Centenário da torcida que é dona de um time
publicada quarta-feira, 01/09/2010 às 14:51 e atualizada quarta-feira, 01/09/2010 às 18:55
Meu filho Francisco passou a manhã hoje com o uniforme alvi-negro. Foi a nossa forma de participar da festa do Centenário, projetando para o filho a reverência paterna ao Corinthians. Aliás, ele usou a camiseta que ganhou do avô (meu pai) ainda na maternidade. A devoção alvi-negra passa de pai para filho, mais do que qualquer outra entre os times paulistas: é o que mostra pesquisa do DataFolha hoje (será que nessa podemos confiar?)
Pensei em escrever sobre o aniversário do poderoso Timão aqui no blog. Quando começava a batucar o texto, recebi o relato de Mauro Carrara. Emocionante. De alguma forma, fala por mim e por tantos outros corinthianos. Confiram…
===
O TIME DOS ANARQUISTAS, CEM ANOS DE RESISTÊNCIA
por Mauro Carrara
Há exatos 100 anos, um grupo de operários do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, praticou um ato de “desobediência civil”.
À luz de um lampião, na rua, os insurretos decidiram criar um time de futebol do povo e para o povo.
Atrevidos, decidiram que a nova agremiação não deveria se contentar com a várzea.
O plano era formar um esquadrão para enfrentar, de igual para igual, os clubes da fechada elite paulistana.
Ousados, já meteram a mão em foices para abrir uma cancha num terreno baldio, pertencente a um lenheiro do bairro.
E, no primeiro jogo, contra o União Lapa, saíram em passeata até o palco da contenda.
Mas como passeata? Passeata, sim senhor, porque essa gente era sobretudo anarquista, com a graça do bom Deus.
O primeiro presidente do clube, o ítalo-brasileiro Miguel Battaglia, por exemplo, tivera contanto com o anarcossindicalismo ao prestar serviços para a Light.
É dele a frase cândida, mas também desafiadora, que guia a nação alvinegra até hoje: “Este é o time do povo, e é o povo que vai fazer o time”.
Essa turminha do barulho lia o jornal anarquista de Gigi Damiani, o La Battaglia, que exortava os trabalhadores a fundarem suas próprias escolas e agremiações esportivas.
O time dos anarquistas não tinha bagunça. Cada um sabia das suas atribuições. Cada um assumia uma responsabilidade, conforme o que se aprendera de Bakunin e Malatesta.
E assim se estruturou. Em 1913, os meninos bons de bola conquistam o direito de participar da divisão principal do futebol paulista.
Ao mesmo tempo, o Paulistano e a A. A. das Palmeiras (nada a ver com o atual Palmeiras), enojados do cheiro do povo, se retiraram da liga e resolveram disputar um torneio paralelo.
Começava ali uma história de ódio.
A imprensa questionava a presença de um time de iletrados no mundo do chiquérrimo futebol, um jogo inventando por lordes ingleses.
Quanta petulância!
E para acirrar ainda mais os ânimos, o time dos anarquistas admitia gente de todos os tipos.
Logo agregava os negros, os mulatos, os caboclos e outros filhos da terra.
Mais um pouco e atraía também os outros segregados, polacos, libaneses, alemães, sírios, japoneses e gregos, gente que somente se entendia na alegria de torcer pelo Corinthians.
Imaginem o escândalo: um time de anarquistas, pretos, imigrantes e boêmios invadindo as elegantes festas do Velódromo.
Se o Corinthians ainda existe é por conta da brava resistência ao preconceito.
Tudo lhe foi sempre negado ou dificultado.
A mídia paulistana sutilmente construiu um estereótipo desabonador do corinthiano: é o ladrão, favelado, sem modos, sujo e vagabundo.
E mesmo criminalizado o Corinthians sobreviveu, e se fortaleceu.
E fortaleceu-se por qual motivo? Justamente porque sempre se cria um espírito de resistência solidária entre os oprimidos, ofendidos e injustiçados.
Passaram-se 100 anos, e nada mudou.
O Corinthians continua sendo alvo preferencial da mídia monopolista.
Se o grande São Paulo Futebol Clube recebe um financiamento do BNDES não há nada de errado. É a ordem natural das coisas.
Ora, mas se o banco vai financiar a “pretalhada”, os “gambás”, aí é uma vergonha.
Se a ordem é investir dinheiro público no rico bairro do Morumbi, a imprensa sorri de orelha a orelha.
Mas se a grana toma o rumo de Itaquera, na esfolada Zona Leste, já vira um caso de polícia.
Estadão, Folha, Abril, Globo, ESPN, entre outras organizações midiáticas aproveitaram para criminalizar mais uma vez a paixão de Lula pelo time do povo.
Está aí um prato cheio para colunistas políticos travestidos de colunistas esportivos: juntou o time dos anarquistas, do populacho, com o operário nordestino que se meteu a ser presidente…
Ai, não dá, né? Ainda mais quando ambos, o time e o presidente apresentam atributos que encantam o povo e, logicamente, o eleitorado.
Aqui, no Brás, os fogos espoucaram durante toda a madrugada.
Subiam dos quintais de cortiços, das janelas de apartamentos minúsculos, de ruelas esquecidas e escuras, dos lugares onde o povo do Brasil ainda resiste, invisivelmente.
Ahhh… Quanto ódio, meu Corinthians, mas quanta amorosa resistência!
Parabéns pra você!
Leia outros textos de Outras Palavras
30 Comentários





Obrigado por fazer com eu e muitos conheçam essa triste, porém linda história. Sendo carioca e botafoguense, alvinegro portanto, não poderia de felicitar ess agrande nação.
emocionante mesmo! não tem como explicar essa nossa paixão. não tem como falar, desenhar. somos corinthianos e pronto. Diferente muito de outras paixões ou outyros times. Essa história do seu surgimento diz tudo. Sofredor e marginalizado. Mas amante de um time.
Rodrigo, tudo bem?
Até descendentes de italianos 9como eu) são corinthianos. Meu dizia que “quem torce para o Corinthians são os italianos, os carcamanos preferem aquela porcaria verde”
Meu filho foi para a escola furioso! A camisa do Timão estava na casa do pai!!! De fato, é uma herança genética amar e sofrer pelo Todo Poderoso Timão!
Parabéns Timão, nós os FLAMENGuISTAS, também retratados como analfabetos, ladrões, crioulos, brancos-azedos, te saudamos, somos os heróis da resistência!!! resistimos aos que querem transformar o futebol de alegria, em coisas como a cara do dunga, do teixeira e afins!!!
valeu por existirmos!!! mais 1000 anos para nós!!
Tai um dos motivos que me faz eleitor do Lula e Corintiano desde tenra idade, ambos tem cheiro de massa (não da massa cheirosa da Cantanhede)
Alias esta leitura me lembrou o trecho de uma música de Vital Farias:
“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos”
Timão forevis, mas 100 anos para ti.
Por mais que alguem tente, jamais se conseguirá explicar o que é “ser Corinthiano”. Os outros, os “anti”, ficam com ironias, calúnias, etc. Mas no fundo, no fundo mesmo, eles têm inveja deste sentimento inigualável que nós, os loucos, nutrimos pelo Corínthians. Só posso dizer uma coisa: Meu pai éra Corinthiano, Meus filhos são Corinthianos e meus netos serão Corinthianos. Tá no sangue, no DNA. Parabéns, Corínthians
Quando foi que PT passou a significar Corinthians? Não lembro disso. Quanto à resistências, esse ano de 2010 o Corinthians não faz jus ao passado que o texto remonta, o clube está ao lado e não larga do status quo do nosso futebol. Em relação aos estereótipos, o time do parque São Jorge não é o único a poder se queixar, o antigo Palestra que teve que mudar seu nome por sua origem italiana, mais recentemente o tricolor paulista que carrega nas costas zombarias homofóbicas dos rivais. Corinthianos, não deixem o sentimento turvar suas visões, Ricardo Teixeira não é um resistente.
Bela história, contada com tanto maniqueísmo e com esse ar de fantasia, de david contra Golias então…digno de apologia no aniversário, ok. No entanto, apesar do coitadismo corinthiano (apesar de Washingtons Olivettos, Serginhos Groismans, Airtons Sennas, Lucianos Hucks e tantos outros representantes desse povo pobre e oprimido), e de todo o “cerco da mídia monopolista” (ó vida, ó azar…), o que parece ter se tornado pouco questionável, na mídia não-monopolista, são os meandros do relacionamento estreito entre Corinthians e o notório pilantra Ricardo Teixeira, especialmente após o SPFC ter votado contra ele nas eleições do Clube dos 13. Disso, e de outras picaretagens de empreiteiras nos estádios, pouco se falará, porque agora, o estádio do Corinthians vai sair…o “povão” vai ter estádio, etc. Um peso só seria bom.
conheço um otimo ortopedista…pode te ajudar com sua dor de cotovelo…
As diferenças no futebol alimentam a amizade e a torcida…hoje cedo encontrei um amigo corinthiano animado por uma vitória palmeirense contra o Flu.
Além disso, no futuro, tenho certeza que o Palmeira vai carimbar muitas vezes o Timão quando o estádio ficar pronto.. que venha o caldeirão alvi-negro.
Juntamente com a nova Arena Verde. Palpite de hoje, 2 a 1, gols de Deco, e Tinga e Kleber do lado Verde.
Agora fiquei sabrndo a razão porque o pig trata o CORINTHIANS e as vitórias corintianas com despreza!!! Mas as posições do pig não significam absolutamente nada para o povão, pois isso PT E CORINTHIAS POR MAIS MILHÕES DE ANOS!!! A. S. Braga
Acabei de descobrir que eu sou Corinthians … porca miseria…não conhecia esta história… Viva a Internet!
Deve ter sido tão dolorido para os almofadinhas do início século 20 “apanharem” daquela gentalha, como é dolorido para a turma do PIG noticiar a popularidade de Lula e os últimos resultados das pesquisas de intenção de voto para PRESIDENTA. Eu sempre explico esta história da origem do preconceito contra o Corinthians para as pessoas, mas a lavagem cerebral que os não-corinthianos (só existem duas torcidas em SP, corinthianos e anti-corinthianos) é tão ferrenha que eles nunca se tocaram disto.
parabéns, rodrigo, por nos presentear com um texto tão emocionante como esse do mauro carrara.
sou um apaixonado por futebol e sempre sugiro aos amigos a leitura do apaixonante livro “o negro no futebol brasileiro” do mário filho pra poderem tentar entender o brasil.
portanto, parabéns à fiel pelos 100 anos bem vividos.
Viva o Corinthians e todos os outros times representantes do povo brasileiro, entre eles: Flamengo, Inter, Atletico Mineiro.
CONTAGEM REGRESSIVA: faltam 33 dias para elegermos Dilma, a primeira mulher Presidenta do Brasil. Mãos à obra!
Caro Rodrigão,
eu na condição de Vascaíno, sugiro a voce não confiar na pesquisa do Datafolha não…..rs rs rs
Deixe o Franscisquinho escolher, ô meu……
Bravo!
Ontem, ao voltar do trabalho, vi o outro lado da linha vermelha do metrô fervilhando de alvinegros, cantando, pulando, fantasiados, com muitos instrumentos de percussão. Fiquei tentada a dar meia volta, testemunhar a festa, sentir essa coisa maluca que move a nação corintiana. Medrosa e cansada, não fui, mas os fogos aqui foram lindos…
Este texto me fez marejar os olhos de saudade do meu avô, a quem devo minha fidelidade ao Corinthians. Vai ver que nessa o Datafolha não falhou.
Rodrigão, vou dar um desconto porque você é fanático mas que textinho pedante. O corinthians é tão popular como os times de origem humilde como o meu Inter, o Atlético mineiro, o Flamengo, o Sport Recife… só porque o Corintihians tem mais visibilidade (midiática) não quer dizer que ele seja o herdeiro da classe trabalhadora.
Do jeito que você e outros doentes corintianos falam parece que há um complô escrito nas estrelas contra o Corinthians, é o Corinthians contra o mundo.
Dito isto, parabenizo o coringão pela passagem do centenário, espero que consiga erguer um belo estádio e não precise mais da ajuda do apito amigo para vencer o colorado, Lulão neles!!!
Longa vida ao clube do povo paulista!!!
Abração!
gaúcho, tvz vc esteja falando do flamengo com origem popular , historicamente. se for isso, vc está errado, em sua origem o flamengo esteve bem distante de ser popular. os negros eram boicotados no flamengo. aos poucos , o time foi se tornando mt popular e é essa potência q é hj. pelo q sei o inter sempre foi popular.
Lembro do meu amigo Betão do Peruche.Corinthiano que nunca perdeu um jogo do Corinthias no Pacaembu,sempre no alambrado, desde 1960 que um dia, por descuido foi ao jogo no Pacaembu de camisa quase verde,já na era Gaviões da Fiel.Eu estava junto e começaram a gritar tira, tira,tira.Mas não tiraram,pois os Gaviões sabiam que ali estava um corinthiano dos velhos tempos,antes deles. Hoje Betão ,que esta do lado de lá da vida, muito feliz, comemorando os 100 anos do Timão.Betão, meu camarda,espero que ai onde esta e que algum dia estarei tenha umas geladas,pois hoje é um dia bom para comsumi-las,pois tomar é coisa de bambi,Certo?
Eu, Nós!
Antes da minha homenagem ao Corinthians hoje, faz-se necessária uma introdução. Consta que Muhammad Ali, o boxeador e ativista dos direitos dos negros nos EUA, pronunciou este que seria o menor poema de todos os tempos da língua inglesa, num discurso de uma turma de graduação em Harvard, onde um formando gritara-lhe: “Give us a poem!” (Dê-nos um poema!)
Ali, então, declamou: “Me, We!” (Eu, Nós!)
Nestas duas palavras, encerrava tudo que aquele grande atleta pensava. Eu, Nós. Muito mais além do que o seu próprio significado. Muito mais além de apenas 2 palavras. Significava – e ainda significa – o poder de união de todos, das idéias, das massas; primeiro individualmente, e depois coletivamente. Eu, Nós.
O que penso é exatamente isso: o Corinthiano é o maior patrimônio do clube. Não é esse estádio, sede, Pqe. S. Jorge, CT, etc. Nada disso.
É o ser humano que conta. 100 mil, 1 milhão, 30 milhões. Ou apenas um, torcendo solitário no sofá de casa. Longe ou perto, mas todos juntos e misturados.
Nós.
Eu, Nós.
Isso que o Corinthians tem de bonito! O fator humano, as paixões, a raça, o drible mágico que engana, o psicológico, a habilidade sempre acima da matéria, que decide em uma fração de segundo. Ali, dentro de campo, são 11 seres humanos contra 11. Nada mais importa. O que um clube tem, o que ganhou ou deixou de ganhar. Mano a mano. Fora dele, a massa que não joga, mas que ganha, perde, empata junto.
Sente.
Este é o verdadeiro patrimônio do Corinthians. O ser humano – Corinthiano. Ou Corinthiana. Contra todos os preconceitos de classe, de raça, de gênero. Que luta, que batalha, que cai e se levanta. Que vence, contra tudo e contra todos. O ser humano.
Sempre foi. Sempre será.
Eu, Nós!!!
Parabéns, meu Timão!!!
Parabéns para todos nós bando de loucos,maloqueiros,pretalhada,gambás.São 100 anos de AMOR INCONDICIONAL.
Viva o CORINTHIANS.
A melhor lembrança que tenho do Timão é ver o Mazzaropi na torcida do Corinthians contra o Santos. Faz teeemppo!
Parabéns ao Coringão. Guardo até hoje minha primeira camisa: a 10, do Neto. Grandes recordações.
Abraços!
Caramba! Como esse meu Corinthians é lindo. Só quem é Corinthians entende.
Obrigado Mauro Carrara pelo texto e obrigado Rodrigo por posta-lo aqui.
Vai Corinthians!!!
Realmente, está de parabéns a nação corintiana. Como cruzeirense, aplaudo essa rica estória. Mas apenas pra fazer uma correção ao comentário número 05, quero reconhecer a imensidão da torcida do Flamengo mas esclarecer que o Flamengo não tem origem popular como o Timão. O Flamengo surgiu de uma dissidência do Fluminense, da fina-flor da elite carioca. Nada que desabone, uma vez que tornou-se popular seja por que meios for. É apenas pra deixar no ponto. Parabéns aos corintianos!
Nós, os Corinthianos, somos a segunda maior torcida do Brasil. A primeira é o anticorinthiano!
e Que venham outros 100 anos de resitência.