia disse:

    O antropólogo Roberto DaMatta em bate-papo na tvFutura,e reprisado N vezes, falando de carnaval é outra pessoa, e decepcionante.Mais tucano do que gente.

    • Adilson disse:

      Concordo Sônia,

      Sinto vergonha em vê-lo falar, ultimamente..Ideias retrógradas, confuzo, e se portando de maneira arrogante, quase sempre. Certa feita, o vi falando sobre futebol – tb no Futura – e ficou nítido que os outros convidados e até apresentadora ficaram constrangidos com sua presença.

      ps: Sua coluna no jornal o Globo é tb lamentável. Escreve de forma figadal, muitas vezs deixa escapar palavrões (como fdp), faz acusações de a outros intelectuais (a quem chama de coleguinhas) e criou uma obsessão da qual não consegue mais se livrar: o lulo-petismo.

    • Cinthia disse:

      hahahahahahahahaha… a petralha tá cada dia mais esquisita!É só falar um dialeto diferente do PARTIDÃO que já vira TUCANO!! Ô gente mais desclassificada!!!

  3. Fabio Martins disse:

    Detalhe sobre origens e influências africanas, em seu conteúdo religioso: As Baterias, que possuem singularmente batidas consgradas a entidades sagradas. Onde se demonstra este é no doocumentário Ritmos do Samba.

  4. Adilson disse:

    Pra lembrar de um samba que tem tudo a ver com o texto:

    ” O caraval é maior caricatura, na folia o povo esquece a amargura”

    (Salgueiro 83)

  5. Marcelo Felice disse:

    Como todo bom branco e “antropólogo” que se preze, o autor traz um preconceito intrínseco que tange Gilberto Freyre: a “democracia racial” só é realmente democrática quando apropriada pelos meios de comunicação oficiais e transformadas em espetáculos vendáveis e assimiláveis para o mundo ocidental-judaico-cristão… Como já dizia o poeta Vinícius de Moraes, “se ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração…” nada melhor do que a ‘branquitude” se apropriar daquilo que lhe é estranho (e estranhamento no msentido marxiano da palavra) e transformar em “palatável”…

  6. Cinthia disse:

    Até quando os seguidores da PT pretendem jogar o lixo prá debaixo do tapete???
    Quem defende um criminoso como Hugo Chaves é o quê???

    Meu único desejo a todos vcs, defensores de facínoras, é que fiquem sob o jugo de um deles um dia…

    Quem sabe experimentar o que a INGRID BETANCOURT experimentou…

    Vai lá e pergunta se ela continua achando as FARCs simpática e amiga??? hehehe…

  7. Beto Lima disse:

    Rodrigão. Fora de pauta. Ele voltou…………. http://www.youtube.com/watch?v=iHOHOhwYS-Y&feature=share
    Luiz Carlos Prates, voltou……
    tudo por culpa do Lula……

  8. Rafael disse:

    Não é o que vejo hoje. Um ditadura da bunda e da bebida álcoolica.

  9. Muito pertinente o artigo ,mas sobre o que vimos na tarde de ontem declaro Lamentável,né! O que era para ser uma festa folclórica vira reflexo de uma sociedade agressiva ,sem limites,sem respeito e amor próprio.
    O que nos diria Chiquinha Gonzaga,Carmem Miranda¿ ah!! Marquesa de Santos, sabiam que ela foi o marco inicial do Carnaval moderno, segundo historiadores. Ela até então era a dama de maior prestígio na sociedade paulistana. E Zé Pereira, tocador de bumbo que apareceu em 1846 e revolucionou o carnaval carioca.Também não posso esquecer de Adoniram Barbosa – quem é que nunca cantou Saudosa Maloca samba de 1955¿
    Acredito que eles curtiam o carnaval exatamente como essa festa (uma festa tão colorida, tão tecnológica – olha que legal uma música vira aula de história!) poderia ser ou deveria ser curtida, com alegria e responsabilidades, assim como fazemos com a festa junina e halloween , nos divertimos com responsabilidades.
    Mas acho que a questão que se colocou na tarde de ontem é sobre LIMITE, temos falado tanto sobre bullyng , mas não temos falado mais de ética,sabe aquilo que ouvíamos quando éramos crianças que o nosso limite termina que se começa o do outro.Respeito é bom e gostamos !
    Recentemente uma mãe falou sobre ter mandado seu filho bater em outra criança, pois ele havia apanhado algumas vezes desta criança. Perguntei a ela o que ensinamos quando dissemos: se ele (a) te bater vc deve bater também ¿Ensinamos que podemos fazer justiça com nossas próprias mãos, qdo não podemos!
    As pessoas não tem dado conta de si própria, tenho visto que elas não têm sido ensinadas a fazer escolhas corretas, seria tão mais fácil se ao invés de rasgarem documentos, reivindicassem por uma apuração mais justa,seria tão bom se homem ao ser fechado por um motorista de ônibus pudesse dialogar como adulto,ou ainda se um adolescente que atropela e mata uma criança , não fugisse com seus pais,seria tão bom se esses pais ensinassem a seu filho que não pode fugir de suas responsabilidades.Lamentável mesmo que as pessoas não dão conta de si. Agora o que vamos continuar ensinando (por que o jovem de hoje são nossos filhos de amanhã) :que batem ou vamos lembrá-los que em um relacionamento muitas vezes vamos ter que pedir desculpas mesmo que estejamos certo.

  10. Fernando Luis disse:

    Se a turma da Escola de Frankfurt visse o carnaval que a Rede Globo faz, com a apologia ao luxo e ao mercado,bicheiros e outras coisas mais, iria reclamar com o tucano Roberto DaMatta.

  11. Passada a ressaca, é hora de avisarmos o deputado Marco Maia que desejamos vê-lo cumprir seu dever e instalar já a CPI da Privataria Tucana.
    O sítio da Câmara, onde pode-se deixar uma mensagem ao presidente, é http://www.camara.gov.br
    O e-mail do presidente é: [email protected]
    Convém pedir o apoio dos correligionário do deputado em Canoas, sua base eleitoral.
    Prefeito Jairo Jorge (PT):
    [email protected]
    Líder do PT na Câmara Municipal, sociólogo Paulo Ritter:
    http://pauloritterpt.blogspot.com
    [email protected]
    Vereador Emilio Millan Neto (PT):
    [email protected]
    Vereador Ivo Fiorotti (PT) ex-assessor de Marco Maia:
    [email protected]
    [email protected]
    http://ivovereador.blogspot.com
    O presidente do PT no Rio Grande do Sul é Raúl Pont:
    http://www.ptrs.org.br

  12. valdir freire disse:

    Clovis Rossi “informa” aos espanhois que o Brasil será uma Somália:

    Ele não fala do acordo do PSDB paulista com o PCC

    vejam a segunda matéria do blog

    http://blogs.elpais.com/algo-mais-que-samba/

Comentar