Ai de ti, Haiti; o drama dos imigrantes

publicada segunda-feira, 30/01/2012 às 12:21 e atualizada segunda-feira, 30/01/2012 às 13:11

Ai de ti, Haiti
Por José Ribamar Bessa Freire, no Blog da Amazônia/Terra Magazine

Eles fizeram uma longa fila e foram embarcando, um a um, no navio chamado “Sagrado Coração de Jesus”, que zarpou de Tabatinga (AM) para Manaus neste sábado, 21 de janeiro. Os passageiros, na realidade, não sabiam direito de quem era aquele coração: de Jesus ou de Maria? Desconfiavam que era de Maria. Com todo o respeito ao calvário do filho, só um coração sangrado de mãe – onde sempre cabe mais um – pode abrigar mais de 400 haitianos com tantos sonhos, sofrimentos, dor, medo.

O medo dentro do barco-coração que descia o rio Solimões era “o medo da fatalidade que sempre acompanhou o Haiti”. Quem diz isso é um amigo chileno, Fred Spinoza, professor de espanhol em Tabatinga, que testemunhou a passagem dramática dos haitianos pelo Alto Solimões, ameaçados de se tornarem um boat people – refugiados que ninguém quer receber e que, sem chão onde pisar, transformam o barco em sua nova pátria e ficam, à deriva, vivendo na terceira margem do rio.

Fred, poeta como qualquer chileno – todo chileno verseja – me enviou trechos do Navio Negreiro de Castro Alves para ilustrar o cenário daqueles haitianos amontoados em redes armadas umas sobre as outras. No domingo passado, ele me cantou o roteiro do motor da linha: “O Sagrado Coração, que saiu ontem daqui, deve passar hoje por Fonte Boa, amanhã por Coari e chegar no Roadway, em Manaus, na terça, dia 24”. Manifestou preocupação quanto à recepção aos hermanos haitianos em Manaus.

Sangrado coração
Manaus, nascida de um parto sangrento, é filha de um crime e de um roubo, cometidos em 1669 por militares portugueses. Tropas armadas invadiram e saquearam a aldeia dos Manaú, mataram muitos índios, escravizaram outros e usurparam suas terras. Seu comandante, Francisco da Mota Falcão, construiu ali, bem em cima do cemitério indígena, o Forte de São José do Rio Negro, usando a mão de obra de índios escravizados e, como matéria prima, o barro das urnas funerárias quebradas e violadas. Portanto, foi a pilhagem colonial que pariu Manaus.

Por isso, talvez, Manaus sabe ser impiedosa, cruel. Mas sabe também ser generosa, como mostra o outro lado de sua história. Muitas vítimas do terremoto de Lisboa, de 1755, foram acolhidas pela cidade já mestiça, que lhes deu teto, trabalho, comida. Na época da borracha, entre 1877 e 1914, mais de 500 mil nordestinos, fugindo da seca, migraram para a Amazônia, muitos deles armaram suas redes aqui. Com eles chegaram sírios, libaneses, espanhóis, judeus, árabes, palestinos, japoneses, espanhóis e nova leva pacífica de portugueses. Recentemente, a Zona Franca trouxe os sulistas.

Dessa forma, a cidade foi se construindo sobre os alicerces da diversidade, com trabalho, sangue e suor dos estrangeiros que souberam muito bem se integrar à sociedade de base índia. Era tudo gente de paz. Como o portuga José Ventura – o Comandante Ventura – que em 1961 morreu para nos salvar. Manaus não tinha como combater incêndios. Ele criou em 1952 o Corpo de Bombeiros Voluntários. Faleceu quando combatia um incêndio que consumia vorazmente a periferia da cidade, como nos lembra pesquisa histórica realizada por Roberto Mendonça.

Outro portuga que ama a cidade e ajudou a construí-la é o dono do bar da Bica, o Armando, o mais caboco de todos os portugas, que está nesse momento, aos 75 anos, numa UTI de um hospital manauara com uma infecção pulmonar. Armando e o comandante Ventura fizeram mais por Manaus do que o belicoso Francisco da Mota Falcão, Pedro Teixeira e todo o exército colonial. Jornais lusos editados nessa época no Amazonas, estudados pelo historiador Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, estão nos revelando muito sobre essa migração.

Água no feijão

Os haitianos que chegaram agora vieram também em missão de paz, de trabalho, mas foram recebidos à bala com um grito de “nós não queremos vocês aqui”. O governador do Amazonas, Omar Aziz (PSD), filho de um imigrante palestino que se mudou para Manaus em 1968, debochou, sugerindo que o governo federal os abrigasse em Brasília, “em apartamentos de deputados federais”, conforme matéria publicada pela Folha de São Paulo assinada pela correspondente Kátia Brasil.

Pra puxar o saco do governador, a colunista social Mazé Mourão atacou os haitianos, chamando-os de “abusados”. Num texto boçal, reclamou que eles estão tomando conta dos empregos nas fábricas do Distrito Industrial e “como não sabem falar a nossa língua, trabalham caladinhos e até passam da hora sem cobrar nada”. Preocupada exclusivamente com o quintal de sua casa, sugere: “Por que os haitianos não ficam em Tabatinga ou vão povoar outros municípios do Amazonas?”. Conclui: “Sorry, sorry e sorry, o Haiti definitivamente não é aqui”.

Que me perdoem os ouvidos pudibundos, mas esse é o lado escroto de Manaus, o lado “farinha pouca meu pirão primeiro”. A colunista social alega que “se nós não conseguimos resolver os nossos problemas, que dirá de quem chega e toma de assalto esta Manaus de Mil Contrastes”. É como se ela dissesse, em 1919, ao Comandante Ventura e às centenas de portugas que com ele vieram: “Não podemos receber vocês, porque temos muitos problemas, não temos sequer um Corpo de Bombeiros Municipais” …E olha que nesse momento naufragava a economia da borracha, com centenas de mendigos espalhados pelas ruas da capital.

Felizmente, o outro lado, generoso e solidário, o lado “água no feijão que chegou mais um” se manifestou imediatamente. Dezenas de leitores ocuparam as redes sociais apoiando artigos que se solidarizaram com os haitianos e lhes deram as boas-vindas. Três deles merecem destaque.
Allan Gomes, com base no processo histórico da Amazônia, sustentou que “a imigração haitiana não deve ser vista como um problema, mas como parte da solução”. Da mesma forma que Manaus não podia apagar um incêndio porque carecia de bombeiros e foi salva pela migração lusa, assim também os haitianos podem contribuir para melhorar a cidade, se formos capazes de organizar e planejar a estadia deles aqui.

Alberto Jorge, coordenador geral da CARMA – Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia – confessa que teve ânsias de vomitar quando leu o texto de Mazé “que destila ódio e desprezo,é preconceituoso, asqueroso em todos os sentidos”. E Ismael Benigno considerou que a reação dela mais parece “um chilique da socialite Narcisa Tamborindeguy contra os pobres do que uma tentativa de entender o problema que ainda vamos ter”.

De qualquer forma, se o artigo tem algum mérito é o de desencadear um debate, permitindo revelar a xenofobia e a intolerância que trazemos dentro de todos nós, mas também a solidariedade com os refugiados. Quem sofreu o exílio, por razões políticas, econômicas ou sociais, sabe a importância dessa acolhida. É evidente que a questão é complexa, é claro que precisamos organizar uma intervenção de forma mais planejada, mas sem preconceitos, como o de um leitor de Mazé Mourão, que se referiu depreciativamente à religião dos haitianos e à magia negra.

Se a colunista social não pedir desculpas, publicamente, nós, os que ficamos chocados com seu texto – sorry, sorry, sorry – acamparemos com os haitianos no quintal da casa dela. Faremos um trabalho de magia negra para transformá-la em um ser inteligente, sensível e solidário. Se bem que suspeito não existir magia capaz de dar jeito nisso. Mas a gente tenta.

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4 Comentários

4 Comentários para “Ai de ti, Haiti; o drama dos imigrantes”

  1. Luiz Sanson disse:

    Olha, ignorância mesmo é se atrever a comparar portugueses com haitianos… O Haiti fez sua “Revolução” e matou até os médicos franceses, acabou com a fertilidade de seus terrenos agrícolas ao salgá-los como vingança dos colonizadores, mais de 80% das terras irrecuperáveis pra agricultura e vem um texto inútil desses e quer colocar haitianos e portugueses no mesmo grau de qualificação?! Sei, provavelmente são “iguais” aos japoneses e aos alemães em matéria de qualificação. Por isso mesmo o Haiti foi elevado à condição de futura superpotência pelos organismos estatísticos mais confiáveis da Europa e EUA. ME POUPE dessa balela. Sou leitor assíduo do Conversa Afiada e do Escrevinhador, mas não é justo o Brasil querer resolver os problemas dos outros países quando as nossas escolas ainda sofrem dificuldades estruturais, além das milhares de famílias sem moradia em SP, RJ e outros Estados, sem falar nos problemas graves com o crack.

    • Simas Mayer, Hebert disse:

      Ahhh!… Luiz. Como é bom a gente não precisar, ter necessidades; heim? Veja vc, sou carioca e consegui o meu primeiro emprego em Santa Catarina. Foi o q preencheu os meu requisitos e anseios pessoais. E, meu caro, eu fui recebido mto bem por lá; quase me casei e constitui família naquela Santa e Boa, Catarina. Mtos de meus pares saíram de outras várias partes desse nosso Brasil e se estabeleceram, firme, se casando e formando família. Claro q existem problemas de bairrismo, por nosso País; até, preconceitos e discriminações. Mas, nada igual ao q ouço e acontecem em outras paragens… ditas civilizadas. Lembra das revoltas dos habitantes da periferia de Paris, noutro dia? Qta violência… E os franceses são, até, bem humanizados, neh? E os próprios franceses usaram e abusaram do Haiti; enqto foi vantajoso. Qto exauriu o filão, abandonaram os ossos e se mandaram, mastigando o q sobrou de carne. Em poucas palavras, Luiz, é essa a formação do Haiti… Pelo q sei, a sociedade haitiana é bem diferente do q podemos imaginar; a mulher, por exemplo, só tem algum direito, se prenha. Fora, disso, leva a vida apanhando do homem e sendo barbarizada; dai, preferir ser usada, sexualmente; afinal, vai passar alguns meses sem apanhar… Cara, o Haiti tem a sua elite, dominante, tbm. Por conta disso, foi saqueada, continuamente; depois da saída e abandono dos franceses… Vc não acha q temos uma dívida, impagável, com a negritude, tbm? Aqui, em nossa terra, já praticamos toda a sorte de injustiças com os negros. E continuamos a fingir q não, ainda… Acontece q vivemos liberdades, democráticas; apesar de todos os contratempos, e por força de mta luta e sofrimento. Luiz, não vamos voltar aos velhos tempos de falta de garantias democráticas, ou liberdades… Não temos essa estatura, ética e moral, de negar ajuda a essa gente do Haiti. Eu tenho consciência de q temos inúmeras carências, ao nível de bem estar e riqueza; entretanto, de sobra, possuímos mta força de vontade, determinação e… vontade de vencer. E, tanto, q ainda nos sobra alguma coisa pra oferecer, na maior, aos q nos procurarem, esperançosos. Aquele abraço, fraterno

  2. Santana disse:

    Acho um erro o Brasil limitar a 100 por mês o número de vistos a haitianos. O Brasil passa por uma fase econômica muito boa e é seu dever, como potência emergente, fazer aquilo que outras potências nunca fizeram, ou seja, dar a mão àqueles que precisam. Sempre criticamos os estudunidenses e europeus que são preconceituosos com os imigrantes. Chegou a hora de mostrarmos que somos diferentes. Ao invés de apenas 100 vistos, por q

  3. Santana disse:

    (continuação) Chegou a hora de mostrarmos que somos diferentes. Ao invés de apenas 100 vistos, por que não aumentarmos para pelo menos 500, já seria uma maneira de amenizar a dor deste povo que há séculos sofre nas mãos dos brancos.

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