A direita e o nada

publicada quarta-feira, 12/10/2011 às 13:08 e atualizada quinta-feira, 13/10/2011 às 10:03

Por Izaías Almada

O projeto de país posto em prática pelos setores mais progressistas da sociedade brasileira, mesmo com dissensões, dissidências e desconfianças internas, sob o comando do partido de maior densidade eleitoral dessa aliança, o PT, inicia uma nova etapa da luta política no Brasil. Uma etapa mais dura, quando se sabe que o esforço necessário para vencer o atraso e eliminar as mazelas, além de exigir competência e determinação política, passa também por quebrar a resistência de preconceitos ideológicos, estejam eles à esquerda ou à direita. E, em particular, daqueles que não têm opinião nenhuma.

Nossa reconstrução democrática após o período ditatorial de 1964 a 1985 configurou um país dividido entre a esperança (de encontrar saídas para o atraso institucional para nossa dependência econômica, nossa pobreza social) e a ignomínia, para dizer o menos, de uma elite aculturada, entreguista e mantenedora e avalista de um modelo econômico concentrador, dependente e desnacionalizado, acentuando – entre outros conflitos – a luta de classes, talvez o maior deles.

Esse redesenho político, com suas causas e conseqüências no campo ideológico, reorganizou também as idéias e os programas dos novos partidos políticos à medida que foram surgindo, a maioria deles com olhos postos no passado ou num futuro imediatista, organizando a sociedade para o desfrute de uma democracia incipiente, incompleta e indecisa quanto aos verdadeiros e fundamentais direitos dos cidadãos, mesmo após a Constituinte “cidadã” de 1988.

O entendimento canhestro do que seja democracia acabou por criar entre nós a farra dos novos partidos políticos, o que acaba por desmerecer a própria democracia, ampliando o número de oportunistas. Do partido A sai o B, que por sua vez cria o C, onde os insatisfeitos criam o D e por aí afora. E é por aí afora também, no tapete do deboche institucional, que vão surgindo ou pontificando os Malufs, os Collor de Melo, os Roberto Jefferson, os FHC, os Serra, os Aécios, os Sarneys, os Kassabs, onde a imoralidade (ou o falso moralismo para os espíritos mais sensíveis não se melindrarem) desfila com a desenvoltura das portas-bandeiras das escolas de samba, engalanada e vistosa nas páginas e telas de nosso PIG de cada dia.

Enumerar os partidos políticos que se reproduziram pós-ditadura é importunar demais os leitores. Cito apenas aqueles que, na atual oposição, costumam freqüentar o noticiário político, PSDB, DEM, PPS, PSD, PP, PTN, P qualquer coisa, e outros menos sonantes, cujos programas ninguém sabe muito bem o que dizem, mas que já preparam – com o beneplácito da mídia venal a eles ligada pelos mais diversos interesses – os “aperitivos” para a campanha presidencial de 2014.

A oposição, no desespero, deu a largada. Um nome, Aécio Neves, e um novo partido (mais um), o PSD, iniciam a corrida para 2014, passando pelas municipais de 2012.
A direita, ou qualquer coisa parecida com isso, começa a definir o universo onde quer jogar o jogo e aponta alguns dos prováveis jogadores. E muita areia ainda vai jogar nos nossos olhos.

O mineiro Aécio Neves tem tudo para repetir Collor de Melo. Conhecido nas Gerais como “o abominável menino dos neves” é uma espécie de coronel nordestino, tal qual Antonio Carlos Magalhães, com fantasias modernas e mais jovens. Governou Minas durante oito anos sob o tacão da censura e do assédio a jornalistas, inclusive com a criação de uma espécie de polícia política para intimidar adversários. O uso de dedos-duros nas repartições públicas, negociatas, arrocho salarial de funcionários públicos, a mesma rede de intrigas como a de José Serra em São Paulo.

Aecinho, como é conhecido em Belo Horizonte, tem tudo para se revelar uma fraude, uma cobra criada em ninho tucano, o novo ovo da serpente.

O PSD, por sua vez, definido por seu criador Kassab como sendo um “partido independente”, pois não é de direita, nem de esquerda e nem de centro (sic), não se sabe muito bem a que vem. Sua definição, contudo, indica que é o partido do nada ou do vale tudo, pronto para qualquer tipo de aliança e composição, desde que tire a sua casquinha no poder e nas benesses.

O Brasil que quer se tornar um país minimamente respeitável e sério ainda vai ter que, com paciência, enfrentar muito essa gente. E, mais do que nunca, não subestimá-los, pois com suas televisões, rádios, revistas e jornais, acostumaram o povo brasileiro com a SUA liberdade de expressão, com a SUA liberdade de imprensa, com acusação sem provas e a condenação sem julgamento. Ou, pior que isso, com a meia verdade, que também se torna a meia mentira. Confusão, dúvida, desconfiança. Dividir para reinar, mesmo que na oposição.

A Direita e o Nada já estão em preparativos para 2012 e 2014. Com a palavra o governo, os partidos de esquerda, de centro esquerda e os movimentos sociais…

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6 Comentários

6 Comentários para “A direita e o nada”

  1. Luciano Bastiani disse:

    Sr. Almada, belo texto!
    “abominável menino dos neves”…
    Esta eu vou reproduzir até cansar aqui por SC.
    um abraço a vc e ao Vianna.

  2. José Antero Silvério disse:

    A vantagem, a meu ver, que os progressista têm em relação às pessoas da oposição citadas, é que elas são muito previsíveis. Creio também que a nossa presidenta estará muito bem preparada se já não está – para enfrentá-las quando chegar o momento certo. A base do governo é que precisa segui-la com mais eficiência.

  3. João disse:

    É interessante o que o autor expõe no final do texto, a aparente letargia de partidos e movimentos de esquerda, além do próprio governo, estão provocando uma perda de espaço na politização social em torno de agendas progressistas.

    Um exemplo disso, é a cada vez maior articulação de grupos em marchas anti-corrupção, que apesar de justas, parecem bem seletivas e ingênuas com aqueles que seriam únicos responsaveis, o Executivo e Legislativo Federal, sem abranger toda a podridão dos sistema privado e público estadual.

    Isso pode provocar problemas sérios, pois além de haver um afastamento das instituições políticas pelo povo, acaba provocando uma imagem estreita do que seria o caos da corrupção no país.

  4. MARCELO disse:

    Bem,quando Aécio era governador,até se dava bem
    com Lula.Não acho que a direita é esse bicho de sete cabeças
    todo,não.Churchill era de direita e foi um estadista.O Aécio
    dizia que não tinha dinheiro para pagar os professores.Mas
    tem dinheiro para reformar o Mineirão.E ainda mandou a Band
    demitir o Kajuru.Esse texto me lembra uma canção de Chico
    Buarque.Você não gosta,mas sua filha gosta.Vários petistas
    como o governador da Bahia se manifestaram a favor da criação do PSD do Kassab.E o Valdemar Costa Neto,é ALIADO DO
    GOVERNO DILMA.Sem falar no Sarney e Collor.Esse Isaías…..

  5. jonios disse:

    Curioso este novo PSD do prefeito Kassab. Não é de direita, nem de esquerda e nem de centro. Acrescente-se que não é de cima ou de baixo, aí teremos um partido sideral. Não pela magnitude de brilho de caráter de algumas de suas , digamos, estrelas, como a senadora Katia Abreu: mas sim pela vastidão de ideologias cujo somatório factual é igual a zero.

  6. Will Belmeck disse:

    O PSD (Partido Sem Destino)e nada é a mesma coisa. Só um bando de oportunistas. O PT não deve nem aceitar o apoio deste “novo” monstro. O melhor mesmo seria acabar com as coligações e cada partido lançar seu candidato.

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