Política interna: tensões no horizonte
publicada quarta-feira, 08/02/2012 às 10:25 e atualizada quinta-feira, 09/02/2012 às 10:37
Por Pedro Pomar
Nada a ver com a profecia de final dos tempos, mas é óbvio que 2012 será um ano dos mais turbulentos no Brasil e no mundo. Aqui, nem tanto por causa da crise econômica, embora a América Latina eventualmente venha a sofrer os seus reflexos. O tempero da crise política brasileira tem mais a ver com o descompasso entre o governo federal e os movimentos sociais. Ou, se quisermos ver por outro prisma, existem tensões crescentes no horizonte imediato, no Brasil, que se relacionam ao modo desigual de distribuição das riquezas geradas pelo crescimento econômico.
Seguindo na contramão da crise mundial, nosso país vem crescendo (ainda que em taxas mais modestas em 2011) e produzindo índices espantosos de acumulação de capital, a exemplo dos demais Brics. Temos “nossos” bilionários, “nossos” bancos alcançam lucro recorde, “nossas” multinacionais fincam os pés em diversos países e os preparativos para “nossa” Copa do Mundo se aceleram… A ação governamental têm sido determinante para se alcançar tal sucesso, mediante políticas de indução, financiamento estatal etc.
Contudo, ainda que tenha havido um substancial acréscimo no número de empregos gerados, inclusive com carteira de trabalho assinada, e evidente aumento do poder aquisitivo de uma parte da população, o apartheid social e econômico tem se aprofundado. Exemplo disso é o massacre do Pinheirinho, em São José dos Campos. Alguém notou que as pessoas expulsas perderam eletrodomésticos e outros bens que talvez fosse raro encontrar em favelas anos atrás; mas elas não tiveram respeitado seu direito à moradia.
As forças políticas conservadoras têm agido para impor ao governo federal a sua agenda (delas), derrotada nas eleições de 2010. Infelizmente, parece que ao menos em parte elas têm conseguido. A privatização de alguns dos principais aeroportos do país é o exemplo mais recente, galhardamente comemorado pela mídia comercial. O recuo no projeto da banda-larga e a decisão de ignorar as medidas aprovadas pela Conferência Nacional de Comunicação (convocada pelo próprio governo e realizada em 2009) são outro exemplo.
O episódio do Pinheirinho, além de delinear claramente a fisionomia política fascista do governo Alckmin, reforçou a sensação de forte retrocesso no respeito aos direitos humanos. O governo federal propôs uma solução negociada, democrática, mas não comprou a briga como deveria; não travou publicamente a disputa político-ideológica contra a “solução” tucana.
Por onde quer que haja obras destinadas à Copa se encontra um rastro de remoções forçadas de moradores. Os guarani-kaiowás estão sendo vítimas de extermínio gradual, sem que se note a existência da Funai. Na Bahia os tupinambás foram removidos de suas terras ancestrais por uma operação da Polícia Federal. São inúmeras as nações indígenas ameaçadas, inclusive pela construção de usinas na Amazônia. Sucedem-se os assassinatos de ambientalistas e de líderes camponeses, sem reação digna de nota por parte do governo federal.
Maior central sindical do país, a CUT vem subindo o tom. No protesto contra a privatização dos aeroportos, que a Central realizou no dia 6, em frente à Bolsa de Valores, uma das palavras de ordem foi “Dilma, eu não me engano, privatizar é coisa de tucano”… Será mesmo um ano de fortes emoções.
*Pedro Pomar é jornalista, editor da Revista Adusp e doutor em ciências da comunicação.
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27 Comentários







Caro Pedro Pomar,
endosso quase que integralmente a sua análise para 2012, embora que eu considere a possibilidade dela ser mais contundente ainda. Por que?
A conjuntura internacional que castiga países até então acostumados ao bem estar social proporcionado por seu governos sociais democratas ou ainda o pequeno, mas significativo, índice de conscientização dos jovens cidadãos norte americanos, trazem novos ingredientes ao jogo político/econômico.
No Brasil, que embora fazendo direitinho o seu dever de casa perante a crise econômica, não estamos imunes a alguns desvios de rota provocados, inclusive, para realinhamento da economia.
Os setores que têm se privilegiado continuarão e buscarão manter seus privilégios. A “nova classe média” ficará mais exigente e vai defender com unhas e dentes o pouco que vão conquistando, massa de manobra fácil para os conservadores fascitóides.
As eleições municipais irão radicalizar o processo a partir do meio do ano, onde a briga entre blogueios e mídia entrará numa guerra mais acentuada.
Num país ainda de baixo nível de conscientização política, onde a audiência de BBB’s e novelas ainda supera de longe o interesse do povo pelo real conhecimento do país, não vejo com muito bons olhos a seuqência de 2012.
Apenas um pequeno exemplo: já não se fala tanto na tal CPI da Privataria. Ficará tudo como dantes no quartel de Abrantes?
Espero estar enganado, sinceramente.
Abraço,
Izaías Almada.
Caro Izaias,
Muito pertinentes as suas observações. Concordo que há risco de acirramento da crise e dos conflitos sociais. Especialmente se o governo federal se alinhar ao lado dos privilegiados.
Obrigado por seus comentários e um abraço!
No caso dos aeroportos, há semelhanças entre privatização e concessão, mas é honesto intelectualmente que se ressalte as diferenças. Há diferenças fundamentais nos processos:
1. Nos anos 90, foram realizadas privatizações de fato: o patrimônio das empresas públicas foi transferido em definitivo para empresas privadas. Agora, não: a operação dos três aeroportos foi concedida às empresas privadas, por prazos definidos, mas a gestão do sistema aéreo continua sendo realizada pela INFRAERO, e o patrimônio continua público.
2. Nos anos 90, o BNDES financiou a compra das empresas, e o governo utilizou no processo, fartamente, as chamadas “moedas podres”. Agora, o BNDES vai financiar os investimentos necessários (não as compras).
OBS: vale a pena comparar pelo menos um preço: o patrimônio e a gestão da VALE foi entregue por aproximadamente US$ 3,5 bilhões. A operação dos três aeroportos foi concedida por US$ 24,5 bilhões. Mesmo com as atualizações necessárias, a diferença é enorme.
Bergamo pede a condenação da Folha
http://wwwterrordonordeste.blogspot.com/2012/02/promotora-acusa-folha-de-incentivo.html
Promotora acusa Folha de incentivo à prostituição
Por que a Infraero não assumiu a Administração “boa e decente” ? Por que era incompentente? Continuo perguntando.Dinheiro não é o que faltava, como vemos. Faltavam diretores competentes? Mas por que não nomearam os competentes? Ou não fizeram concurso?
A coisa anda tão feia para a esquerda brasileira que até a direita está fazendo um discurso mais voltado para o social. Sei que parece piada, mas aqui no Rio, César Maia, político de ultra-direita e seu filho Rodrigo, criticam diuturnamente as privatizações da saúde e educação feitas pelo prefeito Eduardo Paes e pelo governador Cabral, aliados da Dilma, Ou seja, a direita malandramente cooptou o discurso das esquerdas daqui, na tentativa de obter o voto popular nas próximas eleições para prefeito.Fico preocupado com os rumos escolhidos pelo governo federal e confesso-me frustrado com o atual quadro político brasileiro. Como fluminense que sou, vejo meu estado – o que mais deu vitórias ao PT – sendo vilipendiado todos os dias. Os transportes daqui (barcas, metrô, trens, bondes) foram destruídos e entregues á iniciativa privada. O mesmo está acontecendo com saúde e educação que, rapidamente estão sendo entregues às OSs ou a fundações ligadas aos grandes grupos da mídia. Só nesse anos milhares de professores das redes estadual e municipal do RJ podem perder seus empregos, pois a fundação Roberto Marinho está entupindo as escolas fluminenses com o telecurso da Globo, com intuito de mascarar os índices do IDEB que apontam o RJ como um dos estados de pior educação do país.
Se as coisa continuarem do jeito como estão, calculo que em pouco tempo, o PT estará numa encruzilhada parecida com a dos partidos de esquerda europeus e do chileno, que viram seus planos irem por água abaixo por abandonarem suas bandeiras. A perda de poder político do PT será inexorável nos anos que virão, caso o partido não ponha em prática seu programa e suas promessas de campanha, o que até o momento não tem acontecido.
Bom! Tem algo de verdade. Mas devemos dizer que concessão é diferente de privatização, pra inicio de conversa..Por exemplo a VALE foi vendida( privatizada)..Os aeroportos não foram vendidos pelo que eu saiba..
É incrível como até um cara extremamente politizado como Pomar repita que nem papagaio que houve privatização e não concessão, institutos completamente diferentes.
Mas queria falar sobre a banda larga, hoje, a NET oferece 10 megas a R$ 29,90 em Porto Alegre, o programa de banda larga do governo sinalizava com R$ 35,00 para 500K.
O que houve foi que o governo foi engolfado pelo mercado (capitalismo), manter a ideia de uma empresa estatal neste contexto seria loucura e rabugiçe ideológica.
{ironia on} Que bom. Agora milhões de gauchos poderão ir para Porto Alegre.{ironia off}
Estou espantado com o cinismo da militância chapa branca…
“Repita que nem papagaio”…? Infelizmente as concessões são uma modalidade de privatização. No mínimo, representam uma privatização da gestão de uma determinada atividade pública. Será que vamos sair por aí dizendo que os pedágios paulistas, que garantem, diga-se de passagem, o financiamento de campanha dos candidatos tucanos desde sempre, não são produto de um processo de privatização? Os setores que, dentro do PT e da CUT, se insurgiram contra a privatização dos aeroportos, também estão “macaqueando uma estratégia tola”?
E a propósito: seja mais educado da próxima vez.
Essa discussão que privatização é diferente de concessão é pura desculpa de quem está envergonhado do Governo que elegeu.
A coisa é mais ou menos assim: os pais vendem a filha para a prostituição, ela passa a pertencer ao comprador. Isto é privatização.
O gigolô aluga a mulher para prostituição, mas continua dono. Isso é concessão.
Que diferença faz para as pobres vítimas? Que diferença faz para a população que precisa usar aeroporto?
Quanto cinismo!
Prezado Rodrigo,
Sou professor da UFMG (BH). Com relação às obras destinadas à Copa, aqui em BH os entornos do estádio, que estão muito próximos à Universidade Federal (UFMG), trarão trastornos grandes ao meio acadêmico. Fala-se que, pelos próximos 30 anos, a empresa que ganhou o direito a usar o estádio pretende realizar mega-eventos, não respeitando nem mesmo a Universidade. Esses mega-eventos trarão problemas à pesquisas que são desenvolvidas aqui dentro. A comunidade universitária não concorda com a forma que está sendo tudo decidido, o reitor não concorda. E quem nos ouve?
Caro Professor Rodrigo,com todo respeito,só agora reclamar? O Vigarista Político Aécio, ainda quando Governador fez tudo isso em cima do NARIZ da UFMG, não tive notícia que os acadêmicos da Famosa Universidade tenha se manifestado. Nós do Movimento Social fizemos Barulho, visto que o MINEIRÃO pertence a UFMG. Existe ação na justiça da relação promíscua e não Republicana da UFMG e o Estado de Minas.AQcorda! de Belo Horizonte.
Caro professor Rodrigo, meu telefone para contato é 31 97881333. Participei de protesto contra os desmandos há 3 anos. Entendemos que o Governo do Estado á época, atropelou a UFMG…..tem mais histórias nisso tudo…..de Belo Horizonte.
O POMAR viajou na MAIONESE na onda do PIG e dos PRIVATORES TUCANOS. Ele deveria escarecer o que é PRIVATIZAR e CONCESSÃO ADMINISTRATIVA. DILMA, NÃO VENDEU NADA e Não entregou nada á família SERRA e FHC, bem como o ENTREGUISTA PSDB. DILMA não VENDEU. Acorda! de Belo Horizonte.
Quem está “viajando na maionese” é você, prezado David.
Infelizmente as concessões são uma modalidade de privatização. No melhor das hipóteses, representam uma privatização da gestão de uma determinada atividade pública. As empresas que ganharam o leilão vão administrar os aeroportos públicos e LUCRAR com eles. E tudo isso será financiado (gordamente financiado) por um banco público,o BNDES.
Será que vamos sair por aí dizendo que os pedágios paulistas, que garantem, diga-se de passagem, o financiamento de campanha dos candidatos tucanos desde sempre, não são produto de um processo de privatização? Os setores que, dentro do PT e da CUT, se insurgiram contra a privatização dos aeroportos, também estão “viajando na maionese”?
Atente para o caso das Organizações Sociais (OS), que o governo Alckmin vem adotando como modelo de gestão da saúde, da cultura e até do patrimônio natural (como as cavernas do Vale do Ribeira). Elas usam prédios e equipamentos públicos para interesses PRIVADOS.
Mesmo caso das fundações privadas ditas “de apoio” a universidades públicas. Usam o prestígio dessas instituições, seus prédios,seus funcionários etc. para gerar receitas das quais se apoderam PRIVADAMENTE, embora todos esses fatores citados continuem nominalmente públicos.
Cuidado para não escorregar na maionese.
abs!
Não devemos esperar por iniciativas de governos, sejam eles de esquerda, de centro, de direita ou de nada. Cabe às organizações sociais, aos movimentos, centrais sindicais e à Blogosfera pressionar os governos para atender às reivindicações.
O cidadão é doutor em ciências da comunicação e não sabe a diferença entre concessão e privatização? Como diria o Lamparina de Alexandria: Assim não dá, assim não pode!
Pois é, Ivo. Até os doutores podem cometer uma burrada de vez em quando. Mas não neste caso. Remeto você e os demais leitores à resposta que eu dei ao David. Existem diferentes formas de privatização e a concessão é uma delas.
É claro que as privatizações realizadas até agora no governo Dilma não configuram um programa privatista e privatizador como o de FHC (ou de Covas e Alckmin em São Paulo). Mas a sinalização é preocupante. Os leilões de cotas de exploração de petróleo, por exemplo,continuam a ser realizados.
Por isso tudo não devemos tapar o sol com a peneira. E muito menos recorrer ao Lamparina de Alexandria, porque a iluminação será insuficiente.
abs!
Se ainda fôsse comentário da turma do partido da Judith, do Aécio, THC ou outro tucano qualquer, dava até para entender, mas do Pomar, dá um tédio, de novo aquele passado da esquerda só se unir na cadeia, enfim, não dá mais para perder tempo com esse tipo de análise granilítica.
Relaxa, estamos em fevereiro, na realidade tempo de “Tesões no horizonte”.
Sacou?
Pedro Pomar escreveu um artigo brilhante sem pedantismo algum Conseguiu com facilidade analisar o Brasil contemporâneo na política nacional. Parabéns. Quero ler mais textos do autor.
Abstraindo-se algumas considerações do autor sobre questões polêmicas, o governo Dilma tem me decepcionado, principalmente pela covardia em enfrentar a mídia velhaca. Causa-me indiferença ao discurso da presidenta quando esconde as mazelas destes vendilhões da pátria e confraterniza com fhc alckmin e outros déspotas. E por que não confraternizar comigo? Custa-me acreditar que votei em um guerreira que tem medo de guerrear. Pode? Já decidi – infelizmente logo no início de seu mandato – não voto mais nela. Volta Lula!
Volta Lula?só se for pro Morumbi ou pra Garanhuns,né?
Vendilhões da pátria é coisa de general de pijama,vai dormir
Alexandre!
Estou alinhadinha com o texto do Pomar, de fato os exemplos que ele citou são questões nas quais a nossa Presidenta (e o Lula também) assumiram posições tímidas e extremamente incoerentes. Isto, sem contar, que é inaceitável que governos petistas sequer discutam (com um mínimo de seriedade)questões que sempre consideraram essenciais como a reforma agrária, a reforma tributária e a educação que está definhando há pelo menos 200 anos neste país. Concordo com o Alexandre, quando votei na Dilma, achei que estava votando numa guerreira e, nesse aspecto, ela tem decepcionado muito. Além disso, eu acho um absurdo essa história de só conversar, explicar as coisas em época de eleição, se dialogasse mais com o povo, ela certamente teria mais apoio. O povo merece respeito e os governantes tem obrigação de dar explicações, sempre.
As obras de vários maracanãs pelo país,que apresenta hospitais caindo pela tabelase profesores mal pagos,são uma bofetada no rosto dos eleitores deste governo.
Alugar e vender são bem diferentes. Sou contra a concessão, mas são diferentes. Pomar só destacou a concessão como modalidade de privatização por que foi cobrado pelos leitores. Podia dizer de pronto que é uma modalidade, né ?
Por mais que o caso do Pinheirinho seja grave, não dá pra dizer que por causa disso o apartheid social esteja se aprofundando. Teríamos que debater, enumerar vários outros aspectos pra afirmar isso.
Independentemente desses “escorregões” – na minha opinião completamente voluntários e tendenciosos – penso e espero que a CUT e o PT devam subir o tom das críticas e fazer a disputa na sociedade prá não deixar a direita tão a vontade pra pressionar o governo. Esse ressesso já passou do limite do razoável e só enfraquece o projeto popular que a classe levou muito tempo pra construir.
O PT é contra aumento para aposentado para garantir finan-
ciamento dos fundos de pensaõ dos Bancos.Por isso não respeita direito adquirido,direito a`tratamento igual para
todos nem direitos humanos por que aposentado tambem e´gen
te.