Humor, cegueira e preconceito
publicada segunda-feira, 16/08/2010 às 08:49 e atualizada terça-feira, 17/08/2010 às 09:45
Por Izaías Almada
A última semana, entre os dias 08 e 14 de agosto, apresentou características peculiares na campanha eleitoral para a presidência da república. Alguns artistas conhecidos do público brasileiro resolveram deitar falação contra a candidata Dilma Roussef. O fato não deixa de ser curioso, pois uma parte dos artistas brasileiros, minoritária – reconheça-se – acostumou-se a olhar para o próprio umbigo e pouco sabe da realidade à sua volta. Mas vamos lá:
1 – Já na manhã da segunda feira, em entrevista a um jornal, a atriz Maitê Proença, abrindo mão do seu feminismo de fachada, convocava os machões brasileiros, de preferência os mais selvagens, a acuarem a candidata Dilma com o propósito de demovê-la de sua pretensão de ser a primeira mulher a governar o Brasil;
2 – Nessa mesma segunda feira à noite, o investigador William Bonner, sob os fortes holofotes do Jornal Nacional, interrogava a candidata, tentando extrair dela a confissão de “se era incompetente ou autoritária”;
3 – No dia seguinte, alguns órgãos de informação repercutiram uma entrevista dada pelo humorista Chico Anísio a uma rádio de Belo Horizonte, onde – entre outras pérolas – dizia que Dilma Roussef, se eleita, não poderia visitar alguns países pelo mundo, em particular os EUA, pois havia participado do sequestro do embaixador americano em setembro de 1969 (sic). E concluía: “os americanos não perdoam”;
4 – Por último, mas não menos importante, o cineasta Fernando Meireles (realizador do belíssimo O Jardineiro Infiel), declarava no lançamento de um livro sobre outra candidata, Marina Silva (que pelos índices das pesquisas ainda não precisa de machões selvagens), que Dilma não poderia falar de seu passado, pois havia pegado em armas para assaltos a bancos, na sua luta contra a ditadura.
Ufa! Não foi pouco para apenas uma semana. O que incomoda menos é a opinião contra a candidatura Dilma (afinal vivemos numa democracia e exercemos a liberdade de expressão, não é isso mesmo pessoal do Instituto Millenium?). O que chama a atenção nessas opiniões é a irresponsabilidade nas declarações que, além de enunciarem questões fora de contexto, expressam total ignorância sobre os próprios argumentos invocados, em significativo desconhecimento da história brasileira contemporânea.
Como são pessoas acostumadas aos agrados da crítica dos grandes meios de comunicação, é natural que seja ali também que se nutram do seu saber político, repetindo – como papagaios – as opiniões de seus patrões, seus editoriais e encomiastas.
Que tristeza! Afirmações tolas, buscadas ao acaso na frágil memória de nosso passado recente, a indicar mais a necessidade vaidosa de estar presente na mídia a qualquer custo, quando disse não precisam. Enfim, um verdadeiro ensaio sobre a cegueira!
Ah, é verdade, Chico Anísio: os norte-americanos não perdoam. Que o digam o Haiti, Honduras, Guatemala, Afeganistão, Líbia, Irã, Iraque, Vietnã, Coréia do Norte, Cuba, Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Allende, Patrice Lumumba, Jacob Arbenz, Getúlio Vargas, Che Guevara, Carlos Prats, Marighela, Orlando Lettelier… E tantos outros.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico,É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.
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2 Comentários




Até tú, Fernando Meirelles?
Acompanhei a trajetória dele, desde que apresentava na TVE os prêmios de publicidade. Aquela voz tranquila, jeito meigo… Que decepção ! Acusando aqueles que lutaram pela democracia e pela liberdade !!! Vergonha !
Quem não pode pisar onde quiser é o Fernando Gabeira. Esse sim participou do sequestro. Dilma pode viajar sim. Faltou falar. Quanto a Dilma ter pegado em armas, nem mesmo a Máquina Repressora da ditadura acusou ela disso, não é?