“Apagão”: o fato, a explicação e as comparações
publicada quarta-feira, 11/11/2009 às 16:44 e atualizada quinta-feira, 03/06/2010 às 16:40
A pior forma de ilusão – pra qualquer pessoa – é brigar com os fatos.
Para um jornalista, então, brigar com os fatos é pecado mortal. Você pode ter sua opinião, pode interpretar, buscar conexões entre acontecimentos e atitudes. Mas não há desculpa para se postar contra os fatos.
O fato é que nessa terça-feira o Brasil sofreu um “Apagão”. Foi grave. Não adianta dizer que a oposição está aproveitando para desgastar o governo. Isso é do jogo. Também não adianta (apenas) dizer que a mídia quer desgastar o governo – comparando o que ocorreu agora com o “Apagão” tucano. Volto a isso mais adiante…
O fato é que é dever do jornalista e do cidadão cobrar do governo uma explicação.

Ontem, enquanto tentatva chegar em casa, correndo risco de uma trombada a cada semáforo quebrado, passei uma hora e pouco ouvindo na rádio alguns especialistas em energia. Não entendo nada do assunto, mas fixei a informação dada por um desses especialistas: ele disse que o Brasil possui um sistema de transmissão absolutamente integrado – o que é uma vantagem, porque se os reservatórios baixam numa região, é possível buscar energia de outra parte, aproveitando assim a rede integrada.
Só que essa “integração” é também fonte de fragilidade. Por isso, a falha na linha que sai de Itaipu acaba por afetar o abastecimento no Rio, ou no Nordeste.
Essa foi a explicação. Mal comparando (e agora sou eu falando), é como a internet: permite que um brasileiro leia esse blog na Nova Zelândia (e isso de fato acontece), mas também permite que vírus gerados na Tailândia afetem o sistema do blog.
Se eu tiver entendido mal, por favor, alguém me corrija.
Não interessa se o problema foi “atmosférico”. Ok. Ninguém controla a natureza. Mas uma coisa precisa ser esclarecida: por que o país não tem um plano para evitar que uma falha no sul afete tão violentamente o Brasil todo?
Os leigos, que pagam as contas de luz, exigem a explicação.
Isso posto, é evidente que a oposição vai tentar transformar esse episódio em fator de desgaste para Lula (e Dilma – ela foi Ministra da Energia, lembram?). Bem, acho isso normal. É papel legítimo da oposição.
Aliás, esse talvez seja o primeiro episódio recente em que a oposição tem um fato concreto, cristalino, para exigir explicações, e para gerar desgaste.
O “Apagão” de terça não é factóide. Não é a agenda da Lina, não é a CPI da Petrobrás. Não. O “Apagão” foi um fato.
A oposição saberá extrair daí material político?
Tenho dúvidas. O problema é que falar em “Apagão” agora faz o povo lembrar do “Apagão” do FHC… Talvez seja um tiro no pé.
A oposição vive num apagão permanente. Esse , sim, gravíssimo. A ponto de FHC ter ressurgido das trevas para liderar a neo-UDN.
A UDN está apavorada com a pesquisa do Vox Populi que mostra Dilma em alta e Serra em baixa, como mostrou ontem o Azenha - http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/vox-populi-serra-36-dilma-19/.
O que fazer? Não adianta perguntar ao Lênin, nem ao FHC.
Quando o povo olha pros tucanos, olha para o passado. E vê a escuridão. Do “Apagão” de verdade. Do “Apagão” de idéias, de projetos.
E aí entramos no tópico final desse texto. Não se pode comparar uma coisa com a outra. Em 2001, o “Apagão” tucano foi produzido por inação, falta de planejamento, ideologia liberalóide que arrasou a capacidade de planejamento do Estado. Na época, estávamos diante de um risco verdadeiro de faltar luz por anos.
Agora, tivemos um problemas pontual. Não faltam reservatórios, nem usinas. É muito diferente.
Mas, aparentemente, faltou sim planejamento para evitar que falhas pontuais transformem uma noite de terça-feira em noite de trevas por todo Brasil.
Isso é um fato.
O resto os técnicos vão esclarecer. Precisam esclarecer.
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