Cadê a indústria que tava aqui?
publicada segunda-feira, 05/03/2012 às 17:52 e atualizada quarta-feira, 07/03/2012 às 10:01
“A INFLAÇÃO ALEIJA, MAS O CÂMBIO MATA” (Mario Henrique Simonsen)
O Serra pode ser criticado por muitos motivos. Mas num ponto é preciso concordar com ele: o Brasil está num proceso de desindustrialização. Logo no início do governo Dilma, publiquei aqui um modesto artigo que tocava nesse ponto – lembrando os alertas lançados por dois importantes economistas: Delfim Neto e Marcio Pochmann.
A CartaCapital dessa semana traz, na capa, exatamente o tema da desindustrialização. Ou seja: nesse ponto, Serra está bem acompanhado. O que não ajuda muito o tucano é o fato de ter sido ministro (do Planejamento) num governo que adotou a doutrina ultraliberal feito dogma, abrindo a economia sem nenhum tipo de freio, expondo a indústria (e o país) à tal “âncora cambial” – que servia para frear a inflação e consolidar o Real, mas que teve um papel nefasto para o Mercado Interno.
Agora, Dilma diz – na Alemanha, que Brasil vai se proteger da guerra cambial.
Lembro bem que, durante o governo FHC, a cada reclamação do setor industrial, gente ligada ao tucanato ia pra imprensa e chamava o prédio da FIESP de “grande monumento ao custo Brasil”. Quase na galhofa. Os tucanos (ou parte deles, porque havia gente ajuizada como Bresser, que não achava graça nenhuma em jogar fora o Capital nacional) pareciam ter um desejo sádico de quebrar a indústria nacional, arrebentar esse patrimônio construído a duras penas desde o governo Vargas.
O tucanato podia-se dar a esse luxo. Afinal, na ampla coalizão que sustentava FHC, o setor financeiro era claramente hegemônico (basta ver onde foi trabalhar o Ministro Malan, após deixar o governo).
Lula/Dilma mantiveram o setor financeiro na grande aliança que sustenta o governo. Isso é inegável. Mas a ênfase mudou. Lula cumpriu o velho programa dos “economistas do PMDB”, que passaram anos e anos lutando para que o Brasil priorizasse o mercado interno de massas e crescesse dividindo o bolo. Isso só pôde ser feito em aliança com a indústria. Lula pôs em prática também a velha tese do partidão: a famosa “aliança do operariado com a burguesia industrial”. Lula fez isso, e ao mesmo tempo incorporou vinte milhões de miseráveis ao mercado. E – ufa! - sem desagradar a Banca. Ficou de fora do grande arranjo lulista a classe média tradicional (ou “pequena-burguesia”, como diziam os petistas quando ainda estavam sob influência do marxismo) - não é à toa que dela parte a oposição mais virulenta a Dilma/Lula.
Mas essa é outra história… Quero me concentrar em outro ponto. O compromisso de Lula com o setor produtivo industrial, de certa forma, era sinalizadao pela presença de um “capitão da indústria” na vice-presidência. José Alencar passou oito anos brigando pra derrubar os juros. Era a forma de Lula equilibrar o jogo, ainda que no primeiro mandato a balança tenha pendido mais para o núcleo duro financista, representado pela dupla Palocci/Meirelles.
No segundo mandato, a presença de Mantega na Fazenda foi decisiva para que, na crise de 2008, Lula adotasse uma saída “expansionista” pra enfrentar a crise. Uma das medidas para fazer o Brasil resistir à crise foi a redução de alíquotas de imposto pros carros. Isso mostra o papel dinâmico da indústria. Mostra porque é fundamental preservar o imenso patrimônio industrial brasileiro. Lula manteve a aliança com a banca. Mas deu mais ênfase ao mercado interno e à indústria. No governo Lula, ninguém chamava a FIESP de “monumento ao custo Brasil”…
Mas o fato é que “mudar a ênfase” é muito pouco. Do contrário, qualquer dia vamos acordar, olhar pro lado e perguntar: cadê a indústria que tava aqui? A China comeu.
O Brasil hoje é vítima de sua estabilidade. Mais que isso: dólares não param de chegar, deixando o Real cada vez mais forte. Por que? Porque nossos juros altos atraem capital. E há muito dinheiro voando por aí. Os EUA detêm a famosa “maquininha de imprimir papel-moeda”. Os tolos liberais brasileiros sempre disseram que política expansionista era um erro. E que era preciso “enxugar” a economia, e “fazer a lição de casa” e blá-blá-blá. O Federal Reserva não acredita na cantilena liberal. Na crise, inundou o mundo de dólares. Qual o objetivo? Os produtos dos EUA precisam ficar mais baratos! É uma tentativa desesperada de recuperar a indústria dos EUA – dizimada pelos chineses.
Como diz meu colega Azenha: Reagan iniciou o processo de exportar empregos industriais para a China e o México. Os EUA queriam ficar apenas com a “economia limpa”, do setor de serviços. Agora, os EUA descobrem que só os “serviços” não seguram o país na hora da crise. E também se perguntam: cadê a indústria? A China comeu!
Do outro lado do mundo, a China segura a cotação do yuan. É o que explica – em parte – os preços imbatíveis dos produtos industriais chineses.
E o Brasil?
Não há saída. Agora não bastam mudanças cosméticas. Não basta baixar IPI aqui ou ali. Nossa indústria está sendo dizimada. Não se trata de “choradeira da Fiesp”. Conheço duas pessoas – empresários de pequeno porte – que trabalham com exportação de produtos brasileiros. Os dois estã com a corda no pescoço. A duras penas, seguram os clientes que ainda não se mandaram; não conseguem novos clientes. O mundo quer comprar barato da China.
Ok, talvez não consigamos concorrer com os chineses, a não ser aqui na América Latina, o que já não seria pouco…
Mas o principal, agora, é fazer a defesa de nosso mercado interno. Isso é urgente. O governo precisa adotar medidas duras pra conter a valorização do dólar e pra impedir a entrada dos produtos chineses.
Recentemente, entrevistei o profesor Bresser Pereira, e ele foi claro. O Brasil precisa controlar a entrada e saída de dólares. Se Dilma não fizer isso agora, o estrago pode ser definitivo.
O que nos consola é: esse não é um drama (apenas) brasileiro. O mundo vive a tal “guerra cambial”. EUA e China usam suas armas. Precisamos usar as nossas, lembrando sempre da velha frase do Mario Henrique Simonsen: “a inflação aleija, mas o câmbio mata.”
Leia outros textos de Força da Grana
Tweet
16 Comentários








o que o simonsen quis dizer é que *crise cambial* mata. isto é, que a *falta* de cambio mata. nao é o caso agora, au contraire. o resto, nao sei se concordo. mas a mário o que é de mário.
abs
sergio goldbaum
Não concordo quando dizem que a pequena burguesia não se beneficiou no governo Lula. Essa camada da sociedade nunca foi tanto as compras como nesse governo, eles consumiram bastante, engoradaram nesse período.
O problema é que a classe média tem o pensamento conservador é alienada e anti petista, em especial em São Paulo.
O Serra não precisava ser citado na reportagem,pois o cara não sabe nem o nome de seu país,o nome do Brasil mudou em meados do século 20, e ele com toda sua imbecilidade perguntou ao apresentador: o nome mudou???? Desindustrialização para ele é nome de inseticida.
Concordo. Essa citacao foi meio sem sentido. O cara (Cerra) ajudou a desindustrializar o Brasil e fala uma coisa que é senso comum. Sobre essa desindustrializacao ja se vem falando faz tempo que até o Cerra captou a mensagem. Cerra nao tem um projeto para o pais. nao tem nada a oferecer. Um politiqueiro que quer o poder pelo poder e que apoia-se em aliancas que sabe-se la que interesses tem.
Rodrigo, tem coisa pior que comprar um produto chinês e nem conseguir usar? A China fabrica porcaria e manda para cá, isto é desonesto. Mas é o que o empresario brasileiro que sabe disso e vende porcaria alheia? Que diz para o cliente que o produto é bom? O Seo R, dono de loja muito antiga na minha cidade, se nega a vender porcaria porque diz que o dinheiro do trabalhador é suado. Vende coisa boa, nacional, num preço justo: só mantém a clientela fiel e que não gosta nem aceita porcaria. O comerciante vizinho já comprou uma lancha: vende porcaria como água. Quem deve impedir a entrada de porcarias, sabidamente por todos, como porcarias? O Governo, que pode criar uma “norma de conduta”. Quem pode? O Governo, estimulando a indústria nacional, diminuindo o ritmo das importações, criando maior controle das mercadorias que entram no país e fazem, todos sabem disso, mal ao bolso e a saúde do brasileiro. Cuidando, também, das ações espúrias dos importadores nacionais, exigindo a reposição da mercadoria perdida a ponto tal que vender porcaria resultaria TAMBÉM em prejuízo para quem as vende.
Porcaria é cultura nacional.Veja-se que os Construtores ( que também são industriais da construção)constoem tocas subhumanas para pobres morarem. E usam dinheiro público para isso. Fazem tocas molhadas no bairro da Água Fria, para sufocarem crianças em mofos.Compram até janelinhas chinesas.E os locadores aproveitam bem seus espaços e porões úmidos para construirem.
E os Institutos que deveriam fiscalizar a qualidade mínima nada fazem. O Procon deveria ser um órgão que resolvesse na hora a questão e com poderes para prender os culpados em 5 minutos.Veja a lerdeza desse órgão.E seus poderes nenhuns.
Industriais e exportadores sempre alegam o emprego para chantagear, mas se queremos algum emprego que preste temos que procurar emprego público, do qual eles falam mal, e alegam impostos. O que eles oferecem é porcaria também. E porcaria chantageada demais. A toda hora chantageiam, que vão demitir, que não podem pagar tais salários.
O povão trabalha no subemprego ou é escravo.E a classe média se faz de boba e abocanha os melhores empregos públicos, sem concurso, na base do apadrinhamento.E fica batendo palmas para a direita – que no fundo – é a que manobra para se manter no topo e enganar todos. E atender o choro dos espertos.
Se as pessoas lêssem mais veriam quando é que começou o desmonte. Na privataria. Com a privataria as próprias ex estatais começaram a importar. A direita alegou o tempo todo que a importação baixaria os preços e aumentaria a concorrência. Insustrial não tem compromsso nenhum na hora de comprar, e quer comp´romisso dos outros com seu lucro. E chantageia o governo. E o governo abre, devido a suas contas internacionais e balança comercial.E a classe média que só serve a coisas estranhas ou fica calada, vai às compras importadas e o PIG aplaude.Eu não aguento mais a ladainha.
O governo é que vai se ferrar nessa, pois é dono da conta externa.
Rodrigo,
O Kassab cometeu crime de improbidade administrativa, vejamos.
Ele concedeu incentivo fiscal, SEM LICITAÇÃO, de R$ 420mi, à construção do estádio do corinthians.
No direito, isso não é permitido, pelo contrário, é repudiado!
Pela Lei, deve ficar preso de 3 a 5 anos e pagar multa (art. 89 da Lei 8.666/93).
Neste caso, ele deve ser processando pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas Municipal ou Estadual.
Pior, ao tentar corrigir esse problema, ele cometeu outro crime de improbidade administrativa!
Foi publicado no UOL, sob o seguinte título “Prefeitura SIMULA concorrência por incentivo de R$ 420 milhões do Itaquerão”.
O título, por si só, afirma que o Kassab está cometendo outro crime de improbidade administrativa.
É vedado a simulação na licitação! Ninguém pode simular uma licitação para favorecer uma empresa determinada, previamente definida!
Isso é crime!
Espero que o Ministério Público esteja de olho e pronto para atuar seguindo a letra da lei!
Link com a denúncia: http://esporte.uol.com.br/futebol/copa-2014/ultimas-noticias/2012/03/05/prefeitura-simula-concorrencia-por-incentivo-de-r-420-milhoes-do-itaquerao.htm#comentarios
Prezado Rodrigo. Preucupou-me de fato a sua concordancia com o Serra, o que mais voce concorda com o Serra?
Esta desindustrialização é choradeira da turma do dinheiro que quer grana sem juros do Governo. O Brasil importa mais pela alta demando do que pelo preço do produto lá fora. É que nem a agroindustria chora quando tem chuva e chora quando não tem chuva.
Da-lhe Serra 2012!! A petelhada morre de medo do carequinha, pq serraaa ??? Sabem que o cara é capaz, honesto. Eles tem medo pq ele entrou depois da Terra Arrasada Martaxa e limpou a maquina dos cumpanheiro xupins.
Imagina se o cara entra em Brasilia, qto ia cair o dizimo petista, é este o verdadeiro temor. Ai a massa de manobra ideológia xia, xora, com as baboseiras de privatização disto e daquilo. Pelo menos as privatizações dos Tucanos funcionaram, agora vejam as dos petistas a Rodovia Regis Bittencourt continua uma lindeza, os aeroportos deram para as 3 piores empresas e pior nos que pagamos…
kkkkkkkkkkkkk FORA FMI!!! e viva o JEG
Eu acho q se a industri brasileira quer continuar tem q parar d querer ROUBAR o povo brasileiro com o MAIOR CANCER Da economia: o LUCRO! Aqui ele eh estratosferico se comparado com EUA!
A ind. de Automoveis eh a Prova deste Cancêr, com o Carro MAIS CARO do Mundo! Essa mesma ind. tem a Desculpa na ponta da Lingua Imposto e “custo Brasil”, este ultimo atrelado principalmente a mao de obra e sempre comparando com trabalhadores da China q sao 280%¨mais baratos q o nosso, MAS a mesma ind. NAO compara com um trabalhador AMERICANO que custa 85% MAIS caro que o Brasileiro!
O exemplo do Absurdo LUCRO descabido vem de Sumaré-SP onde o Honda CITY eh Exportado para o MEXICO e vendido lah por R$ 25.800 contra os 57.000 no Brasil. Pra piorar a versao do MEXICO eh MAIS COMPLETA que a brasileira, com freio a disco nas quatro rodas, air bag duplo, dvd de fabrica!
Nos mercado de Tablets outra industria beneficiada pela MP do BEM com Isençao de 30~40% de tributos em vez de repassar o beneficio ao consumidor, ao contrario, AUMENTARAM os preços !
O mesmo vem do I-PHONE que fabricado em Jundiai-SP, com varios incentivos fiscais de praxe, custa o mesmo preço de um Importado que paga uma carga muito maior !
Entao a Industria de maneira geral tem de parar de querer Vender POUCO pra LUCRAR MUITO e sim seguir o exemplo de mercados como a China e mais pra nossa realidade o Americano, onde a concorrencia leva um forte consumo e a uma forte demanda. Mas aqui dificilmente essa DOENÇA do LUCRO vai mudar, pois eh so ver qnd o carro da JAC MOTOR invandiu o mercado as montadoras em vez de abaixar suas Megas Margens de Lucro, foram ao gov. Exigir alguma medida PROTECIONISTA ABUSIVA (o modelo J6 chegava no Brasil por 19.900 e era vendida por 39900, o q demonstra LUCRO ABUSIVO, mesmo sendo mais barato do q a concorrencia)!
Eu concordo 100% com você Hugo, temos que defender sim a nossa indústria, mas temos que ser justos com o povo, todos os setores da indústria no Brasil abusam das margens de lucro, principalmente a automobilistica.
Nao adianta querer enfiar goela abaixo essa historia de câmbio, temos que ter qualidade e preço bons.
Entra governo e sai governo e a idéia é a mesma: Deixar as fronteiras escancaradas. Não falo das fronteiras terrestres, mas das fronteiras marítimas e aéreas. Nossos portos e aeroportos estão abertos a todos os produtos, sem controle por falta de pessoal na Receita e Polícia federal. Exagero? Na França há 30 mil servidores na Aduana, no Brasil, são 3 mil. Parece piada, né? Nem FHC, nem Lula e nem Dilma ligam pra isso. Não temos defesa comercial, não temos controle nas aduanas. Podem vir chineses, welcome!
defendo que aproveitemos o cambio ,(já que dólar e euro estão se desvalorizando em relação ao real), que aproveitemos , e compremos as industrias deles.assim coma a AMBEV fez nas Ame´ricas com o apoio do BNDES na gestão do carlos lessa.
Isso inverteria remessa de capitais e elas viriam para o Brasil .
Façamos oque os japoneses fizeram nos EUA na década de 80.