“Um novo sistema se instalará, e não será um sistema capitalista”, diz Wallerstein
publicada terça-feira, 10/03/2009 às 17:32 e atualizada quinta-feira, 03/06/2010 às 17:00
(texto originalmente publicado em 23 de outubro de 2008)
“A depressão já começou. Um tanto coibidos, os jornalistas seguem perguntando aos economistas se não estaríamos entrando em uma mera recessão. Não acreditem neles nem por um minuto.”
É assim que se inicia o artigo de Immanuel Walerstein, publicado originalmente no jornal “La Jornada”, e reproduzido no site “Vermelho” (foi lá que o li), ligado ao PCdoB.
Wallerstein não é a reencarnação de João Amazonas! Nem o codinome de Fidel Castro!
Sociólogo norte-americano, professor da Universidade de Yale, ele é um dos maiores teóricos e estudiosos do Capitalismo.
O artigo de Wallerstein lança sombras sobre o futuro do Capitalismo. Quem acreditar nele deve retirar o dinheirinho do banco, e comprar uns sobrados na Barra Funda em São Paulo ou no Grajaú, no Rio - como faziam os portugas no começo do século XX.
Leia os dois últimos parágrafos do texto:
“Podemos asseverar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será eleita para recuperá-lo, porque esse será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde, um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o dito sistema. Decidir o novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos.
No que diz respeito às perspectivas de curta duração ad ínterim, é claro o que ocorre em todas as partes. Temos nos movido para um mundo protecionista (esqueçam da chamada globalização). Temos nos movido para um papel muito maior do governo na produção – e ainda por cima os EUA e a Inglaterra estão nacionalizando parcialmente os bancos e algumas grandes e moribundas empresas. Movemo-nos até uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à esquerda do centro ou formas autoritárias de extrema-direita. E nos movemos até conflitos sociais agudos no interior de alguns Estados, pelo fato de que todos competem por um bolo menos. Em curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.”
Wallerstein é defensor do conceito de que o Capitalismo deve ser entendido como um “Sistema-Mundo”.
Ou seja: segundo ele (desmintam-me historiadores e economistas se eu estiver simplificando demais o pensamento do autor), nos últimos 500 anos, desde as Grandes Navegações, não é possível pensar cada país ou região do Planeta de forma isolada. E isso não tem nada a ver com a tal “globalização” propagandeada pelos liberais dos anos 90.
Tomemos o caso do Brasil.
Ao longo do século XX, alguns historiadores – principalmente aqueles ligados ao velho “partidão (PCB) – defendiam que, na fase Colonial, o Brasil tinha pasado por um Sistema Feudal. A partir de uma leitura esquemática de Marx, essa escola defendia que o Brasil precisava superar os traços de Feudalismo, para passar ao verdadeiro Capitalismo e , só então, ingressar na “era dourada” do Socialismo.
Outros, como Jacob Gorender, afirmavam (afirmam ainda hoje) que, durante o período Colonial, a América Portuguesa vivia sob o “Modo de Produção Escravista Colonial” (há uma belíssima obra de Gorender sobre isso – “O Escravismo Colonial”, editora Ática).
Wallerstein não concorda com nenhuma das duas teses: as colônias na América, diz ele, tinham a função de acumular capital que serviria para o desenvolvimento do Capitalismo nos países centrais.
Ou seja – com ou sem Escravidão, o que se passava nos trópicos era um capitulo da história capitalista. Era o Capitalismo operando na periferia.
Gorender privilegia as relações sociais internas na Colônia. Wallerstein olha para a articulação da Colônia com o Sistema Capitalista Mundial. Foi assim que eu aprendi nas aulas da saudosa professora Ilana Blaj, lá no Departamento de História da USP. Espero que não tenha aprendido errado!
Nesse caso, a responsabilidade seria minha, e não da Ilana…
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