Kassab e a vaia educativa na festa do PT

publicada segunda-feira, 13/02/2012 às 16:09 e atualizada segunda-feira, 13/02/2012 às 16:17

Por Renato Rovai, no Blog do Rovai

O PT não é o maior partido político brasileiro à toa. Nele, entre outras coisas, as lideranças nem sempre falam a mesma língua, o que faz com que em muitos momentos para se chegar a uma posição seja necessário um amplo debate.

A última demonstração dessa vitalidade foi a vaia a Kassab na festa dos 32 anos do partido. Engana-se quem acha que a vaia foi da base. Nessa festa estavam apenas os “graduados”. E mesmo com Lula defendendo a tese de que o PT deve fazer um acordo com o prefeito de São Paulo, isso não impediu uma reação que em alguns casos poderia entendida como uma “falta de educação”. Nesse caso não. A vaia foi educativa. Mostrou que  partidos não precisam e não devem ser instituições monolíticas.

Há muitas lideranças do PT em São Paulo (diria que hoje a  maioria) que estão incomodadas com a aproximação que está sendo tentada com o atual prefeito. Mesmo assim Lula tem insistido na tese de que a fissura entre Kassab e o tucanato é a maior oportunidade que o partido já teve para conquistar não só a prefeitura da capital, mas também o governo do estado em 2014.

Os debates internos estão sendo intensos e os disparos de Berzoini e Marta Suplicy via twitter foram propositais e visavam alertar a militância de que não existe uma opinião uníssona da “cúpula” neste tema.

A vaia a Kassab se insere nesta lógica. As lideranças petistas de todo o Brasil que foram à festa dos 32 anos e ajudaram a apupar o prefeito disseram que são contra a aliança. E que esse assunto não vai ser resolvido na carteirada. Conversando com alguns deles que estavam na festa, o que mais se repetiu é que “reconhecem a liderança e a importância de Lula”, mas consideram que “divergir do ex-presidente também é algo natural e ajuda a fortalecer o partido enquanto instituição”.

Se os articuladores do convite a Kassab para a festa do PT achavam que esse fato poderia ajudar na quebra de gelo entre as partes, se deram mal. Ao invés de quebrar o gelo, o convite ajudou a azedar o leite. A partir dessa vaia os que se posicionam contra o acordo vão se sentir mais à vontade para discordar de Lula. Porque sentiram que não são a minoria. Ao contrário.

A festa de 32 anos certamente vai ficar marcada por este fato. Pela vaia ao prefeito paulistano. Se a vaia vai modificar o rumo das articulações, isso é outra história. Até porque o que este blogue tem ouvido é que um acordo com Kassab pode vir a ser feito de forma não explícita.

A base do prefeito em São Paulo tem vários partidos da base do governo Dilma em Brasília. Entre eles, o PCdoB e o PSB. Seria muito difícil para um petista ser contra um vice do PSB para Haddad. Isso poderia ser uma saída para os dilemas do acordo.

O prefeito parece estar disposto a não ser parceiro de Alckmin nesta eleição. A não ser que o governador apoie Afif. O que parece hoje algo descartado.

Kassab também não está disposto a apoiar Chalita, porque o considera o candidato de Alckmin, principalmente se o PSDB sair com Andrea Matarazzo.

Por isso a aproximação com o PT passa a ser uma saída real. Até porque o PT tem o governo federal. E esse talvez seja o alvo do atual prefeito para o futuro. Conseguir uma participação para o seu PSD no ministério de Dilma. Quem sabe, um cargo para ele mesmo. Que sem o mandato ficaria completamente sem poder.

Nos partidos que não são nem de direita, nem de centro e nem de esquerda ficar sem poder é algo mortal. Sem a caneta este tipo de político tende a desaparecer. Serra que o diga.

Leia outros textos de Outras Palavras

20 Comentários

20 Comentários para “Kassab e a vaia educativa na festa do PT”

  1. Zé Carlos disse:

    Interessante. Mas a aliança sai ou não? Se sair o aprendizado da vaia é que o PT chia, faz o “teatro dos indignados” e… ?

  2. Zé Carlos disse:

    e… faz um governo ambíguo, vacilante e que por vezes não se distingue como o PT que os petistas da net configuram.

    Essa conversa de “vale tudo”pelo poder mostra que o PT se enfraquece a cada “aliança” dessas. Quer dizer, se enfraquece como o PT que um dia existiu e hoje quase não se nota diferença. Sö na ilusão (inocente ou não) de alguns.

  3. C.L. Dias disse:

    É claro q mudou Zé…por outro lado,gosto sempre de lembrar Meste Faoro(Raymundo)-ele insistia q o PT tbém precisava,internamente,de um “centro”…e n era “espírita”(e olhe q sou simpatizante…do espiritismo,Zé!).

  4. bentoxvi-osanto disse:

    Vianna.

    Somos todos gregos.

  5. Paulo Ribeiro disse:

    O mundo mudou em 32 anos e o PT precisa acompanhar estas transformações. Sábio, o presidente Lula mais uma vez sai na frente e lança uma composição que ira por fim ao nefasto tucanato que há anos destrói o estado de São Paulo. De nada a adianta olhar para o retrovisor e ficar preso a velhos paradigmas. Kassab foi eleito democraticamente pelo povo de São Paulo e tem feito uma administração de altos e baixos. Por que não convida-lo para a uma aliança nas próximas eleições municipais. Até não muito tempo atrás, tinhamos restrições ao nome de Paulo Maluf e hoje somos obrigados a concordar que ele tem se comportado como um leal companheiro, ao contrário de oportunistas que abandonaram o partido em busca de ambições pessoais. Portanto, seja bem vindo companheiro Kassab. Una-se a um partido que que há 32 anos jamais traiu seus ideais. Traga para nós a sua experiência e, ao lado de Fernando Haddad, ajude São Paulo a crescer e melhorar a vida de seus moradores.

    • Esse tipo de “ideologia” é que está empurrando o PT cada vez mais à direita. Enquanto Cristina Kirchner governa com apoio dos sindicatos e movimentos populares, o PT governa se apoiando na base “aliada”. Trata-se de um caso típico de síndrome de Estocolmo.

    • ricardo simoes disse:

      Eu me envergonho de comentários como este. OPT tem que evoluir e parar de olhar o retrovisor? O Maluf um companheiro leal??? Kassab em altos e baixos? Meu caro, você não mora em São Paulo, só pode ser isto.

      Continuo com a frase do meu primo, um poeta que não me envergonha: o pragmatismo é escorregadio feito os pitus da lagoa!!!

      É inadimissível uma chapa com o pior prefeito da história, racista, corrupto, assassino de pobre!!!

      Como fazer campanha tendo ao seu lado um ser humano que se utiliza de incêndio em favela como uma política pública de urbanização? Alguém que terceirizou o planejamento do uso e ocupação do solo ao setor imobiliário? Alguém que não investe em nada que seja relativo ao transporte público? Alguém que militarizou o comando das subprefeituras? Alguém que armou a guarda civil pra perseguir trabalhadores informais?
      Como??????

  6. Kassab tem um índice de rejeição gigantesco e sua administração tem um grau de reprovação que o habilitam ao prêmio de pior prefeito que São Paulo já teve.

    Aliar-se com ele, além de ser anti-ético, é burrice.

  7. Ao aliar-se com Kassab, o PT concorda, implicitamente, com as ações da prefeitura: aumentos aburdos da tarifa de ônibus, administração voltada para os bairros ricos, agressões contra os moradores de rua, descaso com o transporte coletivo, privilegiando o automóvel.

  8. Daniel M. Fernandes disse:

    Agora vaia é algo educativo. Veja bem, isso é mais um esforço do gv federal e do PT para promover a educação de qualidade e a justiça social.

  9. ROGER - BELO HORIZONTE disse:

    Rodrigo, parabéns pelo seu blog!

    Acho que a aliança deve ser feita. Lula para se eleger precisou se aliar a Sarney, Renan e outros políticos mal falados, que, sejamos honestos, foram muito leais a ele. Governou o país por 8 anos e promoveu avanços para o povo e a sociedade. Então acho que na cidade de São Paulo tem que haver essa aliança com a direita para reduzir a resistência que os paulistas têm ao PT.

  10. ricardo simoes disse:

    Já que é pra ser pragmático, por que o PT não busca aliança com o Serra, tão mal tratado no tucanato? Ele é um homem muito bem quisto aqui em são Paulo, tem história na política… que tal? De repente até a Soninha pararia de falar mal do PT… O PT tem que se desprender do passado, afinal, a conquista do município e depois do governo é uma causa maior, acima de qualquer ideologiasinha boba, não?

  11. Cláudio Freire disse:

    Rodrigo, mas esse cenário muda totalmente se o candidato do PSDB for o Serra. Gostaria de ver também sua análise caso isto ocorra.

  12. Alexandre disse:

    Onde o Lula vê vantagem em se apoiar num prefeito que deixou a cidade às moscas e sai com um grande índice de rejeição? Está sendo saudável essa reação de boa parte do partido, nem tudo que vem do Lula, apesar da sua importância, é divino e incontestável. A política como fim em si mesma não justifica esse pacto com o tinhoso.

  13. Luís CPPrudente disse:

    Eu não sou petista e tenho vergonha dessa aliança entre o PT e o fascista Kassab. Considero que o PT não precisa se aliar a esse prefeito fascista para ganhar a eleição. O Brasil também não precisa de nenhum ministro do PSD, que o Kassab perca a caneta e suma.

    Quanto ao PSD, ele continuará sendo um partido direitista e reacionário, cuja maioria saiu do PFL. Ter o PSD como aliado nos momentos cruciais é a mesma coisa que não ter aliado.

    É bom o Governo Federal não confiar muito no PSD para não ter surpresas desagradáveis.

    Mas, então eu pergunto: Cadê a CPI da Privataria Tucana?

    PT e PCdoB, vocês estão querendo enterrar a CPI da Privataria Tucana?

  14. Antonio disse:

    Se o Lula insistir nessa história, vamos espernear. O PT não é de Lula, mas de vasta parte da sociedade brasileira e paulista. E grande parte dessas pessoas não admite Kassab como aliado. Ele é tudo o que não queremos para São Paulo e para o Brasil. Essa aliança, no mínimo, é nojenta e indecorosa.

  15. genilson disse:

    KASSAB não é aquele que fundou um partido com titulos eleitorais de defuntos?

  16. Mardones Ferreira disse:

    Essa aliança é mesmo que o PT de Salvador buscar aliança com ACM Neto ou Imbassahy. É mais uma guinada do PT do centro para a direita.

    Em tempo, gostaria que Rodrigo Vianna tratasse do preço do metrô em Buenos Aires e em São Paulo. Vamos levantar o debate?

    Por que em Buenos Aires a tarifa é tão acessível?

  17. Bem, agora o cenário está se definindo:

    Serra foi forçado a aceitar ser candidato a prefeito.

    Kassab, o ex-quase-”aliado” do PT, foi correndo para os braços de seu padrinho.

    O PT cometeu um grave erro ao aventar a possiblidade de aliar-se com esse sujeito, que é de extrema-direita. Foi por erros como esse que ocorreu o golpe de 1º de abril de 1964.

  18. Alvaro Ribeiro de Oliveira Neto disse:

    Enfraquece tanto, que tem a Dilma como presidente da república fazendo um dos melhores governos que o Brasil já teve, na sequência do de Lula.Estamos prosperando, isso sim!
    O PT poderá começar a se enfraquecer se ajudar a enterrar a CPI da Privataria. Nesse caso e, somente nesse caso, precisaríamos repensar o PT…

Comentar