A Sucursal do Inferno

publicada quarta-feira, 11/04/2012 às 19:32 e atualizada quarta-feira, 11/04/2012 às 19:32

Por Isabel de Sena, na Carta Maior

“Por vezes, é melhor não saber o que é o mistério…”

É o comentário feito pelo misterioso e carismático pastor, Hamilton, a uma jornalista que tem como missão desvendar a verdade sobre uma seita que aculuma riquezas insuspeitadas, levando-a a explorar os tortuosos caminhos pelos que se escrevem no mundo atual a política, a religião transformada em negócio lucrativo, bem como a verdade sobre um país que ainda não fez as pazes com o seu passado. A partir dessa proposta de dois gumes—thriller e denúncia feroz das indignidades que o capitalismo tece—se desenvolve este romance, o quarto de Izaías Almada.

Manina, a jornalista, vai abrindo caminho pela selva escura de operações financeiras ilícitas, de práticas religiosas que parecem ser demasiado bem ensaiadas para ser transparentes, o incontornável fulanismo e compadrío que impede tanto o profissionalismo (de um jornalista, de um detetive) quanto a promoção de um funcionário honesto, e inclusive, por quê não?, podem conduzir à morte de um policial. Ou dois. Ou o afastamento oportuno de outro. São os inconvenientes do ofício.

Pontuando os quatro movimentos que nos conduzem ao final, afinal inevitável, porque sutilmente anunciado desde o início, surgem três interlúdios , a ferida exposta do passado não resolvido, a violência de outra época silenciada mas não muda, a figura trágica, mater dolorosa do paradoxo central da narrativa: pode uma nova ordem nascer do diabólico casamento entre o Bem e o Mal? Serão ambos duas faces da mesma moeda, completando-se e multiplicando-se, num jogo singularmente perigoso mas aliciante, tão sensualmente tentador quando se projeta disfarçado pelas possibilidades que o dinheiro dá?

Se Manina se arrisca e se deixa seduzir, resistência moral mais firme encontramos em Montezuma, seu amigo detetive, monarca já nascido destronado, dos que sabem instintivamente com que linhas se cose um destino infausto, uma curiosidade inconveniente.

Para que haja tragédia, e recordemos que Izaías Almada é também dramaturgo, há que sacrificar uma vítima, para que alguma coisa sobreviva a este mundo de traições, ambições e paraísos fiscais, nem que seja só justiça poética. Neste romance há duas vítimas, ambas mulheres, uma para cada tempo, e seus corpos são os mapas desta trajetória da indignação, da necessidade explosiva de denunciar as teias que cruzam fronteiras em que vivemos cada vez mais emaranhados, nossas sucursais do inferno.

Em contraste com os parceiros e donos das palavras do jornal para o qual trabalha Manina, apropriadamente chamados Marco Antônio e César Augusto, Izaías Almada, que também é jornalista, recusa o compromisso e abraça o ser comprometido. Neste romance se denuncia o que acontece quando a mídia deixa de ser fonte de esclarecimento do público e se converte em complacente disseminadora do fuxico demolidor, o dócil acessório da nova ordem, vitoriosa frente ao vazio aberto pelo desmoronamento da dialética ideológica de outros tempos.

Ficcção ou realidade? Compete ao leitor contribuir com a sua parte de lucidez para que finalmente se realize o exorcismo.

(**) Lançamento da Editora Prumo, São Paulo, no dia 12 de abril de 2012 na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena – das 18:30hs até às 21:30hs.

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