Direitos Humanos, cinema e América do Sul

publicada quarta-feira, 10/11/2010 às 13:10 e atualizada terça-feira, 25/01/2011 às 16:47

por Juliana Sada

Começa hoje em São Paulo, a quinta edição da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. O festival acontece até 19 de dezembro e percorrerá vinte capitais brasileiras. Esta edição tem como homenageado o ator argentino Ricardo Darín (de “O filho da noiva” e “O segredo de seus olhos”) e traz uma retrospectiva histórica chamada “Direito à Memória e à Verdade”, com documentários e ficções que abordam as ditaduras que ocorrem no continente e suas consequências.

A Mostra traz 41 filmes de dez países da América do Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e é uma realização da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As produções abordam temas como direito à terra, ao trabalho, à diversidade religiosa, direitos dos povos indígenas, das pessoas com deficiência, da criança e do adolescente, da população carcerária, da população afrodescendente e dos refugiados.

Entre os destaques da programação está “Os abutres” do diretor argentino Pablo Tapero (“Família Rodante” e “Leonera”), lançado este ano no festival de Cannes. A sessão paulistana do filme contará com a presença do ator Ricardo Darín, que atua no longa. No filme, Darín é um advogado em busca de vítimas de acidentes de trânsito para tirar a maior indenização possível das seguradoras e ficar com uma gorda comissão.

A Mostra traz diversas produções inéditas no Brasil como o argentino “Imagem Final”, que  investiga o trágico destino do fotojornalista Leonardo Henrichsen que, nas movimentações pré-golpe de Estado no Chile, filma sua própria morte. Da Colômbia vem a produção “Rosita Não Se Desloca”, com a história de uma agricultura indígena expulsa de sua terra, fenômeno comum a mais de três mil pessoas no país, que são retiradas de seus territórios tanto pelas Farcs, quanto pelos paramilitares e até mesmo pelo exército.

Também é possível ver um documentário paraguaio, país que raramente tem suas produções exibidas no Brasil. No filme “108”, a diretora Renate Costa busca a história de seu tio e descobre que durante a ditadura do general Alfredo Stroessner ele teria sido incluído em uma das “108 listas de homossexuais” e então preso e torturado. Outro destaque é “Leite e Ferro”, eleito melhor longa-metragem documental no Festival de Paulínia, o filme retratada a maternidade em uma situação limite, abordando amamentação, sexualidade, drogas e religião no cárcere.

Já a Retrospectiva Histórica traz o clássico documentário “A Batalha do Chile”, de Patricio Guzmán, que mostra os momentos que antecederam o golpe neste país. Será exibido também o longa “Pra Frente, Brasil” de 1982, inicialmente censurado. O filme se passa na década de 70 e contrasta a euforia por o Brasil ganhar a Copa do Mundo realizada no México com a tortura de presos políticos que ocorria ao mesmo tempo.

Outro clássico é o argentino “A História Oficial”, de 1985, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme conta a história de uma professora que é suspeita de ter adotado uma filha de uma desaparecida política da ditadura. Integram também a Retrospectiva, os documentários brasileiros “Vlado – 30 Anos Depois” – sobre a tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado numa cela do DOI-Codi em São Paulo – e “Hércules 56”, sobre a viagem dos quinze presos políticos que foram trocados pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick em 1969.

O catálogo com todos os filmes da Mostra pode ser baixado aqui. Acontecerão sessões com audiodescrição e closed caption, para garantir o acesso a pessoas com deficiência visual e ou auditiva.

Abaixo a lista de cidades que receberão a 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul e as respectivas datas:

Aracaju (10-16/12), Belém (25-28/11 e 2-5/12), Belo Horizonte (13-19/12), Brasília (16-23/11), Cuiabá (10-18/11), Curitiba (17-23/11), Fortaleza (8-14/11), Goiânia (3-9/12), João Pessoa (11-18/11), Maceió (29/11-9/12), Manaus (29/11-5/12), Natal (18-25/11), Porto Alegre (23-28/11), Recife (6-12/12), Rio Branco (6-12/12), Rio de Janeiro (30/11-5/12), Salvador (3-9/12), São Luís (29/11-5/12), São Paulo (19-25/11) e Teresina (11-17/11).

Mais informações no site da Mostra, aqui.

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5 Comentários

5 Comentários para “Direitos Humanos, cinema e América do Sul”

  1. Paulo Morani disse:

    PRECONCEITO – O Rio de Janeiro pode dar a partida

    Temos aqui, no RIO a “Feira dos Paraíbas” um espaço no bairro de São Crsitóvão que foi consagrado aos que vieram do Norte/Nordeste para cá. Em Copacabana, a Praça Serzedelo Corrêa era chamada “Praça dos Paraíbas”, pois a partir de sexta-feira à noite, no sádo e domingo o pessoal que trabalhava em Copa, nas portarias, nas obras, nos pérdios enfim, se reuniam para dançar, namorar e se divertir. Com o cerco da praça (sr. cesar mala) isso praticamente acabou. Nesse momento, em que nossos irmãos brasileiros, nascidos no norte/nordeste e que construiram esse Brasil inteiro, com seu suor, lágrimas e sangue, estão sendo postos de lado por essa elite branca, canalha, o Rio de Janeiro tem a obrigação de dar a partida. Vamos trazer para Copacabana, novamente, na praça SERZEDELO CORREA, os forrós, os zabumbas e triângulos e, numa homenagem com pedido de desculpas, resgatar a história dessa nossa gente que “vem do norte”. Vamos promover uma grande festa, com a presença de nordestinos do Brasil inteiro. Coclamo aqui a Prefeitura do Rio o Governo Estadual e o Federal (que tem em LULA seu nordestino maior) a realizarem uma grande festa. Pode ser no dia 20 de novembro, que é consagradoa Zumbi, o grande guerreiro negro, combatente, e que enfrentou as oligarquias da época. Será o dia do “DIGA NÃO A TODA E QUALQUER FORMA DE PRECONCEITO. Henfil dizia que “tudo o que se faz com festa, se faz melhor”, e nós cariocas sabemos muito bem como fazer.
    DIGA NÃO A QUALQUER FORMA DE PRECONCEITO.
    Fica aqui a sugestão!
    Paulo Morani
    10 de novembro de 2010

  2. Maquinho Santa Fé disse:

    Valeu, viva a cultura dos povos hermanos!

  3. Mardones Ferreira disse:

    No ano passado, fui aos dois últimos dias da Mostra. O documentário Colombiano – Tambor de Água – que encerrou a mostra aqui em Curitiba é sensacional.

    Esse ano estarei novamente na cinemateca para ver os documentários e os filmes dessa importante temática.
    Pena que há ainda pouca divulgação – vi o chamado na Rede Brasil apenas. Mas a iniciativa é BRILHANTE.

    Vida longa à Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul para manter viva a memória!

    As emissoras de tv abertas(?) deveriam exibir ao menos os documentários mais curtos. Só uma sugestão.

  4. Navio Negreiro – Castro Alves (para ver, ouvir e chorar)

    Eu, filho, neto, bisneto, tataraneto de portugueses, neste dia, peço perdão aos negros africanos pelo crime hediondo cometido pelo país de origem dos meus ancestrais.

    http://migre.me/2lOPZ

    Consciência Negra

    ***

  5. Julio disse:

    Revista Brasileiros – Novembro de 2010
    Honesto e Corajoso
    Por Guilherme Lacombe de Góes

    James Alison é inglês de nascimento, mas brasileiro por opção. Mora aqui, de forma intermitente, há mais de 20 anos, formou-se em teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, e está adotando um filho brasileiro, Luiz Felipe, com quem pretende compor uma família. Até que seu livro Fé Além do Ressentimento – o quarto dos sete que já escreveu em inglês, e o primeiro traduzido para o português – chegasse às minhas mãos, eu jamais acreditaria que um fenômeno como ele pudesse existir. O subtítulo do livro, Fragmentos Católicos em Voz Gay, mostrava que ali estava algo novo e surpreendente. Sim, seu autor é gay, vive sua homossexualidade abertamente, e escreve sobre isso. Não haveria aí nada de anormal, não fosse ele um padre, que consegue conciliar homossexualidade com o sacerdócio católico. Nascido evangélico anglicano, buscou abrigo junto aos católicos dominicanos, explicando que: “os primeiros impõem a ele um “totalitarismo interior”, no qual não há escapatória, ao passo que o catolicismo impõe um “totalitarismo exterior”, que se situa fora de você, em outras pessoas, muitas delas homossexuais enrustidos, desequilibrados. Ao compreender o elemento ridículo dessa realidade, você acaba por se perceber livre, desobrigado a seguir aqueles ensinamentos”.
    Em Roma, junto aos superiores dominicanos, perguntou onde encontraria o melhor ensino de teologia em todo o mundo, e foi surpreendido com a resposta: junto aos padres jesuítas, na faculdade de Belo Horizonte”. Chegou ao Brasil em meados dos anos 1980. Aqui, viveu o amor por outro homem, o destino impunha o conflito entre sua natureza como homem e sacerdote e não lhe poupou momentos cruéis: o homem que amava morreu, vítima de AIDS, uma perda dilacerante. Nesse momento, encontrou os ensinamentos do teórico francês René Girard, a quem define, divertido, como “meu guru”. Segundo a ótica de Girard, aventurou-se a uma releitura do evangelho, sabendo que somente estaria livre vivendo a verdade acerca de si mesmo. Chegou então à maravilhosa compreensão: a possibilidade de se viver honestamente como cristão e homossexual, principalmente hoje quando a falsidade da vida dupla desaba no mundo inteiro.
    A expressão “além do ressentimento”mostra que Alison não cai na armadilha de dividir o mundo entre “os gays e os outros” como vítimas e algozes. Seguindo os ensinamentos do cristianismo, sob olhar renovado, mostra a todos como iguais, e nos oferece essa compreensão libertadora. “A Igreja insiste em explicar os homossexuais como heterossexuais defeituosos, quando, na verdade, somos uma variante minoritária, mas de ocorrência regular, na humanidade. A premissa de que somos héteros defeituosos não é válida e, portanto, não deve ser seguida, é inaceitável para o estudo do evangelho”, afirma.
    Como é possível e honesto ter uma vida amorosa homossexual e ser um sacerdote, em uma estrutura que impõe o celibato e que condena a homossexualidade? E os votos de castidade? “No meio eclesiástico existem muitos homossexuais, e ninguém está propriamente interessado no que as pessoas fazem, contanto que não sejam criminosas, como é o caso da pedofilia. O tabu, o proibido é falar sobre o que faz”, explica. No caso dele mesmo, quando tomou os votos, atuava com a consciência forçada. Percebeu que seguia a premissa eclesiástica errada acerca dos gays e, ao descobrir isso, o seu compromisso com o celibato revelou-se nulo, como o seria qualquer compromisso assumido por uma consciência forçada.
    Ele se expôs como gay. Por quê? Não tinha mais nada a perder, já tinha perdido o homem que amava, compreendia o clero e a igreja plenamente, poderia até mesmo ser desligado como padre, afastado do sacerdócio. Viver sua vida com plena honestidade era sua única saída. “Quando se perde o medo de perder é que se está livre”. Escreveu para Roma, convidando seus superiores a decidirem sobre seu destino. Uma troca inicial de cartas foi seguida por muitos anos de silêncio da parte deles. Eventualmente, os próprios dominicanos, por iniciativa própria e sem hostilidade alguma, pediram ao Vaticano que reconhecesse o desligamento entre James e eles, sem pedir que fosse afastado do sacerdócio. Dessa vez, a resposta foi mais rápida: ela não seria mais dominicano, mas continuaria padre. Permanece sacerdote, mas está sem vínculo direto com nenhuma autoridade eclesiástica, por enquanto. Nada o impede de celebrar missas e ministrar os sacramentos. Em momento algum ele enfrentou reprimendas de qualquer figura eclesiástica, mesmo havendo explicado, serena e publicamente, em diversos textos, o porquê da atual posição eclesiástica na matéria gay ser contrária aos fundamentos da fé católica. Ao contrário. Diversos membros do alto clero tiveram interesse em conhecer seu trabalho. Todos o compreenderam e o trataram como parte da família.
    (…)
    Maravilhosamente honesto no que faz e no que ensina, Alison abre um caminho pelo qual os homossexuais podem encontrar abrigo e conforto no catolicismo, e pretende mostrar isso formando uma pastoral para homossexuais aqui em São Paulo, nos moldes de outra já iniciada com grande sucesso em Londres. Aliás, atualmente ele dedica a maior parte de seu tempo viajando pelo mundo para mostrar seu trabalho. Para entendê-lo, é necessário ler sua obra ou ouvi-lo falar. Ele está sempre aberto a convites para palestras. Uma obra dessa profundidade se compreende passo a passo, e esse livro é o primeiro deles.

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