Preciosidade: Lançada edição fac-símile do jornal alternativo Ex-
publicada quarta-feira, 07/07/2010 às 10:03 e atualizada terça-feira, 20/07/2010 às 15:49
Um dos mais importantes “nanicos” dos anos 1970, “Ex-” reunia jornalismo de primeira, contestação e contracultura. Lançamento traz todas as edições do jornal na íntegra.
por Flamarion Maués
No finalzinho de junho, ocorreu um grande lançamento editorial, certamente um dos principais deste ano: o Instituto Vladimir Herzog e a Imprensa Oficial de São Paulo publicaram a edição fac-similar do jornal Ex-, um dos mais significativos da imprensa alternativa dos anos 1970 no Brasil.
O Ex-, produzido em São Paulo por uma equipe que reuniu nomes como Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Dácio Nitrini, Mylton Severiano, Hamilton Almeida Filho, José Hamilton Ribeiro, Amancio Chiodi, entre outros, circulou entre novembro de 1973 e dezembro de 1975, apenas dois anos, portanto, mas marcou o jornalismo brasileiro. Jornal de cultura e política, de crítica e de ruptura com os costumes estabelecidos, de esquerda mas não alinhado a nenhum grupo específico, representou um respiro e um desafio tanto para aqueles que o faziam como para seus leitores, naqueles anos em que a ditadura estava muito firme, e a repressão e a censura a pleno fôlego.
Já em seu número 1 Ex- definiu sua marca registrada, a irreverência e a contestação, ao estampar na capa uma fotomontagem de Hitler tomando sol pelado numa praia tropical. Uma imagem eloquente, sem dúvida, ainda mais em novembro de 1973. A capa do número 3, com Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, vestindo um uniforme de presidiário – estavam em curso as investigações do caso Watergate, que levou Nixon a renunciar à presidência em agosto de 1974 –, resultou na prisão de Sérgio de Souza e Narciso Kalili, por “ofensa a presidente de país amigo”. Foram muitos os contratempos e vaivéns do jornal, até outubro de 1975, quando foi assassinado no DOI-CODI de São Paulo o jornalista Vladimir Herzog. Ex- conseguiu em poucos dias fazer uma grande reportagem mostrando como Vlado tinha sido morto, desmentindo a suja versão de suicídio criada pela ditadura. A edição número 16 do jornal, que trazia esta reportagem, vendeu 20 mil exemplares em poucas horas, antes de ser proibida. Uma segunda tiragem de 30 mil exemplares foi recolhida pela censura na gráfica, antes de chegar às bancas.
A partir daí, Ex- não pôde mais circular. Seus editores ainda tentaram algumas artimanhas para escapar da censura e da perseguição, mas novas edições do jornal, com nomes diferentes, também forma proibidas ou apreendidas (estes números estão nesta edição fac-similar). Enfim, um capítulo da imprensa alternativa e da resistência à ditadura que merece ser conhecido.
Tudo isso já seria suficiente para que este lançamento fosse considerado da maior é importância. Mas há outros motivos mais. Primeiro, temos novamente a possibilidade extraordinária de conhecer e
ler todas as edições de Ex-, inclusive as que foram censuradas e nem chegaram a circular. Não se trata de uma seleção das melhores matérias do Ex-, mas sim da reprodução em fac-símile de suas 19 edições, que podem ser desfrutadas agora na íntegra. A única diferença em relação às edições originais é que estas eram feitas em papel jornal, e a edição fac-similar é em papel off-set (sulfite).
Um segundo ponto a destacar: a excelente edição proporcionada pela Imprensa Oficial, que bancou o projeto de reeditar os jornais como jornais, ou seja, não se trata de um livro, mas de uma caixa contendo as 19 edições em fac-símile do jornal. Não deixa de ser uma ousadia formal, que deu muito certo. O preço ficou um pouco salgado (R$ 140,00), mas vale a pena, é um investimento seguro em cultura, história, memória, coragem e bom humor.
Em terceiro lugar – e poderiam ser destacados outros pontos ainda, sem dúvida –, a importância dessa edição de Ex- é que ela lança uma ideia que talvez pudesse ser encampada pela Imprensa Oficial e pelo Instituto Vladimir Herzog: reeditar outros jornais da imprensa alternativa. Jornais como Versus, Brasil Mulher, Repórter, Maria Quitéria e tantos outros bem que mereciam ser postos novamente à disposição dos leitores mais jovens.
Claro, nem todos os jornais da imprensa alternativa podem ser relançados edições fac-similares – inclusive alguns dos mais importantes, como Opinião, Movimento, Pasquim, Em Tempo, que tiveram centenas de edições, o que torna inviável tal empreitada. Mas, nestes casos, bem que se poderia pensar em fazer edições eletrônicas (em DVD), com as edições fac-similares digitalizadas. Nessa empreitada, o Arquivo Público do Estado de São Paulo poderia ser um parceiro fundamental.
Flamarion Maués é editor de livros e historiador.
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5 Comentários




A matéria trás à memória lembranças distantes de um tempo que bem gostaríamos de poder apagar. Tomara que não falte à juventude brasileira de hoje a providencial curiosidade para conhecer melhor a História desse País. Parabéns aos editores pela iniciativa.
Caro Flamarion,
Muito boa essa idéia-proposta.
Sandra
rara no Brasil, iniciativa como esta de perpetuar aqueles que estavam fadados ao esquecimento, é realmente digna de cumprimentos. pena que no universo da memória social brasileira, esta iniciativa seja uma exceção.
parabens flamarion pelo texto.
Caro,
muito obrigado e parabéns.
Abraços e tudo de bom,
Nos anos setenta a edição histórica do Jornal Ex,que narra a agonia,tortura e morte do Herzog,foi como a minha estrada de Damasco,despertou-me para o horror absoluto que se apoderara da nação.Sintomático como uma imprensa séria,comprometida com a história pode fazer, ao contrário desse arremedo de mídia de hoje que manipula, mente e distorce, tudo em favor do deus mercado,que também ontem,hoje sabemos,sustentava o que se passava nos porões.