A batalha dos juros e sua importância estratégica

publicada quinta-feira, 19/04/2012 às 11:13 e atualizada terça-feira, 08/05/2012 às 11:50

Por Pedro Pomar

Finalmente, um enfrentamento! Aquilo que o escritor Luis Fernando Veríssimo, apoiador de Lula, pediu em vão durante o primeiro mandato do presidente operário, evocando a rebeldia de Ghandi ao apanhar um bocado de sal (objeto de monopólio da Grã-Bretanha) perante os colonizadores ingleses: “um pequeno gesto”…

Como é óbvio, estamos falando da decisão do governo Dilma Rousseff de forçar indiretamente a queda dos juros no mercado financeiro, por meio da pressão exercida pelo Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF). Os dois grandes bancos estatais reduziram os juros que eles próprios cobravam, aumentaram o volume de dinheiro disponível para empréstimos, e com isso obrigaram os grandes bancos privados — Santander, Bradesco, HSBC, Itaú-Unibanco — a também baixar as taxas cobradas de empresas e de pessoas físicas.

Pequeno, tímido passo? Nem tanto. Combinada com a decisão do Banco Central (BC) de baixar gradualmente a taxa Selic, uma das mais altas do mundo, essa medida do governo tende a aquecer a economia, na contramão da crise mundial, e é indispensável (embora não suficiente) para fazer o país crescer com distribuição de renda e desenvolvimento social. Portanto, “um absurdo”… na opinião dos banqueiros privados, que tugiram e mugiram, protestando contra a ação do BB e da CEF.

O governo se manteve firme, não recuou. Nas últimas décadas o setor financeiro enriqueceu como nunca, e sua arrogância talvez explique o fato de que uma parte dos formadores de opinião alojados na mídia gorda (como as jornalistas Miriam Leitão e Eliane Cantanhede, por exemplo) deu apoio à medida patrocinada pelo Planalto. O discurso dos bancos já não engana ninguém; o spread, ou taxa de risco, é escandalosamente alto no Brasil; além disso, o setor financeiro cobra dos correntistas tarifas imorais.

A exitosa ação governamental comprovou a importância de o Estado brasileiro possuir grandes bancos públicos, poderosos instrumentos de crédito e de política econômica. Isso já se tornara evidente na crise de 2008, quando o governo usou os bancos estatais, inclusive o BNDES, para garantir o financiamento da economia, destravando-a, uma vez que os bancos privados estavam retendo o crédito e assim impedindo o giro da economia.

Juros ainda estão altos, diz Contraf
O movimento sindical entrou no debate, cobrando maiores reduções nas taxas de juros nominais e reais. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) declarou que o corte de 0,75% decidido em 18/4 pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que baixou a Selic para 9%, é bem vindo, mas há margem para maior redução. A Contraf considera “imprescindível” forçar o sistema financeiro a baixar o spread e as taxas de juros.

“Embora a nova queda da Selic seja um passo positivo, o Brasil continua com uma das maiores taxas de juros do mundo. Em 2011, o Tesouro desembolsou R$ 236,6 bilhões para pagar os juros da dívida pública, o que é o maior programa de transferência de renda do governo, beneficiando os mais ricos”, afirma Carlos Cordeiro, presidente da confederação.

Para o dirigente, as reduções anunciadas pelos bancos privados foram pequenas. “Continuamos com um spread muito acima da média internacional. A queda nos juros não pode ser apenas perfumaria, é preciso que os bancos reduzam de fato o spread. É preciso também aumentar a oferta de crédito, que hoje é de apenas 49% do PIB, enquanto nos países desenvolvidos chega a ser mais que o dobro”, argumentou Cordeiro. A Contraf defende a realização de uma conferência nacional para discutir o papel dos bancos na economia.

Na visão do sindicalista, o Copom errou feio em 2011, ao ceder às pressões do sistema financeiro e elevar a Selic. Na ocasião, diz ele, o Copom “olhou apenas para a inflação e, com isso, sacrificou o crescimento da economia, que foi de apenas 2,7% no ano passado, e a geração de emprego e renda para os trabalhadores”.

O enfrentamento com o capital financeiro precisa continuar, ganhar corpo na sociedade, ganhar as ruas. Só desse modo será possível realizar algumas das reformas estruturais, de natureza democrática e popular, de que o país tanto necessita para superar o apartheid social vigente.

*Pedro Pomar é jornalista, editor da Revista Adusp e doutor em ciências da comunicação.

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9 Comentários

9 Comentários para “A batalha dos juros e sua importância estratégica”

  1. E Dilma dobrou os bancos

    Os banqueiros reagiram com a habitual arrogância. Os analistas, como sempre, anunciaram o pior dos mundos (Roberto Luiz Troster publicou um texto na Folha com o título “Não vai dar certo”). Todo o noticiário econômico reverberou pessimismo e até certa ironia: como a presidenta ousava impor sua agenda a instituições tão poderosas?

    Pois erraram todos. Em menos de um mês os bancos recuaram e seguiram exatamente aquilo que o governo esperava deles. Tratados a pão-de-ló pela mídia corporativa que financiam e beneficiados pela concentração cartelizada do mercado, os bancos e seus porta-vozes subestimaram a capacidade agregadora da concorrência. E agora refugam feito mercearias de bairro para não perder a freguesia.

    É importante deixar bem claro que a culpa dos juros astronômicos não é da inadimplência, como apregoam os burocratas. Pelo contrário. São os juros indecentes que elevam as dívidas originadas pelo crédito a patamares impossíveis, causando a quebradeira generalizada de milhões de trabalhadores para em seguida aprisioná-los pelo resto das vidas. A prova de que esse sistema é abusivo acaba de ser dada no próprio recuo dos bancos.

    Há ainda outras medidas governamentais necessárias. Divulgar e facilitar a portabilidade de financiamentos e contas bancárias, por exemplo, é imprescindível. Mas também ajudaria melhorar a qualidade dos serviços prestados pelas instituições públicas (agências, internet, produtos), que ainda ficam muito abaixo de qualquer padrão aceitável.

    http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/

  2. Jô Freitas disse:

    Muito bom o texto. Já estava mais do que na hora do governo forçar a queda dos juros. Chega de enrequecimento de banqueiros enquanto nós pobres criaturas mortais pagamos caro por tudo.
    Parabens ao governo Dilma pela coragem de enfrentar estes lobos famintos e baixar os juros.
    Foi preciso uma mulher para fazer o que nossos governantes, antes não fizeram.

    • Yaco disse:

      A DILMA merece todo nosso respeito e elogios, mas se não fosse o NUNCA DANTES para preparar o caminho, ela dificilmente poderia fazer o que está fazendo. O LULA teve que fazer várias concessões ao mercad – que quando e sus eleição jogou o risco brasil na estratosfera e aumentou o Dolar uma barbaridade – para poder governar. A Carta ao povo Brasileiro, o Meirelles no BC e a concessão aos juros altos ao longo de seus 2 governos foi o preço a pagar pela libertação do Brasil dos grilhões neoliberais. Agora a DILMA vai dar o golpe de misericórdia nesses fariseus. VIVA O BRASIL!!

      “O BRASIL PARA TODOS não passa na gLOBo – O que passa na gloBO é um braZil para TOLOS”

  3. Cláudio Freire disse:

    Pois é, Guilherme, e acho que vem mais por aí: hoje mesmo, depois da redução da Selic que foi feita ontem, o BB já anunciou uma redução adicional dos “spreads”. Além disso, ouvi falar que o governo está preparando uma proposta para portabilidade. A conferir.

  4. “Mídia gorda”! Hehe! Gostei, vou usar…

  5. Renato disse:

    Vale dizer que os juros do BB caíram, mas as TARIFAS DE MANUTENÇÃO DE CONTA CORRENTE ESTÃO MAIORES, com isso ter uma conta corrente ainda é muito caro no Brasil. Os canalhas dos executivos do banco continuam tentando burlar as ORDENS DE DILMA!!!! De olho neles, gente…

  6. Bruno Nasser Arantes disse:

    com a baixa dos juros, o Brasil se molda de acordo com os países desenvolvidos, e isso com certeza é um grande passo. Devemos dar parabéns pelo trabalho que Dilma e seu governo vem exercendo, pois vem trazendo resultados positivos.

  7. José A. de Souza Jr. disse:

    E eu continuo a perguntar: por que os juros tem que ser tão elevados no Brasil? Quem responder de maneira simples, racional e sem enrolação ganha um doce.

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