Os idos de março e o cenário político
publicada quinta-feira, 01/03/2012 às 10:44 e atualizada sexta-feira, 02/03/2012 às 09:23
Por Izaías Almada
O mínimo que a situação política e econômica do mundo atual exige de cada um de nós é a reflexão séria, razoável conhecimento da história e da formação das ideologias e, sobretudo, paciência nos embates teóricos, nos confrontos com a práxis fascista que, aos poucos, com o enfraquecimento do campo socialista, foram se tornando aqui e ali protagonistas de alguns dos acontecimentos históricos mais recentes.
Em outras palavras: o atual confronto de ideias entre o capitalismo neoliberal, parcialmente combalido, e a busca de alternativas ao seu já provado e nefasto exercício e sua prática perversa necessita passar por um rigoroso e efetivo diagnóstico. Sob pena de vermos o século XXI repetir, com outras características e outros atores – é claro – as crises de 1914 e 1929, onde duas guerras mundiais subiram à ribalta e explodiram em meio a uma notável divisão ideológica, com a ascensão e o confronto entre governos fascistas e comunistas. E a crença cega de muitos, ou ingênua, para não sermos considerados pessimistas, numa democracia utópica, onde os contrários pudessem conviver em harmonia.
Já não é novidade para aqueles que ainda se preocupam com essas questões observar que, ao se sentir ameaçado em alguns de seus pilares de maior sustentação – e a especulação financeira desenfreada e desregulamentada da segunda metade do século XX se tornou um deles – o capital reage com a violência que é da sua natureza. E se possível com a violência da guerra, dos golpes de estado, das eleições sujas. Volta-se inexoravelmente contra os trabalhadores e todos aqueles que dependem apenas da força do seu trabalho para sobreviver com um mínimo de dignidade. A isso alguém já chamou um dia de luta de classes.
O instinto de sobrevivência do capitalismo, se assim posso me expressar, tem atingido níveis inimaginados até mesmo pelos seus mais exaltados defensores, os seus domesticados e ao mesmo tempo agressivos think thanks…
Institutos de pesquisas científicas, de pesquisas comportamentais e de publicidade, os mais modernos; o uso da tecnologia de ponta – informatizada ou não – com o entretenimento sendo dirigido com técnicas sutis de manipulação do pensamento; o uso descarado da propaganda subliminar, da chantagem política e econômica com o uso da força militar convencional ou mesmo nuclear; a mídia seletiva organizada na direção da despolitização do cidadão comum; a indisfarçável tentativa de estabelecer o pensamento único e o fim da História; a insistência e a imposição de um falso conceito de democracia, tudo isso e mais alguma coisa tem lançado a cada dia que passa a confusão em bilhões de mentes e corações.
Confusão proposital, criada em sofisticadíssimos centros de estudos subsidiados pelas principais empresas corporativas na Europa e nos Estados Unidos. A ação do site Wikileaks e inúmeros vídeos espalhados pela Internet vêm comprovando o fato à exaustão…
Confusão para dividir. Dividir para reinar. Reinar para subjugar. O jogo é antigo e por mais que cada geração tente criar anticorpos ou pensamentos e práticas alternativas à usura, à riqueza desnecessária, ao poder pelo poder, ao culto à irracionalidade e ao efêmero, mais o capital se fecha em sua defesa, muitas vezes cooptando mentes brilhantes nas várias áreas do saber, com o pagamento de altíssimos salários e bônus anuais ou mesmo com ações das próprias corporações e empresas de governos com que ajudam a manter o comboio nos trilhos. Ou seja, a exploração da maioria.
Oitenta anos parece ser a média de vida do homem contemporâneo na terra. Portanto, se qualquer um de nós conseguisse levar uma vida regada a champanha e caviar nesses anos, pois bem, que os outros 99% da humanidade se lixassem, não é verdade? Pois essa é, sem tirar nem pôr, a situação que vive o mundo nesse início de novo século.
O doloroso nesse quadro é ver o esforço que se faz hoje por muitos daqueles que já foram protagonistas do pensamento alternativo, quando resolvem entregar os pontos e já não suportam mais defender as difíceis ideias do humanismo solidário, de uma sociedade mais justa, se possível sem classes.
“Arroubos da adolescência”, “fui iludido na minha boa fé de jovem que queria mudanças”, “revoltas da juventude” e outras baboseiras do gênero são cinicamente usados (quando são) para encobrir o oportunismo, a falta de ética e de caráter, a traição à luta dos menos favorecidos. Os exemplos, infelizmente, têm se multiplicado em escala geométrica.
No Brasil, e é disso que se trata aqui, temos um curioso quadro político, onde traços surrealistas despontam aqui e ali à medida que os anos passam. Nossos mais destacados partidos políticos, aqueles que conseguem fazer o maior número de congressistas, governadores e prefeitos rechearam-se de políticos “profissionais”, boa parte deles sem qualquer formação ideológica mais consistente ou – o que parece ser ainda mais grave – a viver num constante pular de galho em galho, na suposta esperteza de ficar em cima do muro quando se pede deles uma definição e, caso nenhuma dessas alternativas seja assim tão aliciante ou moralmente confortável, a formar novos partidos, quase sempre sem lastros de representatividade popular. Fenômeno que se dá à direita e à esquerda do espectro político é bom que se diga.
A política tanto pode ser o exercício ético da administração pública em benefício de todos os cidadãos de uma cidade, de um estado, de um país, ou pode ser o valhacouto das grandes negociatas, cabide de empregos para amigos e familiares, esconderijo de bandidos engravatados e espertalhões como – aliás – tem sido escancarado a cada dia que passa. Tanto no executivo, no legislativo e no judiciário, esse triunvirato republicano tão ao gosto da retórica vazia de sentido. Independente do esforço daqueles que ainda lutam e se esforçam para que as coisas se passem de outra maneira.
A nova face da direita brasileira, com a natural renovação de seus quadros mais reacionários e conservadores, tem hoje a comandá-la vários integrantes da histórica esquerda do país, inclusive de adeptos da luta armada nos anos 60. Novidade? Nem tanto, apenas o número de oportunistas aumentou. A ideologia, também ela, se transformou numa mercadoria negociável na praça dos três poderes, onde a governabilidade por um lado e o apego ao poder por outro comandam as ações de homens e mulheres, muitos deles que ainda não perceberam que o país quer caminhar em novas direções. Não tanto por consciência política, como querem ou desejam alguns, mas por necessidade de sobrevivência.
O melhor exemplo dessa situação é o show de obstinação e insensibilidade que, há alguns anos, vendo dando o cidadão José Serra. Com uma trajetória iniciada ainda antes do golpe de 1964, José Serra carrega em seu currículo de homem público a mais estarrecedora imagem de quem persegue um objetivo que já nem ele mesmo sabe mais qual é. O poder pelo poder ou a possibilidade de levar a cabo uma tarefa incompleta em seus tempos de Fernando Henrique Cardoso: a entrega do país ao capital internacional. Ou ainda, com a publicação do livro “Privataria Tucana” a possibilidade de fugir à responsabilidade de ter que responder a uma CPI no Congresso Nacional.
Os idos de março definirão o verdadeiro início do ano político brasileiro. As eleições de outubro abrirão o espaço de 2014. Um ano em que o Brasil irá se posicionar em continuar por uma senda de emancipação econômica, soberania e defesa de seus recursos naturais ou a possibilidade de voltar a um passado de irresponsabilidades administrativas, assalto ao patrimônio nacional e impunidade para aqueles que se acostumaram com as migalhas da Casa Grande.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico, É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.
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12 Comentários







se esse sujeito não for para a cadeia antes da eleicão municipal, junto com os seus familiares bandidos,eu acredito que esse pais irá retroceder e muito.
reinaldo carletti
Como sempre, seus artigos são exemplares. Teria, aqui e ali, algo a dizer, talvez discordar de uma ou outra colocação. Não vejo pessimismo em sua constatação de que não faltam traidores. Quando não os houve? De qualquer maneira não podemos nos arvorar em donos da verdade. Aliás, se há algo que está sempre a mudar é a danada da verdade. Eu, já há algum tempo tenho estado bem cético com relação às verdades que, como disse o Stédile, a gente encontra na primeira esquina que dobramos. Mas existe, no momento, apesar do imenso número de “tradidores”, algo que nos deixa bastante otimistas. Quero me referir à existência, já agora do conhecimento das peixeiras, como dizia Brecht no seu magnífico Galileu, de uma estupenda expropriação, aquela que Marx considerava revolucionária: de um lado, 1%, do outro, a humanidade.
Não acho que uma revolução dependa de ideias que se consideram a si mesmas verdadeiras. O mundo das ideias é sempre o mundo real, que não podemos escolher qual deve ser, transposto para nossas cabeças. Quando de um lado estão 99% da humanidade, e o número que compõe esse percentual só tenderá a crescer, e do outro 1%, está armado o maior perigo pelo qual pode passar a sociedade capitalista. A pobreza não produtiva está se tornando avassaladora. O único perigo que correm os 99% é o desvario atômico. Mas, que eu saiba, história é sinônimo perfeito de luta.
Ótimo artigo, pena que não se dê nome aos bois!
Dá-lhe, dá-lhe…Isaías o profeta, dos ventos da justiça eterna…premonição nominal…parabéns meu caro, por mais um dos seus artigos…é muito bom poder lê-lo…reanima e reorganiza nossas forças que o sistemão brutal, naturalmente tende a envolver para dissipa-lasw …mas não conseguirão…não passarão…pois nem o ouro nem prata compra a consciência pura…
vida longa!
OK, boas ideias. Mas se o sujeito viver apenas de champagne e caviar acho que dificilmente chegará aos tais 80 anos de idade…
um dos melhores artigos dos ultimos tempos, mas eu concordo com um comentarista aqui, da nomes aos bois pelo amor de deus , a internet é livre pra isso. nao fica em cima do muro. tem que dar nomes aos bois dos traidores mentirosos da esquerda. agora voltando ao texto, ta certissimo, o mundo ta caminhando pra isso , esses bandidos vao usar todas as armas pra defender esse capitalismo maldito. cabe a nos lutar contra isso , se é que tem como lutar.
a pres. dilma que nao fica esperta com isso nao pra ver , porque eles estao loucos , sendo porque nas urnas eles nao estao ganhando mais. cabe a eles recorrer ao golpe de estado e as guerras. por isso que uma imbecilidade em acreditar que vao governar sem divisao de classes. é burro quem disse isso e acredita nisso, governar principalmente sendo governo de esquerda , é uma guerra todo dia. guerra contra os adversarios e os aliados , tudo ao mesmo tempo. sendo que a guerra contra os aliados é mais perigosa. por isso que eu digo , cuidado pres.com os eua e os seus capachos , cuidado.
Muito bom! E não se restringe a José Serra, diga-se de passagem. Pena que só ele e FHC sejam (com todo justiça, frise-se) nomeados.
a direita é muito mais organizada do que a esquerda. porque eles se unem quando é preciso pra defender os seus interesses . agora a esquerda gosta de latir , nao se une e o que é pior ajuda a direita quando ela quer. por isso que a esquerda no brasil ,se é que exista alguma esquerda , ela é fraca e desorganizada. e ela sempre deu uma mao pra direita.
parabens
O artigo é brilhante!
Muito bom o texto. Parabéns! Eu sigo algumas vezes esperançosa, outras desanimada.