Muito além da Bahia; PM deve ser repensada

publicada quinta-feira, 09/02/2012 às 10:04 e atualizada sexta-feira, 10/02/2012 às 11:55

Por Matheus Pichonelli, da CartaCapital

Em pouco mais de uma semana de mobilização, a crise da Segurança Pública na Bahia colocou policiais estaduais contra forças federais, cercou o coração do sistema político local (a Assembleia Legislativa), levou insegurança às ruas e, sobretudo, mais do que dobrou as taxas de homicídio da região. São mais de 130 mortos desde o início da paralisação da Polícia Militar.

Quem acompanha a greve dos policiais militares da Bahia, que na quinta-feira 9 completa seu décimo dia com impasse, tem a sensação de que o filme é o mesmo. Mudam-se os nomes, os líderes e a localidade, mas a demanda é sempre igual. De um lado, policiais pedindo valorização. De outro, governantes asfixiados pelos limites orçamentários.

A sensação de deja vu deixa claro que o problema não está no colo apenas das lideranças grevistas ou do governador baiano Jaques Wagner (PT). “Há um componente local: o momento exato em que está acontecendo, às vésperas do Carnaval, e a forma de negociação dos dois lados. Mas o componente geral é evidente: não é a primeira greve policial, porque já tivemos três no Nordeste”, afirma Eduardo Paes Machado, especialista em Segurança Pública e Violência Urbana e Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo ele, a greve aponta para a discussão sobre o próprio modelo, tamanho e funcionamento da polícia no Brasil.

“Essas greves são um cataclismo. Se fosse medida como um terremoto, teria mais de sete graus (na escala Richter)”, sentencia. “A perda de vidas, de horas trabalhadas, o aumento irreversível da situação de segurança…Tudo se aprofunda. E não é uma sensação de insegurança nova. Na Bahia, é um Estado de sítio interno.”

Segundo ele, a situação só não é pior porque, em meio a tantas baixas, um avanço nos últimos anos minimizou o problema: a intervenção da Força Nacional de Segurança, idealizada pelo governo FHC e criada por Lula, nas recentes crises de segurança pelos estados.

De acordo com o sociólogo Renato Sergio de Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para entender a crise atual é necessário buscar explicações desde a elaboração da Constituição, em 1988 – que previa a elaboração de uma lei de regulamentação do funcionamento da segurança no País. A norma jamais saiu da carta de intenções.

Segundo o especialista, o que está em jogo na atual crise na Bahia é um modelo de segurança caro e ao mesmo tempo falido. “É verdade o que dizem os governadores: não há recursos. União, Estados e municípios gastam, anualmente, 48 bilhões de reais em segurança pública. É cerca de 1,36% do PIB, o mesmo que a França. E ainda assim temos taxas altas de violência, de letalidade, temos insegurança e péssimos salários”, resume.

A atual crise é perigosa, segundo ele, porque há chances se alastrar. A demanda é a mesma em outros lugares: melhora salarial. No Rio de Janeiro, Alagoas, Pará, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul, há mobilizações semelhantes às da Bahia e podem resultar em breve em crises da mesma proporção.

E o problema não será resolvido, aponta o sociólogo, enquanto não forem discutidas questões como a estrutura militar e civil do policiamento, a efetividade dos gastos, e as formas como os crimes são esclarecidos. “Ainda temos uma estrutura dos anos 40 do século passado, e que a Constituição de 1988 não resolveu. Está mais do que na hora”.

A discussão, aponta ele, exigirá uma articulação institucional que envolva as várias esferas do poder. “A União pode muito, mas não pode tudo. Os governadores também precisam se sensibilizar.”

Um dos temas a serem discutidos, completa Eduardo Paes Machado, da UFBA, é o próprio tamanho dos efetivos policiais. “Temos um mandato policial exorbitante, hipertrofiado. A PM de São Paulo, por exemplo, tem o tamanho de um exército. A partir de 15 mil (soldados, a corporação) é ingovernável. A Bahia tem 30 mil. Eficiência não é tamanho. É a melhoria do relacionamento da população.” E exemplifica: “Os americanos optaram por um modelo com pequenas forças policiais.”

Um dos desafios da crise atual, diz Sergio de Lima, é a radicalização do próprio movimento, muitas vezes flagrado com armas em punho em manifestações públicas. “Quando reivindicam, eles subvertem a lógica que deveriam preservar. Simbolicamente é grave, e devemos evitar.”

A radicalização, segundo Eduardo Paes Machado, parte de um movimento recente, que ele denomina “sindicalismo policial”. “As PMs eram forças auxiliares das Forças Armadas no Exército, viviam aquarteladas, até por disciplina e hierarquia, e pouco se expressavam. Mas a atmosfera democrática chegou. E, para quem não sabia nada (de mobilização), os policiais aprenderam rápido, queimaram etapas”, analisa.

Um dos momentos lembrados pelo especialista foi uma crise da segurança enfrentada pelo governo da Bahia em 2002. Na época, ele lembra que as lideranças policiais se aproximaram dos sindicatos para aprender a tecnologia de mobilização, as formas de discussão e encaminhamento de propostas. “Eles aprenderam muito. Não sei se foi bom ou ruim, mas aprenderam a se mobilizar. E o governo aprendeu pouco. São capacidades de aprendizagem diferentes.”

O especialista completa: “um detalhe importante é que o Brasil é a sexta economia do mundo, a mobilidade está em todos os lugares e no plano econômico, mas, no plano institucional, e nos elevados índices de violência, ainda estamos aquém. A violência interpessoal vem caindo brutalmente na Europa, nos EUA principalmente, e aqui, apesar de algumas vitórias, a violência ainda é um desafio. Somos uma sociedade violenta. E o grevista reproduz isso. São grevistas dentro de uma sociedade muito violenta e que, neste caso, tem o monopólio do uso da força”.

Neste sentido, a própria discussão da PEC 300, que mobiliza policiais em vários estados por um piso salarial nacional, funciona como pano de fundo de crises locais. Segundo o especialista, pagamentos desiguais entre corporações funcionam como referências que “inspiram e justificam” mobilizações.

“De qualquer modo, fala-se pouco em contrapartida, eficiência, transparência. Vai ter maiores salários? Nada contra. Mas como isso vai redundar em aumento da dedicação do policial?”, questiona.

Leia outros textos de Outras Palavras

10 Comentários

10 Comentários para “Muito além da Bahia; PM deve ser repensada”

  1. ana disse:

    A culpa é do Senhor Deputado Arnaldo Faria de Sá (S.Paulo)
    Todos sabem que é uma ilusão unificar salário de policial
    em todos os Estados.
    Anote o nome dele, o partido que pertence e dê o troco nas
    urnas.
    A população é que está sofrendo com tantos terroristas
    vestidos de farda.

  2. Mariano disse:

    Olá Rodrigo,
    Informo que a idealização da criação da Força Nacional de Segurança Pública não é do governo FHC e sim minha, pois no inicio do governo Lula enviei através de e-mail para o Secretário Nacional de Segurança Pública a sugestão para criação da força nos moldes que existe atualmente, alías também fiz sugestão quanto a alteração da legislação para adequar o uso dessa nova força de segurança.
    Um abraço!

  3. ALVARO GONDIM PIRES disse:

    Prezado Rodrigo,
    Com relação à greve da policia militar na Bahia, gostaria de dizer que o líder do motim é filiado ao PSDB. Ninguem da grande mídia está dizendo isso. Por favor divugue.

  4. aecio disse:

    policia no Brasil nao tem credito com o povo,pq ninguem sabe se sao defensores ou bandidos de fardas, como dizem por ai sao treinados para defender os senhores de engenho e nada mais.

  5. Douglas disse:

    A greve não precisa ter data. Tem de existir. O detalhe é que o direito à greve não existe no nosso dito “estado de direito”. Passamos, de fato, por uma ditadura disfarçada. Essa é a realidade. Anistia-se os torturadores da ditadura mas taca-se o pau na PM em relação ao mesmo tema. E não houve atendado a democracia. Estavam, com excessos ou não, solicitando ou humilhando-se por um salário decente. Ora, é ser muito hipócrita querer bater mais nos trabalhadores por querer condições de trabalho e salários dignos. Os nobres deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores, etc e juízes se auto avaliam e se beneficiam em aumentar seus próprios salários. Pagos por quem? Agora é ser muita cara de pau descer o porrete na PM, nos professores, nos bancários, nos trabalhadores de um modo geral com essa demagogia de que não pode isso e não pode aquilo. Porque a justiça sempre ignora e põe os trabalhadores para correr. No fundo é isso que acontece. Tá aí, abaixo, o que falei a respeito de anistia para torturadores. Esses políticos são todos farinha do mesmo saco.

    http://www.fatoexpresso.com.br/2010/12/22/anistia-aos-torturadores-corte-da-oea-fez-o-que-stf-deixou-de-fazer/

    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/lungaretti-anistia-nao-beneficiou-torturadores-decide-oea.html

  6. cleverson disse:

    Ana, voce tem toda razao. Avisa pro Lula, que esse negócio dele ter feito piso salarial nacional de professor também é uma sacanagem. Imagine, pagar salarios iguais para profissionais que fazem o mesmo trabalho. Isso é um absurdo!
    Policial de Brasilia tem que ganhar R$4000,00 e os do Maranhao, Ceara , Bahia, tem que ganhar menos da metade.
    Faça-me o favor!
    Temos que dar um piso salarial igual a todos. Afinal, balas de AR15 fazem um buraco igual, independentemente do estado que o infeliz levou a bala.

  7. Maria disse:

    Isonomia no funcionalismo público nunca funcionou. Aceitar todos os termos dos grevistas tal como estão sendo encaminhados, aí vai ser uma desmoralização total. Imagina, no RJ, o aviso à população: ‘Fiquem em casa, evitem sair às ruas. Acendemos o estopim, se explodir, a culpa é do governador’. Assim, até flanelinha ganha aumento do governo. Se a moda pega…E olha que não sou nada fã do governador do Rio. Isso é um convite à greve geral de todos os trabalhadores. O efeito dominó vai das paralisações ao aumento irracional de reivindicações. Já a realidade é outra coisa.

  8. anneliese disse:

    isso é bobagem.É desculpa para matar o tempo e não pagar o policial.

  9. anneliese disse:

    governo devia ter vergonha.Parece que está tratando com descaso.

  10. yacov disse:

    FATO I: O direito de greve existe e todas as categorias podem fazer greve, dentro de certos limites. È o que diz a Constituição. FATO II: A PM da Bahia extrapolou de seu direito de greve e promoveu um verdadeiro motim, portanto, merecem a devida punição. FATO III: Não há porque manter uma estrutura militar como a PM para lidar com os cidadãos. Polícia tem que ser CIVIL e só. A PM é um resquício da Ditadura que não tem mais razão de ser, assim como ão tem razão de ser o monopólio das comunicaçãoes no Brasil por 5 famiglias mafiosas.

    “O BRASIL PARA TODOS não passa na glObo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”

Comentar