Azenha, Veja e as fontes-bandidas: “à CPI, pois!”

publicada sábado, 14/04/2012 às 20:25 e atualizada sábado, 14/04/2012 às 20:25

por Luiz Carlos Azenha, no VioMundo

Por dever de ofício, li o texto de capa de revista que tenta provar que investigar os crimes do Carlinhos Cachoeira, no Congresso, é um atentado à liberdade de expressão.

O que chamou minha atenção foi a frase abaixo, que interpretei como defesa do uso de fontes-bandidas:

Qualquer repórter iniciante sabe que maus cidadãos podem ser portadores de boas informações. As chances de um repórter obter informações verdadeiras sobre um ato de corrupção com quem participou dele são muito maiores do que com quem nunca esteve envolvido. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Isso é básico. Disso sabem os promotores que, valendo-se do mecanismo da delação premiada, obtêm informações valiosas de um criminoso, oferecendo-lhe em troca recompensas como o abrandamento da pena.

Registre-se, inicialmente, a tentativa dos autores de usar os promotores de Justiça como escada. Tentam sugerir ao leitor que o esforço da revista, ao dar espaço em suas páginas a fontes-bandidas, equivale ao dos promotores de Justiça.

Sonegam que existe uma diferença brutal: os promotores de Justiça usam a delação premiada para combater o crime. Os criminosos que optam pela delação premiada têm as penas reduzidas, mas não são perdoados. E a ação ajuda a combater um mal maior. Um resultado que pode ser quantificado. O peixe pequeno entregou o peixe grande. Ambos serão punidos.

O mesmo não se pode dizer da relação de um jornalista com uma fonte-bandida. Se um jornalista sabe que sua fonte é bandida, divulgar informações obtidas dela não significa, necessariamente, que algum crime maior será evitado. Parece-me justamente o contrário.

O raciocínio que qualquer jornalista faria, ao divulgar informações obtidas de uma fonte que ele sabe ser bandida, é: será que não estou ajudando este sujeito a aumentar seu poder, a ser um bandido ainda maior, a corromper muito mais?

Leiam de novo esta frase: As chances de um repórter obter informações verdadeiras sobre um ato de corrupção com quem participou dele são muito maiores do que com quem nunca esteve envolvido.

Não necessariamente. Ele não tem qualquer garantia de que as informações são verdadeiras se vieram de um corrupto. Que lógica é esta?

O policial que não estava lá mas gravou a conversa que se deu durante um ato de corrupção provavelmente vai fornecer uma versão muito mais honesta sobre a conversa do que os corruptos envolvidos nela.

O repórter que lida com alguém envolvido em um ato de corrupção sabe, antecipadamente e sem qualquer dúvida, que a informação passada por alguém que cometeu um ato de corrupção atende aos interesses de quem cometeu o ato de corrupção. Isso, sim, é claro, não que as informações sejam necessariamente verdadeiras.

O repórter sabe também que, se os leitores souberem que a informação vem de alguém que cometeu um ato de corrupção, imediatamente perde parte de sua credibilidade. Não é por acaso que Carlinhos Cachoeira, o bicheiro, se transformou em “empresário do ramo de jogos”.

É por saber que ele era um “mau cidadão” que a revista escondeu de seus leitores que usava informações vindas dele. Era uma fonte inconfessável.

Não foi por acaso que Rubnei Quicoli, o ex-presidiário, foi apresentado como “empresário” pela mídia corporativa quando atendia a determinados interesses políticos em plena campanha eleitoral. A mídia corporativa pode torturar a lógica, mas jamais vai confessar que atende a determinados interesses políticos.

Carlinhos Cachoeira não é, convenhamos, nenhum desconhecido no submundo do crime. Vamos admitir que um repórter seja usado por ele uma vez. Mas o que dizer de um repórter usado durante dez anos, por uma fonte que ele sabe ser bandida?

Sim, porque o texto, sem querer, é também uma confissão de culpa: admite que a revista se baseou em informações de um “mau cidadão”. Ora, se a revista sabia tratar-se de um “mau cidadão” e se acreditava envolvida em uma cruzada moral para “limpar a sociedade” de “maus cidadãos”, não teria a obrigação de denunciá-lo?

Concordo que jornalistas não têm obrigação de dar atestado de bons antecedentes a todas as suas fontes.

Mas onde fica a minha obrigação de transparência com meus leitores se divulgo seguidamente informações que sei serem provenientes de um “mau cidadão”? Qual é o limite para que eu seja considerado parceiro ou facilitador do “mau cidadão”?

Se imperar, a lógica da revista será muito conveniente para aqueles policiais presos por associação ao crime.

Tudo o que terão de dizer, diante do juiz: “Ajudei a quadrilha de assaltantes de bancos, sim, doutor, matando e prendendo os inimigos deles. Mas foi para evitar um mal maior, meritíssimo: uma quadrilha que era muito mais bandida”.

À CPI, pois.

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10 Comentários

10 Comentários para “Azenha, Veja e as fontes-bandidas: “à CPI, pois!””

  1. Mara Paraguassu disse:

    Formidável, Azenha.

    Parabéns. Jornalistas como voce e Rodrigo Vianna dignificam a profissão, tão aviltada, e sabidamente utilizada por bandidos do mundo da politica por quem se deixa usar, e não são poucos. Por dinheiro, em muitos casos, mas também por falta de traquejo ainda.

    Muito bem escrito. Claríssimo. Grande abraço. Vou divulgar no grupo Jornalistas (de Rondônia) do qual faço parte.

  2. Isso é igual ao repórter que mente para uma fonte, independente de ser bandida, para conseguir uma informação. Se o repórter mente, quando ele diz a verdade?

  3. Célia do Prado disse:

    Muito bem “grande” Azenha. Assino em baixo de tudo que vc escreveu. Tenho uma dúvida, a Editora Abril pode sofrer algum tipo de sanção por usar uma “fonte bandida” e promover sua revista, durante a CPI ? ou teria de ser um processo à parte, após a confirmação durante a Comissão?
    Abraços e continue sua luta !

  4. Emilson Werner disse:

    É isso mesmo: o proxenetismo jornalístico, com a lógica de Maquiavel, que torna o jornalismo cúmplice e às vezes promotor de iniquidades, e não, como supõe a Revista citada, a salvaguarda e o bastião da moralidade.

  5. aemiguel disse:

    Parece-me que a questão central não é o fato de ter se valido de uma fonte bandida; é ter se associado a uma organização criminosa para fins conspiratórios. É muito, muito pior.

  6. Leonardo Ferreira disse:

    A justificativa dos autores do texto na revista usando o paralelo da delação premiada, como termo de troca, então, os outores do texto deram alguma coisa em troca! O quê?
    A blindagem?

  7. nilcemar disse:

    É, bandidos têm bastante credibilidade nessa revista !

  8. Airton disse:

    Se a revista, ha dez anos, convive com o banditismo do Cachoeira e não o denuncia, é cúmplice.

  9. H Coelho disse:

    No caso de veja, como ela vai identificar o nível ético da fonte? Pelo seu nível ético, claro. Como a veja tá no nível do cachoeira e do demostenes eles eram fontes muito confiáveis para ela. Bandido gosta de bandido.

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