Ortodoxos já não mandam no governo?

publicada quinta-feira, 16/04/2009 às 16:37 e atualizada quinta-feira, 03/06/2010 às 16:50

O mercado interno está segurando a onda do Brasil

No primeiro trimestre de 2009, 668 mil veículos novos foram emplacados, o maior número para um primeiro trimestre na história do Brasil, segundo informações do Registro Nacional de Veículos Automotores (Renavam). O resultado é 3,14% superior ao do primeiro trimestre de 2008.

Montadoras que demitiram já estão obrigando operários a trabalharem aos sábados, pra dar conta das encomendas.

A Fiat voltou a contratar agora em abril. Está nas agências de notícias desta semana. E as empresas que fornecem pra Fiat em Betim também estão contratando.

Então, que crise é essa? Veja o que escrevi no início de março, analisando o setor de carros – http://www.rodrigovianna.com.br/forca-da-grana/carros-e-avioes-brasil-deve-tirar-proveito-da-crise.

A construção civil também se recupera. Trata-se de setor estratégico, porque emprega mão-de-obra pouco qualificada, que dificilmente encontra ocupação em outros setores.

Em março, o setor abriu 16 mil novas vagas.

E não são apenas números frios. Estive no Rio há duas semanas. Há lançamentos novos de prédios por toda a zona sul. Parei em dois deles, pra saber se as vendas haviam caído, ou se as obras poderiam ser interrompidas pela crise. Não me identifiquei como jornalista. Nos dois prédios, os corretores me olharam como se eu fosse um E.T.: “parar a obra? Mas tá quase tudo vendido, meu amigo!”

Em São Paulo, situação parecida. Os jornais de domingo já voltaram a receber anúncios de prédios de apartamento, escritórios e condomínios horizontais.

Supermercados também seguem lotados. Assim como shoppings e lojas de ruas. Tentei comprar uma máquina de lavar nova pra casa sábado passado. Tive que esperar uns 15 minutos pra que uma vendedora pudese me atender.

Verdade que setores que dependem fortemente da exportação (como a área de mineração, ou a siderurgia) enfrentam problemas. E, no saldo geral, a chamada indústria de transformação fechou 35 mil vagas em março.

Os números, portanto, ainda são contraditórios.

O mais importante, no entanto, são os sinais emitidos pelo governo. Lula, finalmente, parece ter perdido o medo de romper com os ortodoxos.

1) O superávit fiscal foi reduzido, esta semana, pra injetar 39 bilhões de reais a mais na economia. Ou seja, parte do que o governo poupava, pra abater a dívida pública, vai agora para obras e gastos públicos, e vai ajudar a economia a girar.

2) Semana passada, Lula substituiu o presidente do Banco do Brasil porque quer uma diretoria que baixe o spread, faça o dinheiro chegar mais barato na mão dos brasileiros. Afinal, pra que serve ter um banco público?

A turma do vamos “fazer a lição de casa” reclamou: Lula interveio no Banco, pecado!!! Ora, o governo é o maior acionista do banco. O banco tem que seguir a política do governo, e não o que está na cabeça da turma da bufunfa.

3) O governo também prorrogou a isenção do IPI para os carros.

4) E já prevê um reajuste do salário mínimo acima da inflação pra 2010.

São ótimos sinais de que a turma do “vamos fazer a lição de casa” já não manda na política econômica do governo.

A crise tem tudo pra ser longa. Os sinais de melhora das últimas semanas não devem iludir ninguém (economistas renomados já mostraram os gráficos da crise de 29 indicando que, após o “crash” inicial, houve períodos de melhoras, seguidos de novas idas ao fundo do poço).

Mas, o Brasil tem tudo para sair dessa crise maior do que entrou. Na política internacional, o país já não é patinho feio. Deve aproveitar também para avançar na economia.

Por que os indianos podem ter uma montadora e o Brasil não pode? Fazemos aviões, não podemos fazer carros, com uma montadora nacional?

Se a GM quebrar, vamos deixar os gringos fecharem a fábrica em São Caetano? Ou o Brasil pode encontrar arranjos produtivos que garantam a existência da montadora aqui?

Pra isso, Lula terá que enxergar longe, como Vargas nos anos 30.

Começam a aparecer os primeiros sinais de que a turma que entende o papel do Estado na economia assumiu o comando no governo

Falta ocupar o Banco Central. Mas, aí, talvez seja pedir muito a este governo…

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