E a novela continua…
publicada segunda-feira, 13/06/2011 às 19:16 e atualizada terça-feira, 21/06/2011 às 12:08
Por Izaías Almada
Acredite quem quiser, mas a novela “Amor e Revolução” continua o seu calvário no SBT. A última pesquisa do Ibope (06/06/11) apresentava um índice de audiência de 3%, o mais baixo entre as novelas que estão sendo apresentadas no momento. Segundo o Instituto de pesquisa, para cada 100 televisores ligados no horário, apenas 06 (seis) estavam sintonizados na novela. E isso é mau, segundo os especialistas no assunto.
Até aí nada de mais, pois sempre haverá um dos folhetins eletrônicos que ocupará a última posição na pesquisa, até mesmo com índices de audiência maiores do que este apresentado por “Amor e Revolução”. O grande problema é que os autores ainda não conseguiram encontrar o norte, o rumo certo para o enrosco em que se meteram. E tenho sérias dúvidas se o encontrarão.
Não me parece que o gênero telenovela, tal qual é feito no Brasil, aceite qualquer tema para ser dramatizado, sobretudo quando se trata de “contar histórias” a partir da realidade. E quando essa realidade envolve questões políticas, opções ideológicas, luta de classes, o confronto visceral entre ditadura e democracia, por exemplo, e ainda traz no seu bojo feridas não de todo cicatrizadas pela sociedade brasileira, torna-se necessário que seus autores conheçam minimamente o assunto que escolheram. E esse, definitivamente, não é o caso.
E não lamento. Ao contrário: quando ainda tenho paciência para ver algum capítulo e as situações e diálogos ridículos e inconsistentes que tentam fazer avançar uma história sem pés nem cabeça, compadeço-me com o desrespeito à memória de homens e mulheres como Carlos Marighela, Mário Alves, Heleny Guariba, Iara Yavelberg, Eduardo Leite (o Bacuri), Joaquim Câmara Ferreira, Carlos Lamarca, Aurora do Nascimento Furtado, Vladimir Herzog, Maria Lucia Petit, Rubens Paiva, Maurício Grabois e tantos e tantos outros que perderam a vida para que o Brasil não só recuperasse a democracia que lhe haviam aprisionado com baionetas e canhões, mas que pudesse também ser um país de maior igualdade e justiça social.
Não deixa de ser curioso que um grupo de militares, assim que os primeiros capítulos foram ao ar, manifestassem a intenção de impedir a exibição da novela sob a alegação de que ela dava uma idéia preconceituosa de nossas FFAA. Atitude, quanto a mim ridícula e desnecessária, pois além de afirmarem na prática o sentimento autoritário que caracterizou os seus pares nos anos 60/70, não atentaram para o fato de que a estrutura da novela, digamos desse modo, ridicularizava também a esquerda revolucionária.
A tal ponto, que mais recentemente um grupo de militantes da época organizou um abaixo assinado na internet pedindo que os autores da novela excluíssem dos depoimentos finais as opiniões de defensores do golpe e dos métodos empregados para livrar o Brasil do comunismo, sob o argumento de que o país está para aprovar a Comissão da Verdade justamente para passar a limpo esse período e punir os torturadores.
Concordo com o argumento, mas não concordo com o método, pois seria também uma forma de censura e o que é pior: daria subsídios aos criadores da novela para que, falaciosamente, argumentassem que faziam uma novela “democrática”, dando voz aos dois lados da contenda.
Com essa fraca audiência, a pergunta que se torna necessária é a seguinte: se a novela, de grande realismo – segundo os autores – pretendia mostrar às novas gerações o que foi o Brasil dos anos 60/70 (assunto para o qual não se prepararam, insisto) o que explica audiência tão baixa? Estão as novas gerações desinteressadas do assunto ou perceberam que estão diante de uma tentativa de se vender gato por lebre?
Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).
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13 Comentários







Olha, Rodrigo, o Ricardo Setti, do esgoto da Veja, comprou a ideia do Facebook de uma tal de Ana do Endireita Brasil, e tá lançando no seu blogue da Veja o CANSEI 2. A Nova tentativa de golpe dos “cansados” está marcado para este sábado. Essa gente não vai desistir de duerrubar o governo da Dilma.
Outra coisa que tem de se considerar aí – além da tentativa de se vender gato por lebre – é o fato que o SBT atravessa uma grave crise de audiência há pelo menos 10 anos e não tem sucessos em novelas há 6 anos – não importa se é com produções mexicanas, do arquivo da manchete, deles próprios… Vendo Amor e Revolução e em seguida a ela o seriado Anos Rebeldes, no Viva, dá pra entender porque a Globo recusou fazer Amor e Revolução: a inconsistência não está apenas no exagero das cenas de tortura mas na falta do elemento principal que faz o genero novela ser o que é: o romance. o SBT prometeu demais, não conseguiu cumprir nada.
Nao acho que haja desinteresse. O problema nao eh o tema de que trata a novela, eh a novela em si, que eh MUITO ruim. O texto eh muito fraco, tudo cliche e, assim, nao ha tema que salve
Lamento que a coisa esteja nesse pé. Eu que não costumo ver há muito tempo nem as “badaladas” novelas globais, tampouco me animei a ver a novela do SBT – embora o tema me interessasse.
Um dos motivos foi exatamente saber que qualidade artística e técnica nunca foi o forte dessa emissora. Daí já imaginava que num tema já difícil como esse as citadas limitações ficariam ainda mais evidentes.
Curioso notar que o próprio SBT é uma sequela da ditadura, cujos generais entregaram um canal para Silvio Santos (e não ao grupo abril) exatamente por confiar que o apresentador com seu estilo popularesco não representaria riscos ao governo em nenhum sentido.
Vendo o que se tornou o grupo abril e sua principal publicação, não posso deixar de admitir que ao menos nisso e sem querer os generais escolheram o mal menor.
Comecei a vê-la depois do conserto da nossa antena parabólica, que estava queimada parcialmente. Fiquei umas duas semanas, mas desisti quando vi que a mulher do general vai ficar permanentemente sedada, e as duas crianças, filhas de uma subversiva desaparecida ficarão à mercê de uma governanta desequilibrada. Foi muito para mim. Além do mais, eles colocam 64 e 65 como anos em que a ditadura já estava radicalizada. Não foi assim. Havia, claro, as violações dos direitos humanos, mas também a possibilidade de Castelo Branco entregar o mando a um civil. Só que Costa e Silva se opôs e a ditadura continuou. Só poucos meses antes do AVC é que Costa e Silva se deu conta que o AI-5 era uma declaração de guerra. Ele próprio disse ao General Mourão. A ditadura mais radical foi de 68 a 75.
Concordo em partes com esse texto sobre a novela. Acredito que a trama se perdeu sim, mas tem um ensinamento válido. A audiência está baixa porque o SBT não sabe exibir novelas… Desaprendeu desde as mexicanas. Não tem horário fixo!
E ainda tenta ganhar audiência mexendo em polêmicas como beijo gay, mulher grávida de padre… Só a ditadura já é polêmica o suficiente!
Isso sem contar a edição… Faz quase uma semana que o núcleo da Patricia de Sabrit está na mesma cena!
Concordo muito com a falta de inconsistência nos fatos históricos demonstrados pela novela, mas ainda assim valorizo a iniciativa do SBT se dispor a produzir e transmitir uma novela sobre um tema ainda tão indigesto para tantas pessoas.
Seria muito mais prudente que, nos justássemos à essas pessoas que desenvolveram esse projeto e, junto com eles, desenvolvemos seriados ou outros projetos que continuem o tema com dados mais claros.
Embora não possa ver novelas por causa do horário de trabalho, creio que a baixa audiência não seja efeito direto da falta de conhecimento por parte dos autores. A chamada juventude não tem muito interesse por assuntos mais elaborados.
Também não concordo com o argumento do autor de que existam ”feridas não de todo cicatrizadas pela sociedade brasileira”.
Quem é a sociedade que não curou as feridas? Muito vago. Parce Gilmar Dantas falando da anistia dada aos torturadores.
Atualmente, eu e minha família só vemos uma coisa no aparelho de televisão(!?): DVDs.
Será que no pós 64 a nossa juventude foi educada e politizada para que hoje quisesse conhecer essa história? Se para muitos que viveram tais momentos tudo passou despercebido, iludidos que foram por uma maciça e enganosa propaganda, imaginemos aqueles que nem eram nascidos. Para essa juventude, acostumada com os folguedos do progresso eletônico, isso não faz parte de sua história.
É falta de interesse dos mais jovens mesmo. Sendo boa ou ruim, minha mãe assiste todos os dias e praticamente me “obrigou” a assistir também! Algumas cenas me emocionaram e me fizeram conhecer um pouco mais esse período negro da nossa história. Só por isso o SBT está de parabéns!
Isaias, boa abordagem. Também vi alguns capítulos da novela (uns 10), tem um roteiro de filme meloso, uma dramaturgia muito ruim e de fato se trata de um trabalho precário, no mínimo.
Porém, mesmo que apenas para 6% da audiência, é importante o tema geral, a visão crítica do período – como na abertura, claramente indicando o desaparecimento de pessoas comuns como uma prática que foi generalizada, e por ai poderia discorrer mais.
Importante também os depoimentos ao final. Dos capítulos que vi, apenas um foi de um defensor da “revolução” de 64 e portanto dos milicos.
Um problema de fundo é que no bojo da simplicidade, roteiros e dramaturgias atrapalhados, tratam do período como se fosse uma ação de milicos apenas, ou um delegado Fleuri elevado a máxima potência. Isso esconde o aspecto civil do golpe, os setores da classe dominante que foram abertamente favoráveis e até contribuíam com recursos, apoios logístico, emprestando carros, etc. Isso é grave, esconder que foi uma ditadura civil-militar é grave, talvez o maior erro da novela.
Espero que melhorem, que ouçam as opiniões e levem adiante o projeto, com a mesma boa vontade inicial. E que os depoimentos sejam – estes sim – circulem bastante e para muitos.
Abraços, Ronaldo
[...] que Izaías Almada publicou logo no começo da trama — a saber, em 03/05/2011, 13/05/2011, 13/06/2011 e 07/07/2011. Acho interessantes os sentidos que Amor e Revolução pode trazer. "Falso" [...]