Aos crimes da ditadura, tolerância zero

publicada segunda-feira, 07/02/2011 às 09:27 e atualizada segunda-feira, 07/02/2011 às 09:02

por Izaías Almada

A intransigência costuma ser um sentimento ou uma atitude humana mais arraigada entre nós do que propriamente a tolerância. Arriscaria a dizer que, em algumas situações, a intransigência é até mais apreciada, em particular quando se reveste de manifesto confrontamento às injustiças sociais. Ou contra as injustiças de modo geral, embora nem sempre seja fácil no mundo de hoje, dominado pela informação parcial e irresponsável, pela quase total mercantilização das relações humanas, abaixarmos o polegar acusador com a segurança de um imperador da Roma antiga.

Não transigir pode significar, por exemplo, ser coerente na defesa de determinados princípios, de determinadas ideias; significa ter força de caráter. Digamos que seria esse o lado positivo da intransigência, bem consideradas as circunstâncias em que ela se dá. Mas como tudo na vida, a intransigência tem também o seu lado nocivo, prejudicial ou até mesmo irracional. Nesse caso, o uso do antídoto da tolerância como remédio é sempre recomendável.

Tais reflexões, até comezinhas para espíritos mais eruditos, vêm a propósito de um tema bastante delicado na atual conjuntura política brasileira, qual seja, o início dos trabalhos da “Comissão da Verdade” na área dos Direitos Humanos e a esperada solução para os crimes de tortura e sequestro de cidadãos brasileiros durante a ditadura civil/militar de 64/68.

Tema delicado, espinhoso para muitos, mas que deve ser enfrentado com serenidade e determinação pelo novo governo da presidenta Dilma Roussef. Não se trata, e aqui faço coro com muitos defensores da tese, de revanchismo ou coisa do gênero, mas de justiça. Justiça não apenas aos que foram torturados, mas, sobretudo, aos mortos e desaparecidos políticos, pois para esses a tortura significou o seu assassinato.

A prática da tortura é um crime contra a Humanidade e, como tal, abominável e imprescritível. Cometido em que tempo for e sob qualquer condição, não se extingue e será passível de punição. Crime que não se beneficia de anistias, a não ser aquelas ainda geridas impropriamente num contexto de ilegalidade constitucional.

No caminho de uma possível e desejável maturidade democrática, o Brasil ainda se comporta como adolescente, com os problemas próprios inerentes a essa fase da vida. Contudo, torna-se imperioso que a nova geração de militares brasileiros, muitos deles já conscientes de que pertencem a um novo país, já muito diferente daquele herdado na vigência da guerra fria e de um conceito de segurança nacional ultrapassado, torna-se imperioso – repito – que trabalhem junto aos colegas ainda renitentes para apagar essa mancha na história do país.
Esse novo país que precisa ajustar-se internamente para fazer frente aos grandes desafios que se avizinham. Erradicar a pobreza, ampliar o emprego formal e distribuir a riqueza com mais justiça social, conquistar em definitivo sua soberania, defender a Amazônia, o Pré Sal, os Aquíferos, amazônico e guarani, estimular a cidadania e a convivência democrática, ampliar o acesso aos estudos, intervir na vergonhosa mercantilização da saúde, combater firmemente a corrupção e a impunidade.

Tarefa hercúlea, mas não impossível. E para isso, um bom começo é ajustar contas com o passado. Sob certos aspectos, em particular nessa questão de punição aos torcionários, penso que o bordão do momento deveria ser: tolerância zero.

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3 Comentários

3 Comentários para “Aos crimes da ditadura, tolerância zero”

  1. alguns ciberativistas começaram no Twitter uma campanha pela abertura dos arquivos – http://tsavkko.blogspot.com/2011/01/desarquivando-o-brasil-pela-abertura.html

  2. Márcia Regina disse:

    Excelente e oportuno artigo, Izaías!
    Penso que se não enfrentarmos esse acerto de contas com o passado, que não é revanchismo, como você bem pontualizou, perpetuaremos todas as outras formas de violência e de violação dos direitos humanos: fome, miséria, analfabetismo, assassinatos “gratuitos”, violência policial, contra as mulheres, crianças e idosos, concentração de terra, de bens e das comunicações (cadê o marco regulatório para o setor???), manutenção de jovens e adultos fora da escola, trabalho precário e escravo, tráfico de seres humanos, enfim, toda espécie de violação dos DH. A punição aos torturadores é condição necessária para o país trilhar caminhos efetivamente democráticos.

  3. Cesar disse:

    Abertura de todos arquivos e o devido processo legal com condenação aos torturadores e assassinos de nossos filhos.

    A culpa não é das FORÇAS ARMADAS, mas sim de algums delinquentes que se apoderaram do EXERCITO para cometer crimes de tortura, sequestro, assassinatos e muitos outros, como ameaça, lesão corporal, tentativa de homicídios e muitos homicídios…

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