O medo venceu a esperança?

publicada quinta-feira, 15/03/2012 às 11:18 e atualizada quinta-feira, 15/03/2012 às 13:44

Por Jean Wyllys, na CartaCapital

Certa vez, em resposta a uma das minhas frequentes manifestações no Twitter contra o discurso populista e hipócrita de parlamentares do DEM e do PSDB, um dos meus milhares seguidores me chamou de “petista enrustido”.

No momento, achei a expressão um equívoco. Mas, depois, conclui que ele, o seguidor, não estava de todo equivocado. Em que pese a minha opção consciente e consequente pelo PSOL no momento de me filiar a um partido político, a verdade é que a minha formação e engajamento políticos passam, sim, pelo PT mesmo sem nunca ter integrado oficialmente o mesmo.

Na eleição presidencial de 1989 (a primeira eleição direta após duas décadas de ditadura militar), embora não tivesse idade para votar – eu votaria pela primeira vez nas eleições de 1994 – fiz intensa campanha para Lula e desfilava pelos corredores do Centro Educacional Cenecista Alcindo de Camargo, onde cursava a oitava série, com a camisa e a mochila decoradas por botons do partido, a cantarolar o jingle da campanha “Sem medo de ser feliz”, envolvido que eu era, então, com o movimento pastoral da Igreja Católica e membro de uma CEB (Comunidade Eclesial de Base), ambos íntimos do PT.

Lula não venceu aquela eleição, para nossa tristeza. Mas venceria a de 2002, em que enfrentou o candidato tucano José Serra, em cujo vídeo de campanha a atriz Regina Duarte (a quem admiro e respeito sinceramente) aparecia afirmando ter “medo” do candidato petista. Como candidato que já naquela época flertava com a direita e suas táticas políticas, José Serra e sua equipe tinham o objetivo claro de manipular os medos e os preconceitos da maioria da população por meio do depoimento de uma atriz popular. Não deu certo. Lula venceu a eleição.

“A esperança venceu o medo”, dizíamos todos que acreditávamos que, ao chegar à Presidência, o PT traria dias melhores para o país, aproveitando-se do que havia de bom no legado deixado por Fernando Henrique Cardoso.

Bom, não podemos chamar a conversão de pobres em consumidores necessariamente de “dias melhores” (o consumo não veio acompanhado de uma educação para o consumo, por exemplo, e os efeitos desse consumo no meio ambiente já se fazem notar), mas é inegável que, em seus dois mandatos, Lula deu mais atenção à pobreza que o antecessor Fernando Henrique Cardoso.

Não que os banqueiros e o mercado financeiro e os grandes empresários e os latifundiários e os corruptos tenham deixado de ganhar durante os governos Lula, ao contrário. Mas Lula deu alguma atenção à pobreza porque, para usar suas próprias palavras, “cuidar dos pobres no Brasil é muito barato”, ou seja, na prática, não custa quase nada “às elites” egoístas que, até a chegada de Lula à presidência, opunham-se a dar essa migalha ao povo sofrido – uma sensibilidade que o sociólogo não teve e que o operário nordestino só teve porque conheceu, de perto, a pobreza.

Não foi feita a reforma agrária nem a fiscal nem a política. Lula apenas acenou para as minorias sociais (mas ao menos acenou!) sem implementar políticas públicas eficazes nem pressionar sua base parlamentar para aprovar leis que garantissem os direitos humanos dessas minorias e atendessem às suas reivindicações.

Contudo, no segundo turno da eleição de 2010, demos mais um voto de confiança no PT, em parte porque o candidato José Serra e as forças políticas tenebrosas que se agregaram em torno dele não mereciam confiança nem voto, em parte porque a esperança é a última que morre, ou seja, acreditamos que os oitos anos da era Lula serviram para criar as bases para um avanço real em justiça social e garantias de liberdades civis e direitos humanos, sobretudo porque quem se opunha a Serra era uma mulher que sentiu, na pele, as dores da violação de direitos humanos e da privação de liberdades.

O primeiro ano do mandato de Dilma Rousseff mostrou que estávamos enganados; que o PT enganou a todos nós.

Ao contrário do que foi dito naquele ano de 2002, o medo venceu a esperança. O medo se tornou a paixão dominante da presidenta. “O medo é a moda dessa triste temporada”, para citar o belo verso de Zeca Baleiro.

No que diz respeito à garantia e promoção de direitos humanos de minorias e ao enfrentamento das tenebrosas forças políticas que já estiveram ao lado de Serra e, hoje, compõem a base do governo e têm influência no Palácio do Planalto e nos ministérios, a presidenta Dilma está paralisada pelo medo.

Eu poderia citar algumas consequências concretas desse medo – as violências praticadas contra os povos indígenas nas obras de Belo Monte, o enterro do projeto Escola sem Homofobia, a exclusão de vídeos para LGBTs da campanha de prevenção à AIDS no Carnaval, a Medida Provisória que cria cadastro compulsório para grávida, o Código Florestal que anistia madeireiros e não protege as florestas – mas prefiro dizer que o medo de Dilma de enfrentar a direita conservadora vem impedindo o governo de proteger o meio ambiente; de tornar real o ideal de igualdade de oportunidades; de reduzir os gastos com uma questionável dívida pública e de defender direitos humanos.

E esse medo é permanentemente “explicado” e “justificado” por uma militância esperançada ou cínica. Sobretudo nas redes sociais, militantes e líderes de movimentos sociais cooptados estão sempre a postos para “desculpabilizar” o medo do governo e livrá-lo do ônus de suas escolhas.  Entretanto, o medo pode ser um mau conselheiro.

O que há por trás desse medo? A vontade do PT de permanecer no poder a qualquer custo, uma vez que o experimentou. O que há por trás do medo? O famigerado “pragmatismo”! O que há por trás do medo? A vontade de ser e continuar popular.

Ora, Como ressalta o filósofo francês Luc Ferry, que foi ministro da Educação em seu país, “é preciso ser popular para se conquistar o poder, e seria necessário poder ser, às vezes, impopular para exercê-lo bem”.

Mas o PT deseja exercer bem o poder? Ou quer apenas a popularidade para permanecer nele, ainda que com medo? Parafraseando um provérbio árabe, o partido ou político que nunca, no poder, encontrou um motivo para pô-lo em risco deve nos deixar desconfiados…

Se eu sou um “petista enrustido”, como disse o seguidor; se tenho alguma afinidade com o PT, certamente não é com esse PT que há nove anos está na Presidência, principalmente com o PT da presidenta Dilma.

Se tenho alguma afinidade com o PT, é certamente com aquele que se parece com o PSOL.

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7 Comentários

7 Comentários para “O medo venceu a esperança?”

  1. Fernando disse:

    sempre o Psol, fazendo o trabalho que a globo manda!!!!

    • Cesar Weber disse:

      Este governo do PT, que faz tudo que o sistema financeiro e as construtoras mandam, tenta incluir a classe Z pelo consumo e, arrogantes, não aceitam críticas. Quem seria mesmo que faz o que a Globo manda?

  2. Rogério Madureira disse:

    Magnificamente bem dito: “é preciso ser popular para se conquistar o poder, e seria necessário poder ser, às vezes, impopular para exercê-lo bem”.

  3. Cristiano Mendonça disse:

    É bom ser PSOL, o PT já foi PSOL, esse jeito assim compromissado apenas com o ideário progressista, de esquerda. Mas há uma real correlação de forças no poder real. Necessário enfrentar o poder que emana das foças conservadoras, sem dúvida. Expor o poder de quem governa a um risco calculado em prol de conquistas do campo progressista, sem dúvida. Mas uma manobra mais ousada agora que escapar ao controle, ao previsível, pode significar um retrocesso de nos fazer todos chorar amargamente. O conservadorismo está feroz, está sentindo a pressão no mundo todo, está acuado, é fera que antevê a perda de terreno, de espaço vital. Se você meu caro e o PSOL querem ação, há muita ação e esforço em concertar as esquerdas, mobiliza-las para este enfretamento do poder real que não dá as caras e é irrecuperavelmente viciado no nosso sangue. Mas não vamos só de “alegre” porque a fera é ferida.

  4. Dorival Gobette disse:

    o autor escreve:“A esperança venceu o medo”, dizíamos todos que acreditávamos que, ao chegar à Presidência, o PT traria dias melhores para o país, aproveitando-se do que havia de bom no legado deixado por Fernando Henrique Cardoso.
    Sinceramente, eu gostaria de saber o que havia de bom no legado deixado por FHC?

  5. Lucas Tacchi disse:

    Eu penso que o Governo do PT esta tentando se manter no Poder ajudando as Elites, e nao o Povo, os outros trabalhadores, como É no papel, tudo o que beneficia os mais capacitados(monetariamente) está sendo feito pela Dilma, ela precisa virar o olho aos menos capacitados, assim como foi feito por Lula, como todos achavam que ela iria fazer, mas nao podemos culpa-la apenas, a culpa maior é de varios outros politicos ladroes, nao apenas ela

  6. Ricardo disse:

    Concordo com vários pontos levantado pelo deputado, diga-se de passagem, o respeito imensamente. Mas quando enaltece o Psol, vamos lembrá-lo do papel, muitas vezes bastante questionável, que o Psol vem fazendo. Como votar, ao lado do Dem e Psdb contra a cpmf… Ambíguo isso, não ?
    De todas as formas, grande deputado !

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