O Brasil e as remessas das montadoras
publicada sexta-feira, 27/01/2012 às 12:42 e atualizada quinta-feira, 02/02/2012 às 16:36
Eles precisam de nós. Mais do que precisamos deles
Por Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto
A indústria automobilística remeteu 5,58 bilhões de dólares em lucros e dividendos ao exterior no ano passado. O valor – equivale a 19% de todas remessas desse tipo e é 36% superior ao montante enviado em 2010 – foi tema de boa matéria de Pedro Kutney, nesta sexta no Uol.
Lucro pode se traduzir em empregos, geração de renda, impostos e tudo o mais. Contudo, quando ele surge em um ambiente com problemas sociais, ambientais e trabalhistas não resolvidos, deveria ser melhor avaliado.
Por exemplo, as montadoras não colocam em prática certas ações importantes para garantir qualidade de vida ao brasileiro, como a adaptação da frota nacional para um diesel com menos enxofre na sua composição e que, portanto, mataria menos os moradores das grandes cidades. Ou um controle mais rígido sobre sua cadeia produtiva. Hoje, ao comprar um carro, você não tem como saber se o aço ou o couro que entrou na fabricação do veículo foram obtidos através de mão-de-obra escrava e trabalho infantil ou se beneficiando de desmatamento ilegal – ilegalidades que vêm sendo apontadas pelo Ministério Publico Federal e pela sociedade civil.
Alguns “especialistas” repetem que é irracional a solicitação de contrapartidas à indústria, uma vez que o aumento nas vendas gira a economia e gera empregos. Afirmam que as empresas não podem operar esquecendo que estão inseridas em uma economia de mercado, buscando uma taxa de lucro para continuar sendo viável. E que se problemas existem é pela falta de fiscalização do governo.
Ou seja, o Estado tem que garantir e ajudar o funcionamento das empresas, mas as empresas não podem sofrer nenhuma forma de intervenção em seu negócio – mesmo se ele for vetor de problema. Um liberalismo de brincadeirinha.
E recordar é viver: durante o pico da crise econômica de 2008, a General Motors demitiu 744 trabalhadores de sua fábrica em São José dos Campos (SP) sob a justificativa de “diminuição da atividade industrial”. Mesmo após ter recebido apoio da União e do governo do Estado de São Paulo no sentido de facilitar a compra de seus produtos por consumidores.
Se o Estado pensar só com cabeça de planilha, vai continuar fazendo do Brasil um suporte para as empresas automobilísticas de outros países durante épocas de crise, deixando o nosso meio ambiente e nossos trabalhadores pagarem a conta por isso.
Sugestão: quando constatados problemas na cadeia produtiva das montadoras, que tal taxar o lucro delas a ser remetido e usar o montante para cobrir esses danos ao homem e ao meio? OK, a idéia é quase impossível (por aqui, a dignidade é relativa, enquanto a propriedade é absoluta). Mas por isso mesmo deliciosamente interessante imaginarmos as reações.
“Ah, isso afastará os investidores internacionais”, dirão xororôs do mercado.
Vai não… Eles precisam de nós. Mais do que precisamos deles.
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9 Comentários


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JK empenhou-se ao extremo em trazer a indústria automobilística para o Brasil e, por isso, recebeu muitas críticas. As mais virulentas vinham do “Tribuna da Imprensa”. Não foi fácil convencer montadoras a se instalarem aqui. Foram necessárias muitas concessões, muitos incentivos. JK tentou, também, criar a “Fábrica Nacional de Motores”. Não deu certo, mas, o presidente era um visionário e conseguiu trazer a VW. Hoje somos a terceira maior base de operações da montadora (a primeira é a China e a segunda a Alemanha). É a quinta maior empresa exportadora do país. Montou mais de 17 milhões de unidades em 55 anos, fazendo crescer uma imensa rede nacional de fabricantes de autopeças. Isso faz do Brasil um grande pólo exportador desses manufaturados, aliás, o principal item de nossa pauta de exportações. Até para que as montadoras se instalem em outros Estados e não só em São Paulo o governo precisa conceder incentivos fiscais. Foi o que fez o governo federal para que a Fiat instalasse uma nova fábrica em Pernambuco. E tem mais: se bobearmos, países como o México ficarão com as montadoras e nós ficaremos a ver navios. Lá a legislação trabalhista é muito permissiva. O México é a segunda economia da América Latina, depois do Brasil. O país tem grandes investimentos no Brasil nas áreas de linha branca, construção civil, telefonia celular, etc. Conclusão: ruim com as montadoras, pior sem elas.
Não se trata apenas dos “cabeças de planilha”. O problema é a atitude servil e subserviente da velha classe média esclerosada, das elites(?)econômicas colonizadas, seus pusilânimes representantes políticos e sua mídia reacionária anti-nacional. Enquanto essa mentalidade perdurar, continuaremos sendo um país de 5ª classe. E isso inclui, é evidente, a justiça estamental-putrefata do país.
O problema é que a indústria automobilística é uma das maioras geradoras de empregos indiretos na economia. A cadeia produtiva é muito diversificada e gera empregos para os novos e usados. Quando há crise, eles colocam a “faca no peito” do Governo. O governante não pode ficar intimidado e deve exigir a contrapartida em manutenção de postos de trabalho. Uma possível saída seria o incentivo do Estado à produção de material ferroviário pois ajudar a melhorar a desorganização crônica das cidades. Como existem muitos projetos de trem e metrô em expansão devido à Copa, seria uma boa hora para o Governo exigir altos índices de nacionalização no setor. Infelizmente, o desgoverno tucano de SP pôde agir como quis e comprou trens 100% importados da Alstom, e daquele jeito que apenas os leitores dos “blogs sujos” ficaram sabendo.
Atitude servil, classe média esclerosada, elites econômicas, mídia reacionária, justiça estamental-putrefata. De que sarcófago saiu essa múmia com cheiro de nafitalina?????
Sempre digo que o Brasil não possui empresários, mas sim, donos de empresas.
Os ditos empresários brasileiros só fazem negócios com as esferas de Governo, não trabalham para o mercado consumidor. Os ditos empresários, não fazem acordo com universidades para desenvolvimento ou criação de produtos, preferem pagar royalties; não querem correr os riscos do negócio; não tem capacidade administrativa, agressividade comercial e não vão além das fronteiras brasileiras.
Bem, tratando do setor automobiístico, constatamos que temos o plástico, o aço, os engenheiros e técnicos e toda a tecnologia para produzir veículos de qualidade, porém não temos “empresários” dispostos para tal fim.
Hoje vemos o mercado mundial agressivamente disputado por coreanos, japonese, chineses e outros, porém não me consta que algum destes povos haja inventado o automóvel. Eles se arriscaram no mercado fazendo cópias para o mercado interno e com o apoio governamental tornaram-se grandes produtores.
E aqui no Brasil ? NADA
É verdade que sempre tivemos governantes incompetentes, corruptos, dissociados da população e que atendiam às elites de São Paulo, Rio e mais alguma coisa por aí.
Nunca tivemos governantes que pensassem o Brasil atual e o do futuro.
O Brasil tem, com certeza absoluta, capacidade de produzir automóveis e caminhões, bem como motocicletas, de excelente qualidade, porém não temos “empresários” nem Governo que os apoie.
Triste Brasil, um eterno importador.
É necessário o taxamento sobre os lucros que essas empresas enviam ao estrangeiro. Também seria necessário que se cobrasse das mesmas a inclusão em todos os veículos produzidos (em toda a série) de equipamentos e dispositivos que diminuissem os índices de poluição.
As indústrias automobilísticas deveriam produzir automóveis no Brasil e não as carroças que eles vem produzindo atualmente (além de carroças, carroças com preços super majorados).
E mesmo assim eles ainda lucrariam com o Brasil.
O Marcelo lembrou bem a necessidade de termos as montadoras, contudo estamos pagando o carro mais caro do mundo, mesmo retirando os impostos. A indústria de peças tornou-se internacional e remete lucros. O Brasil precisa exigir mais de quem vem prá cá.
E o pior, a maioria de nossos carros continua saindo de fábria sem airbags. Quantas pessoas morrem por causa dessa ganância das empresas e incompetência do governo?
é por esta e por outras que é difícil defender o PT. Ora, se a remessa de lucros para o exterior está exorbitante, o governo deveria taxar esta remessa ou até impedir que se envie os lucros para fora do país. Se, por causa disto, as mosntadoras quiserem sair do pais, “a porta da rua é serventia da casa”, como diz no interior. Mesmo que isto vá causar grande desemprego tanto nas montadoras quanto nas industrias que alimentam toda a cadeia produtiva na montagem e venda dos carros (fábricas de auto-peças, revendas e etc.), isto é preço pequeno a pagar para deter o envio de dinheiro para o exterior. Além das montadoras, talvez fosse necessário se proibir a remessa de divisas em todos os ramos de negócios, sejam industriais, agro-negócio e bancário. Se todas as empresas quiserem ir embora, que vão, nós sabemos muito bem nos cuidar sozinhos.