Socialismo ou Bárbarie? Para onde a crise vai?

publicada quarta-feira, 24/08/2011 às 10:14 e atualizada quinta-feira, 25/08/2011 às 10:21

Por Izaías Almada

O que responder, em sã consciência, a uma das reflexões de Rosa de Luxemburgo diante da brutalidade da direita alemã logo depois de terminada a Primeira Grande Guerra em 1918?  Socialismo ou Barbárie?

Os anos e as décadas passam. De um lado os déspotas, e do outro os defensores das causas socialistas e humanistas também passam e a mesma dúvida permanece teimosa para aqueles que também, teimosamente, insistem em lutar por um mundo melhor.

A propósito dessa sensível questão, para muitos de nós não será difícil identificar a razão pela qual boa parte da imprensa internacional, e mesmo a nacional, tenta caracterizar as várias das atuais manifestações anticrise pelo mundo não mais como sendo insufladas pela esquerda, mas por manifestantes que são tratados como bandidos, terroristas, selvagens, vagabundos e outras bobagens do gênero.

Essa tentativa manipuladora é para despolitizar o conteúdo das manifestações, pois, em consonância com a idiotia dominante e seus porta-vozes na mídia, não existem alternativas ao sistema capitalista. Para muitos, o mundo deixa de existir se o capitalismo entrar em fase terminal.

Contudo, é curioso notar também (e uma coisa tem exatamente a ver com a outra) que nesse exercício de descarada hipocrisia mediática há um significativo silêncio sobre as verdadeiras causas da crise, aquelas que de fato estão tirando o sono dos governantes e economistas de alguns dos principais países europeus, além do Japão e dos EUA. Silêncio ainda mais comprometedor quando se ignora conscientemente a identificação de seus principais causadores.

E aí, sim, aí – nesse patamar – talvez não fosse difícil identificar a bandidagem. O olhar cuidadoso com que cada um de nós pode analisar o documentário cinematográfico “Inside Job”, vencedor do Oscar da categoria em 2010, identifica e ilustra, na medida certa, tal afirmativa. Lá se dá nome a alguns dos bois…

Já não é segredo para ninguém, e os exemplos têm aumentado com o passar dos anos, que há no mundo contemporâneo – onde o capital especulativo financeiro tomou as rédeas da economia – já não é segredo, repito, a simbiose entre políticos e empresários corruptos, a promiscuidade entre administrações públicas e o crime organizado.

O capitalismo precisa cada vez mais dessas parcerias espúrias para a sua sobrevivência. Um sistema econômico que degrada e explora o trabalho e destrói a natureza não poderá estender indefinidamente a sua sobrevida se não usar de todos os recursos legais e ilegais para se legitimar. Um sistema econômico que faz do consumo do efêmero sua principal arma de sustentação torna-se ele mesmo efêmero com o passar dos anos.

Nessa caminhada, onde ética e moral começam a perder substância, sucumbem os ideólogos do sucesso e do lucro a qualquer preço às “necessidades” de se manter o sistema funcionando, o que – na prática – significa aprofundar a própria crise. É a pescadinha de rabo na boca, onde já muitos não têm coragem ou consciência suficiente para tentar mudar o rumo do desastre anunciado. Aliás, muitos sequer sabem que outro mundo é realmente possível.

A irresponsabilidade econômica, a destruição irracional da natureza, a xenofobia crescente, a disseminação de preconceitos sociais, étnicos, religiosos, as invasões bélicas, a arrogância, a substituição do diálogo pela prática da violência e do terrorismo, a tentativa de se impor um pensamento único, tudo isso começa a apontar para a resposta mais cruel à interrogação de Rosa de Luxemburgo: a barbárie…

Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).

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8 Comentários

8 Comentários para “Socialismo ou Bárbarie? Para onde a crise vai?”

  1. Wadilson disse:

    Uma correção, para um erro muito comum:
    o nome correto da filósofa polonesa, naturalizada alemã, é Rosa Luxemburgo.

    Saudações

  2. Mardones Ferreira disse:

    Exatamente isso. Aqueles que de certa vivem do capitalismo na sua etapa funancista vai fazer de tudo para tentar defendê-lo.

    Saiu matéria no Valor, repassada na rede por PHA, de um artigo assinado pelo Delfim NEto (aquele que dizia fazer crescer o bolo para depois ”distribui-lo”), afirmando que ainda é cedo para falar do fim do capitalismo.

    Segundo o Delfim, as eleições escolhem o que é melhor para a (sic)CONTABILIDADE NACIONAL. k k k k k Quase morri de rir.

    Na verdade, ele quis dizer que os donos do capital decidem sempre quem tem chances de ”governar”.

  3. Vinícius Camargo disse:

    Caro Rodrigo Viana,

    temos outros exemplos de filmes que explicitam os métodos da roubalheira e as “falhas do sistema”:

    ENRON – http://www.youtube.com/watch?v=z2qrVAqlwuM&feature=related

    GRANDE DEMAIS PARA QUEBRAR (TOO BIG TO FAIL) – http://www.hbomax.tv/toobigtofail/videoplayer.aspx?watch=1HBO198547

    A Corporação (The Corporation) – http://www.thecorporation.com

    Capitalismo: Uma História de Amor
    http://www.youtube.com/embed/1tI1RTAQc2M?version=3&rel=1&fs=1&showsearch=0&showi nfo=1&iv_load_policy=1.

    El Orden Criminal del Mundo

  4. augusto disse:

    E os humanitarios?
    Tem no centro de Trípoli uma dúzia ou mais de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos, todos sob risco de vida, mais fome e sede.
    Presos no hotel Rixxos, já sem comida e com pouca água.
    E se saírem serão alvejados.
    E os helicopteros
    apache da OTAN que varreram ruas da capital a metralhadora (strafing), agora será que NÃO SABEm jogar galões de água potável ou caixas de comida para os caras?
    Ou será que é porque a maioria deles NÃO é do Pig, e foi lá beber direto na fonte noticias do que acontecia, fora do controle editorial das agencias ocidentais?
    Hein, onde estão os elicópteros humanitários de sarkozy e cameron?

  5. Pedro de Alcântara disse:

    A destruição como princípio político, eis o que sobrou do capitalismo. A atual crise capitalista tem uma componente, que não é nova, mas que agora vem com novas forças. São relações sociais que dificilmente podem ser absorvidas pela sociedade capitalista. A destruição da Líbia tem a ver com essa situação.

  6. Rogério Floripa disse:

    Este documentáro de Silvio Tendler ajuda os navegantes a entenderem melhor o texto.

    Documentário – Utopia e Barbárie http://twixar.com/h4cQF6r3gDL

  7. José Antero Silvério disse:

    “Eles” querem atingir os seus objetivos de qualquer maneira, a qualquer custo, mesmo que para isso tenham que destruir uma próspera nação.

  8. Marcia Costa disse:

    Rosa diria: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Por isso, é fundamental que façamos algo para reconstruir nosso presente. Esse é o momento; a hora é agora.

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