Herança da escravidão: a maior desgraça

publicada sexta-feira, 04/03/2011 às 12:08 e atualizada sexta-feira, 04/03/2011 às 16:31

Três séculos de escravidão vincam até hoje os comportamentos da sociedade brasileira

Três séculos de escravidão vincam até hoje os comportamentos da sociedade brasileira

A maior desgraça
por Mino Carta, na CartaCapital

Escrevi certa vez que se Ronaldo, o Fenômeno, se postasse na calada da noite em certas esquinas de São Paulo ou do Rio, e de improviso passasse a Ronda, seria imediata e sumariamente carregado para o xilindró mais próximo. Digo, o mesmo Ronaldo que foi ídolo do Brasil canarinho quando adentrava ao gramado. Até Pelé, creio eu, nas mesmas circunstâncias enfrentaria maus bocados, embora se trate de “um negro de alma branca”.

Aí está: o protótipo do preto brasileiro, o modelo-padrão, está habilitado a representar e orgulhar o Brasil ao lidar com a redonda ou ao compor música (popular, esclareça-se logo), mas em um beco escuro­ será encarado como ameaça potencial. Muitos, dezenas de milhões, acreditam em uma lorota imposta pela retórica oficial: entre nós não há preconceito de raça e cor. Pero que lo hay, lo hay. Existem provas abundantes a respeito e a reportagem de capa desta edição traz mais uma, atualíssima. Na origem, obviamente, a escravidão, mal maior da história do Brasil.

Há outros, está claro. A colonização predatória, uma independência sequer percebida pelo povo de então, uma república decidida pelos generais, avanços respeitáveis enodoados por chegarem pela via da ditadura de Vargas. E o golpe de 1964, último capítulo do enredo populista comandado por uma elite que, como diz Raymundo Faoro, quer um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo. Enfim, um esboço de democratização pós-ditadores fardados ainda em andamento.

A desgraça mais imponente são, porém, três séculos de escravidão e suas consequências. A herança da trágica dicotomia, casa-grande e senzala, continua a determinar a situação do País, dolorosamente marcada pela desigualdade. Há quem pretenda que o preconceito à brasileira não é racial, é social, mas no nosso caso os qualificativos são sinônimos: o miserável nativo não é branco.

A escravidão vincou profundamente o caráter da sociedade. De um lado, os privilegiados e seus aspirantes, herdeiros da casa-grande, e os empenhados em chegar lá, e portanto ferozes e arrogantes em graus proporcionais. Do outro lado, a maioria, em boa parte herdeira da senzala, e portanto resignada e submissa. De um lado uma elite que cuidou dos seus interesses em lugar daqueles do País, embora o Brasil represente um patrimônio de valor inestimável, de certa forma único. Do outro, a maioria conformada, incapaz de reação porque, antes de mais nada, tolhida até hoje para a consciência da cidadania.

O povo brasileiro traz no lombo a marca do chicote da escravidão que a minoria ainda gostaria de usar, quando não usa, e não apenas moralmente. Aqui rico não vai para a cadeia, superlotada por pobres e miseráveis, e não se exigem desmedidos esforços mentais para localizar a origem dessa situação medieval. Trata-se simplesmente de ler um bom, confiável livro de história.

Será possível constatar que afora o devaneio de alguns poetas e a reflexão de alguns pensadores, o maior problema do Brasil, a desigualdade gerada pela escravidão, nunca foi enfrentado com o ímpeto e a determinação necessários. Nos anos de Lula, agredido por causa do invencível preconceito pela mídia nativa, na sua qualidade de perfeita representante dos herdeiros dos senhores de antanho, a questão foi definida com nitidez. Mas se o diagnóstico foi correto, os remédios aviados foram insuficientes. Poderia ser de outra maneira? Melhorar a vida das classes mais pobres não implica automaticamente a conquista da consciência da cidadania, que há de ser o objetivo decisivo.

CartaCapital
confia na ação da presidenta Dilma e acredita que seu governo saberá dar prosseguimento às políticas postas em prática pelo antecessor e empenhar-se a fundo no seu próprio programa de erradicação da miséria. Sem esquecer que o alvo principal fica mais adiante.

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3 Comentários

3 Comentários para “Herança da escravidão: a maior desgraça”

  1. Emespiri disse:

    Triste realidade brasileira, que tem orgulho de ser brasileiro, mas que não consegue abrir a boca para exigir. A blogosfera aliada da presidenta está celebrando o novo salário como vitória do poder de articulaçao politica da Dilma, e resaltando o novo reajuste do Bolsa-familia. Posso até admitir a minha falta de savoir-faire politico, mas a presidenta sequer se manisfetou sobre o aumento dos parlamentares, o que pra mim é imperdoavel. Em qualquer outro lugar do mundo isso faria uma revolta popular !

    Fica a sugestão: vamos ameaçar essa gente ! Nas próximas eleições, não vamos votar no Tiririca: Vamos anular o voto para os parlamentares.

    Porque ser cristão é saber que não se pode conseguir uma sociedade justa com meios injustos (Jacques Ellul).

  2. fabio nogueira disse:

    Um assunto tão sério,um debate tão importante sendo tratado de maneira tão leviana.

    A nossa sociedade é sustetada por vários alicerces como o machismo,o preconceito racial,patriarcal e homofóbico.Enquanto não houver um debate claro sobre esses assuntos ainda caminharemos e formaremos os nosso jovens com esses sustentacúlos,então ouviremos as mesma redivicaçoes de sempre ou leremos besteiras com do leitor acima.

  3. celio nunes disse:

    Enquanto juntamos um milhão de brasileiros (boa parte no limiar da miséria e pobreza) em um bloco de carnaval (blocos de rua nas grandes capitais, por exemplo) embaixo de sol torturante em troca de nenhuma conquista sólida para o nosso País e nossas Vidas, os franceses juntaram uma multidão recentemente para protestar pacificamente porque o governo francês pretendia aumentar em dois anos o tempo requerido para a farta e justa aposentadoria francesa.

    Acho que um dos maiores problemas do Brasil começa em nós: estupor e falta de cidadania.

    Paremos de culpar os ”outros” e olhemos para os nossos umbigos.

    Tenhamos a coragem de admitir que elegemos sempre os mesmos políticos que comprovadamente cometeram irregularidades. Ou Elegemos Prefeitos, Governadores e Parlamentares porque são bonitos, são ‘amigos de amigos’ ou engraçados. Ou talvez porque jogou no nosso time de futebol.

    Tenhamos a coragem de admitir que não utilizamos os remédios constitucionais e legais (ação popular, ação civil pública, mandado de injunção etc) para contestar alguma decisão dos Tribunais que não nos atenda.

    Tenhamos a coragem de admitir que podemos conceder milhões de votos por telefone aos ‘personagens patéticos e artificiais’ do BBB e ainda dar dinheiro à Rede Globo, mas não assinamos abaixo assinados que protejam nossos direitos, nem exigimos por e-mail e movimentos públicos pacíficos que nossos representantes no parlamento votem de acordo com os interesses e direitos do cidadão.

    Tenhamos a coragem de admitir que criamos uma cultura de reclamar de tudo,

    e não fazemos efetivamente nada para utilizarmos do poder e soberania pública, que são unicamente nossas.

    Vamos acordar Brasil!

    http://www.myzentado.com/

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