O jornalismo, a “criação” da corrupção e o PT
publicada segunda-feira, 12/09/2011 às 10:18 e atualizada terça-feira, 13/09/2011 às 12:08
O jornalismo, a corrupção e o PT
Por Edmilson Lopes Júnior, no Terra Magazine
Uma narrativa recorrente em certos ambientes, e reproduzida à exaustão em não poucos veículos de comunicação, aponta a ascensão do Partido dos Trabalhadores a cargos de mando no país como o ponto inicial da corrupção no país. Tudo se passa como se tivéssemos vivido, até 2002, em uma ilha de administradores probos e políticos campeões da moralidade pública.
O estabelecimento de uma relação direta entre a ascensão do PT a postos de governos e a entronização da corrupção como pauta primeira da preocupação nacional é mais do que uma embromação histórica. E é também algo mais do que mera luta política, como apreendem, equivocadamente, os petistas. No curto prazo, é a única forma de garantir visibilidade pública para quem já não tem como garanti-la através da elaboração de alternativas políticas e econômicas para o país. Mas, e aí tocamos no que é fundamental: o apelo moralista contra a corrupção supostamente desencadeada pelo petismo (antes, por suposto, essa era uma prática inexistente no país) é a trilha mais fácil a ser seguida por setores jornalísticos que perderam a condição de mediadores culturais privilegiados no país.
O jornal Folha de São Paulo é a melhor expressão dessa derrocada cultural da imprensa brasileira. Antes, ponto de apoio para um jornalismo que expressava uma reflexão criativa e criativa da vida política nacional, o jornal paulista foi se deixando encurralar nesse triste e patético lugar social de um jornalismo que, sob a decoração modernosa, não se diferencia muito das “críticas” moralistas proferidas em programas popularescos de TV. Não fossem as referências esparsas a um ou outro pensador legitimado no mundo acadêmico, que distância existiria entre alguns dos textos produzidos pelos colunistas do jornal e os discursos do Pastor Malafaia?
Ora, não é o petismo o responsável pela sua ascensão da corrupção ao topo da pauta do jornalismo pátrio. Uma de suas causas está na própria configuração atual da atividade política. Dado que a midiatização da atividade é a via quase única para o resgate de alguma legitimidade, os políticos se tornaram prisioneiros da “imprensa”. Tanto é assim que não poucos dentre eles atuam e se pensam como celebridades. Que todos os principais legislativos tenham criado as suas próprias emissoras de rádio e tv, essa outra expressão da irresistível força da visibilidade midiática sobre a atividade política.
Paradoxalmente, maior visibilidade e pouca diferenciação no que diz respeito a propostas substantivas contribuíram para que a busca da distinção tivesse como referentes quase exclusivos a moral e a estética. Some-se a isso o cansaço geral para com as tarefas necessárias para o fermento da esfera pública e o que emerge? Uma forma de se “fazer política” (e jornalismo diário) que tem na denúncia do governo de plantão a sua única razão de ser.
Se um ator com veleidades de patrocinador de reformas sociais e econômicas ocupa um posto de governo, aí então estão dadas as condições para o cerco moralista ao “poder”. Não há muita novidade nisso, é bom que se frise. Repete-se no Brasil nestes últimos anos, com todas as tinturas de mais uma farsa tropical, o que ocorreu na Espanha na segunda metade da década de 1980. Quando da primeira ascensão do PSOE ao governo. Naquele tempo, determinado jornal espanhol conseguiu pespegar no partido do então Primeiro-Ministro Felipe Gonzalez a marca da corrupção. Com isso, pavimentou o caminho para a ascensão do direitista PP. Lá, como cá, a direita encontrou no moralismo a forma de aparecer na vida política. Que setores supostamente críticos tenham incorporado essa pauta nestas plagas, eis aí uma confirmação da assertiva definitiva de Lévi-Strauss: “os trópicos são menos exóticos do que démodés”.
Exemplar do que apontei mais acima é uma coluna de autoria do jornalista Fernando Barros e Silva, publicada no sábado passado no jornal Folha de São Paulo. Encimada pelo título “Toninho do PT, 10 anos depois”, a coluna consegue ser surpreendente, mas não exatamente pela argúcia analítica. Poucas vezes se leu em um grande jornal algo tão irresponsável e leviano. Tendo o assassinato de Toninho, então Prefeito de Campinas pelo PT, em 2001, como mote do texto, o jornalista lança insinuações sobre quem seria o verdadeiro responsável pela morte do saudoso político campineiro. E conclui atirando no seu alvo preferido: “Não sabemos ainda a resposta. Mas sabemos quem matou a honestidade quando chegou no poder em Campinas, em Santo André, no país”.
Parafraseemos o colunista. Qual o futuro de um jornalismo que, desacreditado no seu papel de mediador cultural, vai se reduzindo à condição de pregador moralista? Também não sabemos a resposta. Mas sabemos quem matou a objetividade analítica no jornalismo paulista.
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22 Comentários







Excelente texto.
A tentativa de pavimentação do caminho ao poder pela direita no Brasil, tendo como argumento a corrupção é um retorno ao ”caçador de marajás”. Quem esquece daquela campanha de direita?
Eu acredito que as implicações da eleição do Lula em 2002 ainda vão criar mais ”vítimas”. A imprensa brasileira e seus jornalões ainda sofrem o impacto e foram buscar abrigo no que tem de mais seguro: a moralidade dos inconformados e seletitas.
O autor do texto acerta em cheio quando fala da Folha. O jornal tem sido o reduto dos antipetistas ao esquecerem de fazer jornalismo para se dedicarem à política de direita. Uma política que crítica sem mostrar as alternativas, pois não as possuem.
Comparar com o Malafaia foi demais. k k k k
Caro Rodrigo: Moro em Santo Andre e não vejo a menor preocupação dos moradores a respeito do caso Celso Daniel.Ao contrario, vejo que o caso é lembrado apena nas eleições pelos tucanos e seus seguidores.O mesmo percebo no caso do Toninho de Campinas. O MP em SP, engajado, deixou o caso na medida para as criticas tucanas.Mais coisas se fala principalmente no sentido de tornar o ex-presidente Lula como fonte de corrupção, indicando construçoes e propriedades como se fosse dele e fruto de desvios.O que me atormenta, e muito, é o silencio do PT e seus seguidores a respeito desta pecha que lhes estão pregando na testa. Continuam sua luta como se nada fosse acontecer. Parece que não é com eles, assim como na Espanha um dia a casa cai.
vicente caliman sp
Vicente, o que seria “esse silêncio do PT”? Seria não ir a mídia e denunciar essa manipulação? “Quem” é o PT? Pensemos nisso.
O problema deste pessoal é que eles acham que o povo não tem a capacidade de perceber que agora a corrupção é de fato investigada e que seus autores vão para a cadeia (podem não ficar lá, mas que passam alguma noites, passam!), ou seja, antes do Lula e do PT, varria-se a corrupção para debaixo do tapete para preservar seus pares e seus esquemas, diferentemente do que acontece agora.
Rodrigo,
Para esclarecimento do caso Toninho em Campinas:
É só procurar as pessoas e orgãos que propalaram inicialmente a notícia de que foi crime comum. Estes são os maiores suspeitos. Tudo começa por aí. O crime foi político. Toninho em 6 meses de administração elevou a arrecadação do município em cêrca de 20%. Era uma pessoa excepcionalmente boa e séria para a política. Era um nome que fatalmente iria despontar nacionalmente.
No final dos anos setenta comecei a me interessar por política. Ingressando na Universidade criei um atalho entre os livros de Cálculo Infinitesimal para a militância de esquerda, com a convicção e o charme de ser revolucionário. Eu morava no Rio Grande do Norte e vi a miséria e humilhação que expoentes da ARENA-PDS impingia ao povo pobre na compra de consciência e votos no interior do sertão. Cheguei a ver o atual Presidente do DEM José Agripino Maia sendo abraçado pelo general Figueredo; cinicamente a figura do ditador equestre dizia na Praça Gentil Ferreira, de Natal que faria o possível e o impossível para eleger o então pupilo dos Mais governador do estado. E o fez.
O Hoje Senador pousa de democrata e exponte-artífice da moralidade.
Falam dos corruptos e “esquecem” dos Corruptores (os de sempre).
Falta dar nome aos bois. Todos, a boiada toda.
Impressiona e enoja, como o PIG, imprensa golpista e antidemocrática, tentar incutir que corrupção no Brasil tem data de nascimento(2002)e prazo de validade(quando o PT sair do governo). Hipócritas!!!, Ridículos!!!!
A corrupção sempre houve, porém sempre foi encoberta pela grande mídia e seus jornais. O problema é que em 2002, o PT venceu, e a mídia tratou de denunciar qualquer coisa que possa desmoralizá-lo, porém fecham os olhos para os vários anos de PSDB em SP, e os anos de FHC (“governos sem corrupção”).
A corrupção é um mal histórico, a questão é que o PT erra ao não ter uma posição mais dura ao ponto de combater esse mal.
Um artigo realmente esclarecedor, objetivo e repleto de fundamento, como aliás, são todos que leio aqui, salvo raras excessões…Parabéns!! Estou divulgando nas redes sociais, e páginas de militantes, pois esse pensamento claro é extremamente necessário para o debate na atual conjuntura…Grande abraço!!
Interessante que só se fala que a corrupção com os politicos em 7 anos atingiu a soma de 40 bilhões de reais;porém nada se fala de que o rombo com a sonegação fiscal é de R$ 200 bilhões por ano. E aí como ficam empresarios,agricultores,comerciantes enfim todos os que sonegam neste país;infelizmente sempre prevalece a Lei do Gerson e a grande imprensa nada comenta.
O que esses porcalhões fazem não é jornalismo, é panfletagem política. Por isso, não devem ser levados a sério, não são honestos, tanto o jornal quanto o sujeito que escreveu, o qual não devemos chamar de jornalista. No entanto, temos que combatê-los, mostrando às pessoas que o que escrevem não é sério e que esse papel usado tão porcamente serve somente para embrulhar peixe e servir como banheiro para cães e gatos.
E você repete o mesmo discurso do partido. O de que a corrupção existente no governo não difere dos governos passados. É como se fosse um atestado, uma autorização para assaltar porque outras assaltaram. Se os outro fizeram tenho direito de fazer, né? NÃO, NÃO TEM. O PT é uma decepção política para mim. O discurso, a priori, era consistente, o poder ideológico uniu pessoas contra os corruptos, no extermínio dos assaltadores, mas discurso ficou no discurso na chegada ao poder. Independente da parcialidade editorial, os fatos estão aí. Os jornais cumprem um papel e para os que tem teto de vidro, sempre haverá chance de uma vidraça ser quebrada.
Esses colunistas ganham seus trocados para falar mal do PT, ótimo, deve ser por esse motivo que o PT vai eternizar-se no poder.
Mais é isso que a grande mídia quer,que as pessoas menos esclarecidas pensam que a corrupção teve começo em 2002 e fim quando o pt sair.
Até parece que quem criou a corrupção no Brasil foi o PT.Essa cambada tucana entreguista não suporta essa nova era de bonanza que atravessa o Brasil,pois é pura inveja do PT e do ex-presidente Lula. Viva o Brasil,viva a nossa querida presidenta Dilma!!!!!!!
Como se tem coragem de ler esse cara ainda?
Caro Rodrigo,
O Artigo é excelente. O jornalista Edmilson Lopes acertou um torpedaço na Folha, mas esqueceu de mandar três para a revista Veja: no augusto nunes, reinaldo azêdo e…. tchan, tchan, tchan… diogo mainardi(letra minúscula mesmo). Os tres diamantes do vídeojogo SONIC.
Por isso eu vou no ato contra a corrupção da mídia dia 17/09 na Av. Paulista nem que seja para caminha sozinho. Mas tenho certeza que seremos muitos.
É necessário exercitar o cérebro dos brasileiros. Fazer com que questionem o poder investigativo da mídia. Tão competente para descobrir a forma como um ministro pagava o salário de uma empregada doméstica, e por outro tão incopetente para descobrir, por exemplo, por quem e por qual motivo PC Farias foi assassinado, ou de onde veio o dinheiro que FHC usou para comprar votos de deputados a favor da reeleição, ou ainda que figurões estavam juntos nos desvios do Lalau e da Georgina. Nos 8 anos de FHC o governo recebeu bilhões de dolares em privatização e empréstimos do FMI. A mídia investigativa não denunciou o desvio de nenhum centavo de todo esse dinheiro. Para acreditar que não houve desvio não basta ser antipetista raivoso, precisa ser também muito imbecil.
Ótimo texto! Porém, acho que faltou mencionar que tais artimanhas da imprensa não é recente. Desde Getúlio Vargas, passando por Juscelino e Jango, sempre quando houve um governo que quis atender aos 90% da população brasileira, foi vítima desse tipo de coisa.
Todos os países do mundo são governados pela sua elite, porém, a elite japonesa não tem desprezo pelo povo japonês, assim como a elite alemã não desgosta do povo alemão…. o problema é a elite brasileira que tem nojo do povo brasileiro. E como a elite brasileira tem na grande mídia seu porta voz, conseguimos verificar aberrações como estas citadas acima.
Se não fosse pela internet,na época do “mensalão”, teríamos mais um presidente deposto, simplesmente por não continuar ignorando esses 90%.
Ley de medios já!
Dizer o que, depois desse artigo? Que paulada, hein Otavinho e cia!