Malvinas marcou queda da ditadura na Argentina

publicada quarta-feira, 04/04/2012 às 11:49 e atualizada quarta-feira, 04/04/2012 às 17:51

Por Luciana Taddeo e Roberto Almeida, do Operamundi

Aqueles dias de abril e maio são lembrados até hoje por muitos habitantes das províncias litorâneas do sul argentino. Os que eram crianças, menos, mas sempre com o discernimento de que passaram a vivenciar uma estranha rotina ao longo daqueles meses em que, durante as noites, os carros quase não circulavam e, quando o faziam, tinham os faróis tapados com fita opaca isolante, deixando somente um centímetro de abertura, para a saída de um rastro de luz.

Às vezes no meio das aulas, soava um alarme que sinalizava o início das simulações de evacuação, bem parecidas às vistas em escolas japonesas para terremotos. Cada criança tinha sua tarefa definida, como desligar o aquecedor a gás, antes de se enfiar debaixo das cadeiras, ou ser levada, com os demais, para o porão da escola. Todos sabiam o que deveriam fazer no caso de um bombardeio inglês ao território argentino, naquele ano de 1982, o da Guerra das Malvinas.

O cenário mais atípico foi visto em Río Gallegos que, segundo relatos, “parecia uma cidade fantasma”. Por ser um dos pontos do continente mais próximos às ilhas Malvinas e abrigar a base de onde decolavam constantemente aviões que atacariam as frotas inimigas no Atlântico Sul, o município era visto como o principal alvo caso os ingleses decidissem atacar a Argentina para tentar definir a guerra.

Com a cidade completamente às escuras, o limite territorial não seria identificável. As cidades vizinhas também se uniam ao operativo, que passava a ser menos exigido, como um exercício intermitente, nas cidades mais distantes de Río Gallegos, tanto para o extremo sul como para o norte.

Enquanto neste ponto do mapa a tensão foi inserida na rotina da população, em Buenos Aires o clima era mais festivo – pelo menos no começo da guerra.

Quando em 2 de abril correu a notícia de que os soldados conseguiram desembarcar nas ilhas, içando a bandeira celeste e branca, uma multidão inimaginável tomou conta da Praça de Maio para aclamar ao general Leopoldo Galtieri, então presidente da ditadura militar argentina (1976-1983). Em um entorpecimento nacionalista, bandeiras eram agitadas e uma massa humana saltava do chão aos gritos de “quem não pula é inglês” e “viva a pátria!”.

Ao longo dos dias, bandeiras foram penduradas nas varandas de inúmeros edifícios, colorindo a capital argentina de azul e branco. Oito dias depois da primeira comoção popular da praça celebrando a guerra, Galtieri discursou novamente para o público que se reunia em frente à sede do governo, alentando a euforia popular, com as famosas palavras: “Se quiserem vir que venham, que apresentaremos batalha”.

Crise de autoestima
Às 9h45 daquele 2 de abril, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher já informara seu gabinete de que uma invasão às Malvinas era iminente. Desde janeiro daquele ano, os governos de Reino Unido e Estados Unidos, do ex-presidente Ronald Reagan, mantiveram laços estreitos nas negociações com Galtieri – sem êxito. A Operação Rosario, codinome para atacar a guarnição das ilhas, estava em curso.

No fim daquela tarde, a população britânica recebia as primeiras notícias da tomada das Malvinas, às quais denominam como Falklands. Mesmo que muitos nem soubessem onde ficavam as ilhas – incluindo membros do alto escalão do governo e do exército – uma foto foi o bastante para despertar a ira dos britânicos. Nela, oficiais argentinos mantêm deitados, de barriga para baixo, um grupo de fuzileiros da realeza.

Despertar a ira dos britânicos no início da década de 1980 era tarefa simples. Thatcher, que assumira o mandato há três anos, via seu país passar por uma profunda crise econômica e social – e especialmente de autoestima.

No verão de 1981, o Reino Unido assistiu, pasmo, a uma série de graves distúrbios em 40 cidades. O mais famoso, em Brixton, sul de Londres, é comparado aos distúrbios que eclodiram na capital britânica no ano passado. Carros e edifícios queimados eram cenário de uma cidade tensa, que implodia após forte fricção racial.

Em janeiro de 1982, o número de desempregados passou pela primeira vez da marca de três milhões e Thatcher balançava no cargo. Sua situação era cada vez mais delicada até que as Malvinas, antes vistas como uma relíquia esquecida e incômoda do império britânico, tornaram-se uma boia de salvação.

Em 3 de abril, 24 horas após a Argentina de Galtieri ter tomado as Malvinas, a Dama de Ferro perdeu seu secretário de Relações Exteriores, Lord Carrington, que decidiu renunciar. No fio da navalha, Thatcher decidiu lançar a Operação Corporate: mobilizar as tropas e expulsar os argentinos. Oficiais do exército, que estavam se preparando para passar o feriado de Páscoa com familiares, tiveram de deixar os planos para trás e embarcar para uma guerra a 13 mil quilômetros de casa.

Nacionalismo contra crise
Além das concentrações multitudinárias na Praça de Maio, a população argentina passou a hostilizar qualquer referência à terra da monarca Elizabeth II na capital do país. Um dos vitimados por representarem o “inimigo” foi o histórico Bar Británico, em Buenos Aires, na esquina das ruas Defensa e Brasil, cujas vidraças foram apedrejadas. Apesar de pertencer a espanhóis, o bar teve as três primeiras letras de seu nome suprimidas e se camuflou temporalmente sob pseudônimo “Bar Tánico”.

A eclosão nacionalista parecia ser a salvação para os problemas internos da Argentina, gerados por uma intensa crise econômica, falta de apoio a Galtieri e crescente descontentamento popular com a repressão. Pressionados internacionalmente por milhares de denúncias de violações aos direitos humanos contra civis, os militares no poder transformam a permanência da ditadura em uma questão de soberania nacional.

Até mesmo opositores, que apenas três dias antes participaram da primeira grande manifestação massiva contra a ditadura, na qual cerca de 50 mil pessoas pediam “Paz, pão e trabalho”, naquela mesma Praça de Maio, aderiram às comemorações pela recuperação das Malvinas, então ocupada há 150 anos pelos ingleses.

Se as reivindicações argentinas representaram, nos anos anteriores à guerra, uma ameaça de incursão nas ilhas do Atlântico Sul pelo regime militar, o início imediato do operativo não era esperado pelos britânicos. Mesmo com o anúncio da contra-ofensiva inimiga, que acabou recebendo o apoio da ONU e do governo de Reagan, a euforia popular e a solidariedade com os “heróis” que partiram do continente “em apoio à pátria”, eram crescentes.

Propagandas governamentais eram veiculadas por rádio, TV e jornais, destacando como o país caminhava rumo à vitória. Mobilizada, a população doava dinheiro, jóias e alimentos para ajudar aos jovens combatentes enviados às ilhas, junto a cartas de apoio e agasalhos tricotados voluntariamente em milhares de casas nas diversas províncias do país. Soube-se mais tarde que a maioria das doações nunca chegou ao seu destino final.

Cartada arriscada
Com graves problemas de logística, em virtude da distância, os britânicos usaram como base intermediária a ilha de Ascensão, no meio do Oceano Atlântico, a cinco mil quilômetros das Malvinas. Thatcher sabia que, sem superioridade aérea e a 650 quilômetros do continente inimigo, perderia navios. Foi o que aconteceu.

Os pilotos argentinos, classificados como “bastante audaciosos” pelo exército britânico, controlavam os céus das Malvinas e faziam usos de mísseis franceses Exocet, dedicados a romper cascos de navios de guerra. Assim foram a pique o destroyer HMS Sheffield e o navio mercante Atlantic Conveyor, também causando danos graves ao destroyer HMS Glamorgan.

Entre veteranos britânicos, é comum ouvir que a guerra começou de fato quando o HMS Sheffield afundou vítima do Exocet. E que, apesar de melhor preparados que os argentinos, cujas tropas eram formadas majoritariamente por recrutas, as dificuldades logísticas na ilha foram terríveis e as batalhas, tortuosas. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial foram usadas baionetas para duelos corpo a corpo.

A cartada de Thatcher era, portanto, muito mais arriscada do que imaginavam. Mas o tempo fechou, os caças Harrier entraram em operação, bloqueando o avanço dos aviões argentinos, o que possibilitou o arriscadíssimo desembarque das tropas britânicas em Porto San Carlos, na costa oeste da ilha principal.

Os agrupamentos caminharam mais de 80 quilômetros, em uma empreitada traumática no frio das Malvinas, até Porto Stanley, sede do governo britânico, chamado de Puerto Argentino pelos argentinos. As batalhas nos arredores da cidade foram cruciais e deixaram centenas de mortos.

Mas a grande polêmica da guerra foi o torpedeamento do General Belgrano, navio argentino que estava fora da zona de exclusão da guerra e rumando para noroeste, ou seja, saindo da área de combate em direção ao continente. O agravante é que o Belgrano foi atingido por um submarino nuclear horas depois de um novo plano de paz ter sido oferecido pelo governo peruano e pela ONU. Morreram 323 pessoas. O tablóide The Sun usou a polêmica manchete ‘Gotcha’, dizendo que os britânicos tinham colocado “os argentinos de joelhos”.

A Guerra das Malvinas só acabou mais de um mês depois, em 14 de junho de 1982, com a tomada de Porto Stanley. Em 74 dias, morreu um total de 907 pessoas. Tombaram 649 argentinos, 255 britânicos e três mulheres civis, atingidas, segundo relatos, por fogo amigo. Com a autoestima do ex-império recuperada, Thatcher permaneceu no poder até 1990, muito em virtude do sucesso da operação. Entre analistas, é notável o reposicionamento do Reino Unido no jogo global depois da guerra.

Enquanto os veteranos britânicos foram recebidos com pompa, soldados argentinos entraram no país quase escondidos pelas Forças Armadas e foram alvo de desdém. Eram mais de 11 mil prisioneiros sobreviventes deportados de volta ao continente. A alegada irresponsabilidade da operação aumentou o desprestigio da junta militar, que dois dias depois inicia uma transição à democracia.

O fracasso argentino nas Malvinas também adianta a queda de Galtieri, removido do cargo no dia 18 de junho, apenas quatro dias depois do fim da guerra. Meses mais tarde, já com o general Reinaldo Bignone no poder, o regime ainda sente o peso da rejeição popular e acaba convocando eleições presidenciais para outubro de 1983. Era o fim do pesadelo argentino dos anos de chumbo.

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1 Comentário

Um comentário para “Malvinas marcou queda da ditadura na Argentina”

  1. Mello disse:

    “Há 40 anos…”?

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