A oposição dos mauricinhos
publicada segunda-feira, 21/11/2011 às 10:45 e atualizada terça-feira, 22/11/2011 às 12:42
Por Izaías Almada
Acabo de assistir a um vídeo inacreditável. Gravado por funcionários da Rede Globo de Televisão, o vídeo tem a intenção de criticar a construção de uma hidrelétrica na Amazônia brasileira, a de Belo Monte. Tema polêmico por natureza e que, no atual momento político brasileiro e de crise econômica mundial, poderá crispar ainda mais os debates sobre o assunto.
Antes mesmo de ver a última imagem do vídeo, minha memória transportou-me à lembrança de um amigo que não vejo há anos e que espero, sinceramente, esteja vivo e gozando de boa saúde. O amigo Tatá.
Tatá era filho de um funcionário público do governo federal ainda nos tempos do presidente Juscelino Kubstcheck. A família mudou-se para Brasília, mas o Tatá terminou seus estudos no Rio de Janeiro, onde também eu vivi por dois ou três anos. Foi quando o conheci.
Ser humano pacato, de fala arrastada, não era afeito a polêmicas. Fugia de uma discussão como o diabo da cruz. Não era muito chegado ao trabalho e vivia de biscates como costumava dizer. Quem quisesse encontrar o Tatá era só ir até a sua casa, numa tranquila rua da Tijuca, e lá bater um papo com ele na agradável varanda da casa. Ou mesmo no quintal, onde cuidava de dois cães, um pastor alemão e um dobermann, fiéis defensores do patrimônio familiar.
Nessa época o Tatá era proprietário de um fusca, presente do pai e, em meio à inflação que corroia a economia brasileira, gabava-se de só colocar dez cruzeiros de gasolina no tanque do carro. O preço do combustível poderia subir, mas meu amigo Tatá só gastava seus indefectíveis dez cruzeiros para encher o tanque. Nós, seus amigos, costumávamos rir da situação, mas o Tatá, sempre bem humorado, dizia: “Estão rindo do quê? Esse é o meu jeito de fazer economia”. Na verdade, era uma maneira de economizar, claro, mas um dia o fusca não sairia da garagem, como é óbvio.
Outra história saborosa do Tatá é que ele passava dias na varanda da casa olhando o horizonte, até que recebeu o apelido de Fiscal da Natureza. Pensam que ficou chateado com isso? Nada, incorporou o apelido e até se orgulhava dele, pois dizia que a natureza tinha que ser preservada de seu principal predador, o homem. Como não gostava de discussões, jamais se dispôs e dialogar sobre todos os fatores que envolvem muito dos conceitos de economia e meio ambiente.
O Tatá tinha tudo para se tornar um desses especialistas normalmente entrevistados em programas de televisão, em especial os da Rede Globo de Televisão, palco aonde qualquer argumento, venha ele de onde vier, pode se tornar um indício contra ou a favor de qualquer coisa, por vezes verdadeiras aulas sobre nada ou coisa nenhuma. Como o tal vídeo sobre Belo Monte.
O Eduardo Guimarães no seu Blog da Cidadania ironizou a defesa que os funcionários da emissora fazem dos índios brasileiros, afirmando que provavelmente a maioria daqueles depoentes jamais tenha visto um índio brasileiro de perto. Concordo. Ou talvez tenham visto índios em telenovelas. Ou seria a defesa do Índio do Brasil, aquele que foi candidato a vice do cidadão José Bolinha de Papel Serra?
Ironias à parte, a discussão sobre a hidrelétrica de Belo Monte neste momento, reveste-se de características que para muitos de seus adversários se somam a argumentos de forte coloração oportunista antigovernamental. Se não é esse o verdadeiro motivo, listo aqui alguns temas para o mesmo grupo gravar outros vídeos e com isso demonstrar a sua consciência política, independência e fé nos valores verdadeiramente democráticos:
1 – Um vídeo pela despoluição do Rio Tietê provocada por indústrias às suas margens;
2 – Um vídeo condenando o massacre de índios kaiowa guaranis no Mato Grosso do Sul a soldo de fazendeiros da região;
3 – Um vídeo condenando a vergonhosa corrupção no metrô de São Paulo (leia-se governo do PSDB);
4 – Um vídeo condenando o irresponsável vazamento de petróleo da empresa Chevron no litoral fluminense.
Fica aí a sugestão para os mauricinhos da oposição, que muito me lembraram o Tatá.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico, É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.
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11 Comentários







O Brasil da globo não é o Brasil do povo brasileiro
COMPARTILHO DA MESMA OPINIÃO SUA.
Izaías, percebeu colocaram atores despolitizado sem participação relevante, a não ser em escândalos e revistas de fofocas. A globo sabe quem escala, não tiveram, nem a coragem de colocar os do subserviente Pps.
Os globais, inclusive a pseuda-militante das causas ecológicas, Letícia Sabatella, defendem o índios de Uga-Uga!
Não que as outras causas não sejam justas, mas imaginem se fosse o contrário: a outra turma tentando construir a hidrelétrica. Escândalo, povos indígenas estripados em seus direitos. Menos, por favor.
Fugindo um pouco do assunto mas nem tanto, talvez esteja na hora de rever – e ampliar – o conceito de “indígena”.
Não no sentido de transformar o território brasileiro inteiro numa única e imensa “reserva” indígena – como poderia acontecer de acordo com a Convenção 169 da OIT, o grande instrumento legal (virou lei ordinária no Brasil) na defesa dos povos indígenas – mas no sentido de ampliar o conceito de identidade indígena aos descendentes, da mesma forma que acontece com os afro-descendentes.
Hoje, a identidade afro não fica restrita aos habitantes dos quilombolas. Cada vez mais – graças a Deus – pessoas se dizem negras, e com orgulho, mesmo quando não se trata de um descendente direto dos africanos e exibe sinais evidentes de miscigenação com outras “raças”
Da mesma forma, a identidade indígena tinha que ser ampliada para os milhões de descendentes que caminham, completamente ignorantes do seu passado e tradições pelos grandes, médios e pequenos centros urbanos.
As reservas indígenas, é claro, continuariam sendo valorizadas na medida certa, mas a identidade indígena e suas tradições não precisa, necessariamente, de estar restrita a tais territórios, assim como a identidade negra não está restrita aos quilombolas.
Acho que esse é um caminho bom para todos – para os descendentes, que ganhariam na recuperação de seu passado e tradições; para os povos originários, que continuariam nas reservas com seu modo específico de vida e teriam um reconhecimento muito mais ampliado; e para a sociedade não-indígena, que ganharia com a convivência próxima com uma riqueza cultural e social que hoje passa completamente despercebida, restrita que está aos 800.000 indígenas “puros” e “cercados” que indicam as recentes estatísticas do IBGE.
E, estando a cultura indígena mais massificada e diluída como acontece cada vez mais com a cultura e a identidade negras, diminuiria o conflito que hoje ocorre em Belo Monte, pois nesse momento, a cultura indígena já estaria muito mais reconhecida e democratizada.
Só para concluir o comentário anterior, a proposta de extensão da identidade indígena aos indo-descendentes retiraria e diluiria também a prerrogativa das ONGs de serem, hoje, os “únicos” defensores dos indígenas.
Essas organizações certamente veriam com maus olhos a democratização e ampliação da causa indígena, pois lhes seria retirado o “poder” de que gozam hoje, muito valorizado, temos que reconhecer – e ficar atentos – por governos estrangeiros (via USAID e outras agências “humanitárias”)
Caro Gustavo,
um adendo emblemático ao seu comentário.
Quando estive na Venezuela em 2005, ocasião em que entrevistei inúmeros venezuelanos para o meu livro sobre aquele país, havia grande polêmica na imprensa, pois o governo – através de seus órgãos competentes, havia descoberto, entre outras, uma ONG norte americana que defendia indígenas de uma deteminada região.
Na investigação descobriu-se que a tal ONG possuiía radares, mecanismos de prospecção do solo e outros curiosos meios de investigar o solo da região.
Foram expulsos da Venezuela, como seria natural.
A maioria dessas ONGs, além de viverem – muitas delas – do dinheiro público, servem de fachada para interesses estrangeiros na Amazônia.
Abs.,
Izaías.
Sensato. Direto. Producente, porque esclarece
com coerência, esse artigo sobre a oposição dos mauricinhos. Oh! posição das mauciciadas e dos mauriciados!
“A oposição dos mauricinhos.” Grato pela coerência, pelo conteúdo e direcionamento da critica sobre a oposição dos mauricinhos. De fato: Oh! posição de todos eles!
Ótimasugestão aos funcionários da TV!aliás,como a sede deles é no Rio de Janeiro poderiam fazer mais algumas como a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas,cuja causa é a mesma do Rio Tietê e das empresas.Fazer a assistencia social digna do morro do alemão,só os teleféricos não são suficientes:melhoraram a vida dos moradores em 80%,mas a falta de proteção e auxílio à miseria ainda é forte.E por ultimo pagar a filiação do seu amigo Tatá ao PSDB ou PMDB e colocá-lo como ministro dos esportes,já que é um cargo puramente decorativo!forte abraço…..