Na Argentina, TV Pública inteligente e polêmica questiona o monopólio da mídia

publicada quarta-feira, 23/06/2010 às 17:28 e atualizada terça-feira, 20/07/2010 às 15:47

Programa “6,7,8”, da TV Pública argentina, desnuda os interesses por trás do noticiários dos grandes meios de comunicação do país

Por Flamarion Maués

Voltei de Buenos Aires recentemente. Estive na cidade por alguns dias e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a forte polarização política que existe lá e em todo o país. De um lado, setores do governo, peronistas de diversos matizes, setores da esquerda e a maior parte da população mais pobre, que apoiam o governo da presidenta Cristina Fernandez de Kirchner. De outro, a oposição, composta por diversos partidos, inclusive setores do peronismo, pelos dirigentes do “campo” (agropecuária) e por quase toda a grande imprensa, capitaneada pelos jornais Clarín e La Nación, os dois maiores do país e donos de canais de TV e rádios. O nível de conflito político é alto, talvez maior do que o nosso nesse período já quase eleitoral, sendo que lá a eleição é só no ano que vem.

Uma das frentes mais radicalizadas nesta disputa é justamente a dos meios de comunicação. A presidenta Kirchner comprou a briga com os grandes grupos que monopolizam a mídia no país, e está batendo de frente com eles. Aprovou no Congresso a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, mais conhecida como “Ley de medios”, que só não entrou ainda em vigor porque os grandes grupos monopolistas e os setores políticos que os apoiam estão usando todos os recursos jurídicos possíveis para evitar que isso ocorra. Mas tudo indica que a lei, que fere de morte os privilégios que estes grupos têm hoje, controlando TVs (aberta e a cabo), rádios, jornais, internet etc., vai mesmo começar a vigorar ainda este ano. Com a nova lei, simplesmente não poderá mais haver grupos de sejam proprietários de todos estes meios ao mesmo tempo, nem em nível local e muito menos em nível nacional. No Brasil, por exemplo, seria uma lei que atingiria fortemente o poder da Globo.

Logomarca do programa “6,7,8” da TV Pública argentina.

Um dos elementos mais interessantes nesta batalha que vem sendo travada contra os grandes grupos que controlam a mídia é o programa televisivo “6,7,8”, exibido diariamente pela TV Pública (do governo federal). Trata-se de um programa dedicado, segundo seu apresentador, Luciano Galende, a fazer “uma resenha crítica dos meios de informação na Argentina”. O programa é muito bem feito, e bate pesado nos grandes jornais, rádios e TVs, desmascarando seus interesses, suas manipulações grosseiras e seu falso distanciamento ao noticiar e comentar os principais fatos políticos, sociais e econômicos. E bate de frente com os jornalistas que fazem o papel de porta-vozes desses interesses, principalmente aqueles articulistas que, do alto de uma pretensa “autoridade” jornalística ou profissional, se dedicam a defender os interesses do patrão, do grande capital, dos reacionários etc. Se compararmos ao Brasil, seriam as mírians leitão, os alis kamel, sardembergs, diogos mainardis e outros desse naipe.

O programa estreou a cerca de dois anos e vem aumentando sua audiência e repercussão, o que com certeza incomoda muita gente.

É um programa que a gente não está acostumado a ver no Brasil – e acho mesmo que em poucas partes do mundo haverá algo que se assemelhe a “6,7,8”. Não há meias palavras nem luva de pelica, a crítica é direta e aberta. Mas é uma crítica em geral bem feita, fundamentada, e quase sempre ilustrada com imagens ou textos que deixam aquele que é objeto da crítica em situação delicada, pois fica difícil negar certas coisas diante de evidências irrefutáveis.

Por exemplo, há poucos dias uma famosa apresentadora de TV, algo como uma Hebe Camargo argentina, confessou em seu programa que em 1977, durante a ditadura militar que matou pelo menos 15 mil argentinos, um sobrinha sua (e o marido da sobrinha) foi sequestrada pela repressão. Graças à sua intervenção junto a um general que conhecia, sua sobrinha foi solta, mas o marido continua desaparecido até hoje. No programa foram mostradas as imagens dessa mesma apresentadora, em 1978, durante o mundial de futebol na Argentina, afirmando que havia uma campanha orquestrada para “denegrir” o país no exterior, que na Argentina todos viviam bem e em liberdade. Ela foi uma das que apoiou a campanha da ditadura “nosotros argentinos somos derechos y humanos”, que visava desacreditar as denúncias de violações de direitos humanos que ali ocorriam naquele exato momento. Isso um ano após ela ter acionado o general amigo para livrar a sua sobrinha da tortura. Quer dizer, fica desmascarada a conivência, mais do que isso, o apoio dessa senhora à brutal repressão que houve no país. Ela sabia o que acontecia e apoiva o que era feito. Não há como ela negar isso. E o programa desnuda essa situação, com imagens que não podem ser desmentidas.

E desse mesmo modo vários outros temas são abordados. É impressionante a capacidade da produção do programa de achar imagens e textos em seus arquivos que desmontam as opiniões atuais de muitos dos comentaristas dos grandes meios de comunicação. Diante desses “desmentidos” feitos por sua própria voz e imagem, como reagir e negar a exatidão da crítica?

E, é claro, o programa elege seus amigos. Neste momento, Maradona é o maior desses amigos, por ter enfrentado a mídia e ter assumido posições políticas mais à esquerda e mais governistas.

O programa é montado de forma inteligente. Um apresentador, cinco debatedores fixos e dois convidados diferentes a cada dia. Esta bancada debate as matérias feitas pela produção, matérias sempre em tom forte, de denúncia e desmascaramento do que está sendo dito pelos grandes meios. Os debatedores são muito perspicazes, e os convidados quase sempre são muito simpáticos aos pontos de vista defendidos no programa.

Essa é uma das críticas que “6,7,8” recebe, a de não abrir espaço ao contraditório. É apenas em parte correta, pois para fazer a crítica da grande mídia o programa exibe o que a grande mídia diz. A diferença é que desmonta o que é dito, ao contrário do que estamos acostumados a ver, ou seja, tal comentarista fala um absurdo e fica por isso mesmo, não há debate ou contraditório. E quase todos os comentaristas da grande mídia dizem – por que será? – a mesma coisa, pensam do mesmo jeito. Com “6,7,8” o quadro muda. Estes comentaristas têm resposta, muitas vezes com base em coisas que ele mesmo disse em outros momentos. É claro que estes comentaristas não gostam nada disso, e acusam o programa de “constranger” sua liberdade de opinião, um argumento totalmente falacioso.

Outra crítica a “6,7,8”, esta mais consistente, é que se trata de um programa “oficialista”, ou seja, governista, pró-Kirchner. De fato é, e eles assumem isso, o que não deixa de ser uma postura pouco usual na TV, em qualquer parte. O programa não se assume exatamente como pró-governo, mas sim como a favor das principais linhas políticas que norteiam o governo, o que não significa concordar e aprovar tudo o que o oficialismo faz. Há críticas ao governo e aos seus membros, claro que não com a mesma intensidade que as feitas aos que estão do outro lado, mas o programa não é acrítico. E nem busca aquela postura, em geral falsa, do tipo “somos independentes e criticamos a todos da mesma maneira, estamos acima das diferenças entre os lados em disputa”.

Outra de suas características interessantes é que, vira e mexe, os debatedores do programa criticam as matérias feitas pela produção de “6,7,8”. Deve-se dizer que a produção – comandada por Diego Gvirtz – é mais oficialista que a bancada de debatedores, e por vezes tem a mão muito pesada em relação às críticas a certos jornalistas e comentaristas da oposição. E os debatedores do programa não deixam barato, criticam o seu próprio programa no ar, sem problemas.

Enfim, trata-se de uma experiência inovadora na TV, a começar pelo fato de se propor a fazer uma críticas dos meios de comunicação no veículo mais popular dentre todos eles, a TV, e não apenas aquela crítica mais teórica, mas sim a crítica direta, dando nome aos bois e usando as imagens dos outros canais de TV para fazer isso.

É certo que algumas das críticas feitas ao programa são corretas, mas sem dúvida é um espaço que oxigena a TV argentina, e sem dúvida está tendo repercussões importantes. Hoje, os jornalistas e comentaristas de todos os meios sabem que estão sob a lupa crítica de “6,7,8”, e que não podem sair falando coisas impunemente, haverá cobrança pelo que foi dito. Não se trata de censura, de nenhuma maneira, mas de debate público.

Para quem quiser dar uma olhada, “6,7,8” pode ser assistido pelo site da TV Pública argentina: www.tvpublica.com.ar. O programa vai ao ar às 21 horas todos os dias, menos sábado. Vale a pena.

Flamarion Maués é editor de livros e historiador.

Leia outros textos de Flamarion Maués

Leia outros textos de Livros e História

Compartilhe
  • Twitter
  • Facebook
  • del.icio.us
  • Digg
  • Technorati
  • Reddit
  • Rec6
  • Google Bookmarks
  • FriendFeed
  • LinkedIn
  • MySpace
  • StumbleUpon
  • Tumblr

9 Comentários

9 Comentários para “Na Argentina, TV Pública inteligente e polêmica questiona o monopólio da mídia”

  1. Elisabete Otero disse:

    Rodrigo, aqui em Porto Alegre é possível ver a tv argentina pela Net e vejo este programa, o 678 e outros como o noticiário internacional Vision 7 aos sábados. A qualidade do 678 é muito boa, por vezes repetem um pouco, entretanto, o fato de cobrar verdade dos ditos jornalistas é muito necessário. Eles afirmaram que o grupo Clarin tem quase 280 emissoras de tv, rádio e jornais. As afirmações são cobradas do forma incisiva mas talvez seja para desenvolver pensamento crítico. Para dar “água na boca”: as casas do programa do governo federal para baixa renda são entregues com 30 livros, cada uma. E viva a Cristina K !

    • Nikita disse:

      Elisabete, sou de Porto Alegre e gostaria de saber em que canal voce ve a TV Publica Argentina pela Net ja que nao encontro.
      Obrigada!!

    • DANIEL disse:

      Prezada Elisabete, gostaria se tu podes me enviar o site para assistir o programa 678 da TV pública argentina, e fantastico porque é a realidade como os grandes monopolios bloquean todas as informaçôes verdadeiras,

      Sem mais, muito obrigado, Daniel

  2. mineiro disse:

    alias programa que a tv brasil poderia fazer muito bem , porque que nao faz. tem que haver programas para questionar tudo que a grande midia golpista fala,mas pelo geito no brasil isso ta muito longe de acontecer. nao so a tv brasil , mas outras tvs publicas . nao faz porque tem medo ou porque esta conivente com esse poderio midiatico. mas so para lembrar , que estes programas nao sejam de baixaria , pelo amor de deus ja basta os policialescos inuteis que nao sevem para nada.

  3. adriana marcolini disse:

    Flamarion,

    Assisti o programa algumas vezes e gostei. No entanto, não concordo com o uso político que a presidente Cristina Kirchner faz da TV pública. O próprio nome “pública” já diz que este meio de comunicação deveria atender aos interesses públicos da sociedade, e não políticos, neste caso, os do governantes no poder. Ainda falta muito para que a vida política argentina amadureça o suficiente para entender – e colocar em prática – este conceito.
    Adriana

    • Flamarion disse:

      Adriana, concordo que o uso político da TV por governantes é sempre questionável e perigoso. Coisas que começam bem intencionadas muitas vezes acabam se transformando no seu oposto. Mas temos que dizer com todas as letras: a grande mídia comercial faz uso político dos seus meios há muito tempo, e nos faz achar que só os governantes e políticos é que fazem isso, e que ela mesma age apenas “no interesse do público”. Por isso, o papel que a mídia não comercial – com seus ainda parcos recursos, mesmo quando conta com o apoio de algum governo – pode desempenhar no sentido de tentar opor-se ao poder dos monopólios comerciais que dominam os principais meios de comunicação tem importância atualmente. E parece que ao menos na TV isso ainda dependerá, por algum tempo, de iniciativas vinculadas a governos que tenham interesses que se opõem, em algum grau, aos dos monopólios midiáticos. Mas sem dúvida esse é um debate e tanto, que merece ser feito.

  4. [...] Por ora, a oposição vem perdendo as batalhas e já soma pelo menos duas derrotas na Justiça, evidenciando que  a “Ley de medios” vai mesmo emplacar, possivelmente ainda este ano, e, com isso, provocar substancial reviravolta nos meios de comunicação argentinos.  E aí que entra o “6,7,8″, um bom aperitivo do que está para acontecer na terra de Maradona. Leia o artigo completo de Maués: http://www.rodrigovianna.com.br/colunas/livros-e-historia/na-argentina-tv-publica-inteligente-e-pole…  [...]

  5. Nikita disse:

    Gosto deste programa, vivi em buenos aires por 6 anos e via lá, direto! Em que canal da NET Porto ALegre é possível ve-lo aqui no Brasil??
    Aguardo resposta

    Saludos!

Comentar