O estupro da razão

publicada quarta-feira, 25/01/2012 às 13:18 e atualizada segunda-feira, 30/01/2012 às 12:00

Por Izaías Almada

Volto ao país depois de merecidas férias. Visto à distância, o Brasil é um país como outro qualquer. É como estar em São Paulo, por exemplo, e ler as notícias sobre países europeus, asiáticos ou sobre nossos vizinhos sul-americanos. As notícias do dia a dia são muitas vezes superficiais, sensacionalistas, procurando encobrir a natureza dos motivos pelos quais elas acontecem ou se desenvolvem.

A diferença, é claro, se dará por conta do conhecimento que temos da nossa própria realidade, os interesses e os fatores objetivos e subjetivos que se entrelaçam na informação produzida por jornais, televisões, revistas, sites e blogues.

A Rede Globo de Televisão, beneficiária e por isso mesmo defensora do golpe de Estado no Brasil em 1964 (ou seria o contrário?) chamou uma vez mais para si os olhares da nação, muitos deles cada vez mais descontentes com o que ali assistem.

Detentora de uma estratégia e de um marketing de comunicação imposto pelo poder econômico que construiu e que a sustenta, a emissora vem atravessando os anos colocando-se acima das leis e da Constituição, uma vez que o seu DNA foi formado no período autoritário mais recente da história política brasileira.

Ao se arrogar em fazer o que quer, a Rede Globo finge não ver que a ditadura já terminou e apresenta-se com aquela prepotência dos que fingem que nada de mais se passa à sua volta. Coloca-se acima da própria Constituição do país. Consultar os artigos. 221 e 223 da Constituição.

Talvez o braço mais forte do pequeno grupo que comanda impunemente a informação no Brasil, a “Venus platinada”, como alguns a chamaram ou ainda a chamam, não tem pelo país qualquer tipo de consideração, a não ser aquela – é claro – em benefício próprio, quando se proclama líder de audiência em vetustos programas, entre eles alguns já mofados e embolorados como “Fantástico”, “Jornal Nacional”, “Faustão”, “Programa da Xuxa” e a maioria de suas telenovelas, cujo conteúdo, aliás, é de dar enjôo em antiácido.
Baseados na antiga falácia de que a televisão produz aquilo que o povo gosta de ver, as emissoras de um modo geral e a Rede Globo em particular, mistura alhos com bugalhos propositadamente, pois sabe que um povo desinformado, confuso, indisciplinado, ignorante de seus direitos constitucionais, iludido por partidos políticos de pouca ou nenhuma expressão ideológica, é um povo paralisado e medroso.

A estratégia de desinformação coloca o cidadão diante da dúvida, da negação da própria política, do desânimo, da apatia, do medo.

Ainda assim, é possível identificar alguns bolsões de resistência a esse plano de manipulação de consciências e de votos, que transforma o país num amálgama de incertezas.

As manifestações de vários setores da sociedade quanto ao possível estupro de uma cidadã brasileira num programa de qualidade cultural zero são sinais de conscientização do entrave que representa para a democracia a existência de uma mídia partidarizada e defensora dos privilégios do poder econômico.

Imprensa livre, sim, mas não usurpadora do poder político, também ele livre, dos cidadãos e contribuintes.

Condenável sob todos os aspectos, até porque toda a armação foi para aumentar a audiência de um programa lamentável, o maior estupro não é o que a TV Globo mostrou, mas é o estupro que se faz da razão, da nossa inteligência e da própria democracia.

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8 Comentários

8 Comentários para “O estupro da razão”

  1. Patrick disse:

    Acerca do último parágrafo, quando o autor fala que “o maior estupro não é o que a TV Globo mostrou, mas é o estupro que se faz da razão”, que é um raciocínio que vem se repetindo em vários blogues, acho que passa a impressão de minimizar um crime gravíssimo, que é o estupro.

  2. Ufa! O blog voltou. A Globo é a maior estupradora do Brasil.

  3. izaias almada disse:

    Longe de mim, caro Patrick, querer minimizar um estupro, crime inominável, embora poucas vezes eu tenha lido ou ouvido recriminações ao mesmo antes de ser (infelizmente) notícia nessa emissora de televisão.
    Tal qual redigido, o texto pode mesmo dar essa impressão, mas o centro do meu raciocínio no momento da redação estava em alertar que a Globo estupra o povo brasileiro há muitos anos. Como agora, inclusive, no terrível espetáculo de Pinheirinho.
    Saudações,
    Izaías Almada.

  4. welington.leal disse:

    “um povo desinformado, confuso, indisciplinado, ignorante de seus direitos constitucionais, iludido por partidos políticos de pouca ou nenhuma expressão ideológica, é um povo paralisado e medroso.”

    Claro, um povo que precisa de guia, de ajuda, para ter um bom gosto.

    E sempre volta a discussão da concentração dos meio de comunicações no Brasil.

  5. Luís Braga disse:

    Falou tudo, Rodrigo!

  6. Gerson Carneiro disse:

    “Parabéns a São Paulo: 458 anos da cidade que tem DNA nacional. Terra da tolerância, da democracia e do trabalho” @GeraldoAlckmin_ 25 Jan @20h37

    “Hoje é um dia mais do que especial: além do aniversário de São Paulo, minha filha Sophia também comemora anos. Boa noite a todos.” @GeraldoAlckmin_ 25 Jan @20h56

    A cada noite o escárnio, deboche e cinismo, se superam com a complacência da Rede Globo.

  7. se a Rede Globo gosta… é porque tem cheiro de bosta!

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