»

Sobre o centenário Nelson Cavaquinho

publicada quinta-feira, 14/07/2011 às 09:38 e atualizada sexta-feira, 15/07/2011 às 10:04

Por Felipe Carrilho

O ensaio “Rugas: sobre Nelson Cavaquinho”, de Nuno Ramos, talvez seja a melhor análise já escrita sobre a obra do sambista, que faria 100 anos em 2011 se não tivesse morrido de enfisema pulmonar em 1986. Trata-se, em linhas gerais, de uma tentativa de decompor a originalidade de sua estética musical e poética e, ao mesmo tempo, de localizá-la no tempo da história da música popular brasileira atribuindo-lhe valor e sentido.

O ex-policial que conheceu a Mangueira e os prazeres da boemia fazendo rondas noturnas a cavalo no morro – “o pior soldado da história do Polícia Militar”, como definiu a si próprio – é apresentado por Ramos como um poeta peculiar, apegado ao trágico, que acompanha as suas “melodias alpinistas” por meio de um toque de violão rústico e único.

Às considerações do artista plástico e escritor, gostaria de acrescentar, modestamente, mais algumas. Para mim, Nelson Cavaquinho é um sambista-índice do povo brasileiro, como poucos. Em sua vida e obra estão contidos os dramas cotidianos da nossa gente sob uma percepção individualizada. Sua produção artística sintetiza o Brasil de uma perspectiva subalterna. Até a sua figura, algo cabocla, algo mulata, é emblemática para pensar nessa questão.

Em Nelson Cavaquinho, encontramos o que Michel de Certeau talvez chamasse de “microrresistência”, a habilidade de transformar fatos banalizados da vida numa metrópole – nesse caso, o Rio de Janeiro – em fragmentos de uma memória popular e coletiva. Ligia seria apenas mais uma entre os inúmeros moradores de rua da praça Tiradentes, se Nelson não tivesse singularizado a sua história nos versos de “Tatuagem”, por exemplo. (o historiador Francisco Rocha já havia apontado a presença dessa característica na obra de Adoniran Barbosa.)

No entanto, Nelson Cavaquinho não fazia a chamada “música de protesto”, sua temática não abordava as “questões sociais”. Ele cantava prioritariamente a tragédia dos amores que se transformam em desilusão e a proximidade da morte diante de uma vida que já passou e cujo sentido não foi encontrado. Mas quantos amores já se desfizeram e quantas vidas se tornaram vazias por causa da precariedade material tão característica de nossas classes populares? Nelson sabia que, na música popular, dor rima melhor com amor do que com mais-valia, com o perdão do clichê.

Outras dimensões do nosso imaginário também são contempladas em sua obra. A perspectiva religiosa é central. Sua poética reinventa a sensibilidade mística do brasileiro. Quem assistiu ao brilhante documentário “Santo Forte”, de Eduardo Coutinho, perceberá isso mais facilmente. Nos depoimentos dos entrevistados, o catolicismo está sempre no plano das solenidades, lugar que lhe cabe enquanto religião quase oficial instituída. Mas nem por isso consegue eclipsar por inteiro algumas manifestações oriundas da umbanda e do candomblé, religiões que enfatizam as tradições dos povos indígenas e, principalmente, dos negros da nossa constituição social.

“Quando eu ouço as badaladas do sino daquela igrejinha / Julgo-me ainda feliz e que és toda minha”, versos de “Devia ser condenada”, música feita por Nelson em parceria com Cartola, são um exemplo entre tantos outros que apontam para uma inspiração católica na obra do sambista. Mas credos marginalizados também se fazem presentes, mesmo que de maneira indireta ou inconsciente e ainda que o autor se considerasse um “católico apostólico romano”, como a maioria dos personagens do filme de Coutinho.

“Pranto de Poeta” é emblemática nesse sentido. “Em Mangueira / Quando morre um poeta / Todos choram” são versos que anunciam um dos temas mais recorrentes em Nelson: a morte. No axexê, ritual fúnebre afro-brasileiro, canta-se e dança-se  em homenagem ao morto por até seis dias seguidos, ao som de instrumentos de percussão. O silêncio sepulcral, que caracteriza o luto católico, é estranho ali. Se a pessoa cumpriu o seu odu (destino), viveu bastante e bem, não é necessário chorar a sua morte, a menos que seja “através de um pandeiro ou de um tamborim”.

Felipe  Carrilho é historiador e autor do livro “Futebol, uma janela para o Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”

Leia outros textos de Felipe Dias Carrilho

Leia outros textos de Jogo de Classe

2 Comentários

2 Comentários para “Sobre o centenário Nelson Cavaquinho”

  1. Marcia Costa disse:

    Acho que tenho muito que aprender sobre MPB… Belo texto sobre esse músico famoso que me era tão desconhecido.

  2. Henrique Brasília disse:

    Rodrigo, não tem nada a ver com o grande Nelson, mas é só pra registrar, aproveitando o Ibope…
    A Globo termina estes dias a novela Cordel Encantado. Fazendo referências algumas vezes irônicas e muitas outras estereotipadas ao Nordeste, como de costume, ela desta vez pegou leve em relação à política – talvez até porque não apostasse no sucesso de público da trama, confirmado depois. Se ela perdeu a chance de uma nova ironia mais nefasta, de teor político, como fez em outra novela de época, Que Reio Sou Eu?, como você deve se lembrar, nós não deveríamos perder a chance, não é?
    Mas puxando a brasa para a turma do Teotônio Vilela, claro. E dos Cansei, os nati-mortos que resolveram dar as caras, disfarçados, tucanamente, neste feriado da Independência.
    Pois bem. Atualmente, a trama está assim. O famigerado Timóteo (Bruno Gagliasso) forçou a barra e se casou com a heroína Açucena (não lembro o nome da moça). Ela é a camponesa nordestina, filha de um rei que vinha das Europa, e apaixonada pelo Jesuíno (Cauã Raimundo), que também é filho de outro Rei deste mesmo país, mas também é camponês nordestino. O Gagliasso era doido por ela desde o começo. Mas ela não deu bola pra ele. Vivia assim, uma relação muito próxima ao Ècim, não acha? Ele sempre queria a candidatura a Reizinho Tucano, posto máximo pretendido depois que o Farol apagou sem ousar a reréeleição… Mas tinha sempre um Serra no caminho. Tá certo que este aí estava longe de ser herói de nada, nem aguentar bolinha de papel ele aguentava… Mas no caso do Écim, tipo novinho, metido a gostosão, cheio das presepadas, dono das Gerais, o título de Rei soava natural. Nem que fosse Rei de Bogorodó…
    Então é isso, vejamos o final da novela. Só não quero é pensar na outra: “Que Rei Écim Seria”? Vixe, chama os homem do Capitão Herculano (o cangaceiro da trama)!!!

Comentar