Itaú e Unibanco: para jornal inglês, é feijoada!

publicada quinta-feira, 05/03/2009 às 17:17 e atualizada quinta-feira, 03/06/2010 às 17:53

(texto originalmente publicado em 04 de novembro de 2008, às 18:38)

A união entre Unibanco e Itaú ganhou uma definição caricata da mais tradicional publicação sobre finanças em todo o mundo. “É como a feijoada brasileira: com ingredientes baratos, é possível fazer um prato saboroso”, diz a nota, publicada com algum destaque no site do britânico “Financial Times”.

A frase mostra que os ingleses são mesmo capazes de manter o bom-humor em plena crise. Crise, aliás, que atingiu a Inglaterra de forma especialmente violenta: Tony Blair passou anos por aí passeando de braços dados com Clinton e Bush, enquanto os bancos ingleses entupiam-se de papéis lastreados em hipotecas podres do mercado imobiliário estadounidense. Faz sentido… Mas, eles que são brancos que se entendam.

O que eu gostaria de perguntar aos bem-humorados ingleses do “Financial Times” é o seguinte: a fusão é um prato saboroso para quem?

Há quem diga que não se tratou de fusão. O Itaú teria devorado o Unibanco. Nesse caso, a metáfora gastronômica faria mais sentido.

O fato é que o “mercado” (este ser amorfo, que habita os textos sobre finanças na imprensa do Brasil e do Mundo) parece ter recebido bem essa união – que criou o décimo-sétimo maior banco do mundo e o nono maior das Américas.

O novo gigante tem musculatura para se transformar num financiador mundial para empresas brasileiras.

Atualmente, o BNDES é quem cumpre este papel: oferece, por exemplo, financiamento para que governos da América Latina paguem obras de estradas, hidrelétricas e pontes que são erguidas por construtoras brasileiras. O dinheiro sai do BNDES, passa pelos cofres dos países vizinhos, e depois vai engordar os lucros dos grandes conglomerados brasileiros. Num passe de mágica, dinheiro público vira lucro privado.
É assim que funciona.

Agora, haveria um banco privado com força para entrar nesse jogo internacional, dizem alguns economistas.
O trabalhador brasileiro – seja o operário ou o sujeito de classe média – pode ganhar alguma coisa com isso?
Indiretamente, sim, na medida em que um banco brasileiro com presença internacional pode fortalecer as empresas nacionais, gerando mais empregos aqui no Brasil.

Mas, há um outro ponto: a fusão aponta para uma concentração absurda no mercado bancário brasileiro. Isso é desastroso para quem usa os serviços bancários. Todos sabemos que a chegada de potências das finanças mundiais, ao contrário do que se dizia, não ajudou a reduzir as tarifas bancárias no Brasil. Imagine o que vai acontecer agora que a tendência é diminuir o número de bancos no país?

Depois da grande tacada de Setúbal e Moreira Sales, a tendência é o Bradesco correr para comprar bancos pequenos (não há muitas opções na praça). O Banco do Brasil deve fazer o mesmo, fechando negócios com bancos estaduais (como Besc e Nossa Caixa).

Ou seja: a tendência é de mais concentração, menos concorrência, tarifas mais altas.
A mão grande do mercado , como sempre, não vai favorecer o consumidor.

Bancos maiores também têm mais capacidade de disputar braço-de-ferro com o governo.

Como se sabe, o Banco Central reduziu há algumas semanas o chamado “compulsório” (aquela fatia de depósitos que ficam retidos no BC todos os dias); o objetivo era aumentar a “liquidez”, ou seja, liberar grana para os bancos emprestarem a empresas e consumidores.
Os bancos não emprestaram. Usaram o dinheiro extra para reforçar suas posições.

O BC, então, adotou novas medidas para obrigar os bancos a botar o dinheiro na praça. Os banqueiros reagiram, com gritaria pelos jornais.
Itaú e Unibanco – juntos – têm agora ainda mais força para enfrentar o governo. Se bem que, em se tratando do governo Lula, os banqueiros nem precisam fazer muita força para ganhar o braço-de-ferro.

Sobre este tema, aliás, recomendo o belíssimo artigo de Mauro Santayana (publicado originalmente no “Jornal do Brasil”), que me foi enviado pelo leitor Aílton Almeida – http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/santayana-a-geometria-dos-cegos-e-a-cupidez-dos-bancos.

Santayana consegue manter a elegância, até na hora de falar das jogadas da banca internacional. Saboreie…

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