O PIG veio do PUM – Partido Único da Mídia

publicada terça-feira, 03/01/2012 às 12:45 e atualizada terça-feira, 03/01/2012 às 21:54

Por Laurindo Lalo Leal Filho, da Carta Maior

A superficialidade e o descrédito a que chegaram os meios de comunicação tradicionais no Brasil é incontestável. Posicionamento político-partidário explícito e “reengenharias” administrativas estão na raiz desse processo.

Dispensas em massa de profissionais qualificados explicam, em parte, a baixa qualidade editorial. Foi-se o tempo em que ler jornal dava prazer. Mas fiquemos, por aqui, apenas na orientação política.

A concentração dos meios e a identidade ideológica existente entre eles criou no país o “partido único” da mídia, sem oposição ou contestação. Ditam políticas, hábitos, valores e comportamentos. O resultado é um grande descompasso entre o que divulgam e a realidade. Hoje, para perceber esse fenômeno, não são mais necessárias as exaustivas pesquisas em jornalismo comparado, tão comuns em nossas academias lá pelos anos 1980.

Agora basta abrir um jornal ou assistir a um telejornal e compará-los com as informações oferecidas por sites e blogues sérios, oferecidos pela internet. São mundos distintos.

No caso da mídia brasileira essa situação começou a se consolidar com a implosão das economias planificadas do leste europeu, na virada dos anos 1980/90.

Em 1992, no livro “O fim da história e o último homem”, ampliando ideias já apresentadas em ensaio de 1989, Francis Fukuyama punha um ponto final no choque de ideologias, saudando o capitalismo como modo de produção e processo civilizatório definitivo da humanidade, globalizado e eternizado.

Tese rapidamente endossada com euforia pela mídia conservadora e hegemônica que, a partir dai, pautaria por esse viés seus recortes diários do mundo, transmitidos ao público. Faz isso até hoje.

Só que, obviamente, a história não acabou. Ai estão as crises cíclicas do capitalismo, neste início de milênio, evidenciando-o como modo de produção historicamente constituído, passível de transformações e de colapso, como qualquer um dos que o precederam. Mas a mídia trata o capitalismo como se fosse eterno, excluindo de suas pautas as contradições básicas que o formam e o conformam. Dai a pobreza de seus conteúdos e o seu distanciamento da realidade, levando-a ao descrédito.

De fomentadora de ideias e debates, fortes características de seus primórdios em séculos passados, passou a estimuladora do conformismo e da acomodação. Para ela o motor história não é a luta de classes e sim o consumo, apresentado em gráficos e infográficos, alardeando números e índices que, muitas vezes, beiram o esotérico.

Se nos anos 1990 essas políticas editoriais obtiveram relativo êxito apoiadas na expansão do neoliberalismo pelo mundo, na última década a realidade crítica abalou todas as certezas impostas ideologicamente. As contradições vieram à tona.

No entanto a mídia, reduzida e conservadora, especialmente no Brasil, segue tratando apenas das aparências, deixando de lado determinações mais profundas. Movimentos anti-capitalistas espalhados pelo mundo são mencionados, quando o são, particularmente pela TV, como “fait-divers”, destituídos de sentido, a-históricos. Seguindo rigorosamente a tese de Fukuyama.

Fazendo jus ao seu papel de “partido único”, os meios oferecem ao público, como elemento condutor de sua ideologia conservadora, algo que genericamente pode ser chamado de kitsch. Definição dada pelos alemães no século passado para a arte popular e comercial, feita de fotos coloridas, capas de revistas, ilustrações, imagens publicitárias, histórias em quadrinhos, filmes de Hollywood. Atualizando seriam os nossos programas de TV, os cadernos de variedades de jornais e revistas, as músicas e as preces tocadas no rádio.

Esse é o prato diário da mídia, oferecido em embalagens sedutoras e entremeado de informações ditas jornalísticas, apresentando o mundo como um quadro acabado, inalterável. Não existindo alternativas, resta o conformismo anestesiado pelo consumo, ainda que para muitos apenas ilusório.

Claro que esse quadro midiático tem eficácia até certo momento, enquanto realidade e imaginário de alguma forma guardam proximidade. Mas ele também é histórico e, portanto, mutável.

Enquanto as contradições básicas da sociedade, aqui mencionadas, permanecerem existindo, a integração das consciências “pelo alto” será irrealizável, alertava Adorno, num dos seus últimos textos. Por mais que os meios de comunicação se esforcem por integrá-las.

Ao se fixar nos seus próprios dogmas, desprezando o real, o poder dos partidos midiáticos tende ao enfraquecimento. Ao se descolarem da realidade perdem credibilidade e apoio, cavando sua própria ruína. Confrontados com a internet desabam. Trata-se de um caminho trilhado de forma cada vez mais acelerada pela mídia tradicional brasileira. Sem falar na contribuição dada a esse processo pela queda da qualidade editorial, tema que fica para outro momento.

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5 Comentários

5 Comentários para “O PIG veio do PUM – Partido Único da Mídia”

  1. O partido único da mídia sangra continuamente. Seus jornais perdem leitores e suas tvs perdem espectadores. Ainda tem muito poder esse partido, mas bem menos do que há 10 anos atrás.

    Graças a um novo poder, a mídia de todas as mídias, a internet, a Blogosfera nasceu. E graças à Blogosfera, um livro que a mídia tentou fingir que não existia, está batendo recordes de vendas.

  2. Luiz Ant. Barbosa Mutum MG disse:

    Meu caro Rodrigo, no Conversa afiada, Paulo Henrique Amorim cunhou Partido da Imprensa Golpista – PIG, você acabou de cunhar outro, é o “PUM”…

  3. spin disse:

    Hoje repeti mecanicamente o gesto de dar uma olhada nas capas do Globo, Folha e Estadão. Foi quando me lembrei que tais capas eu já havia visto no blog do Miguel do Rosário. Enfim, nem as tais capas preciso ver mais.

  4. Rubensk disse:

    Rodrigo, parece que a Globo resolveu levar a linha editorial de seu jornalismo político para o plano da ficção. Já que o seu jornalismo político é tratado como ficção (vide caso da bolinha de papel), a emissora resolveu fazer política por meio da ficção. Dia 17 estreia uma microssérie essencialmente política, O brado retumbante”, “com direito a todos os tipos de personagem, por mera coincidência, muito parecidos com certas figuras que vemos por aí”. Nelson Motta, um dos autores, foi mais explícito, dizendo que a microssérie vai abordar “as forças políticas em luta pelo poder, a imprensa e o Congresso, corruptos e faxineiros, arapongas e conspiradores, sua equipe de governo e a opinião pública.” E conclui seu artigo assim: “Com Guilherme Fiuza e Denise Bandeira, integrei a equipe que escreveu O Brado com Euclydes. Nos divertimos, mas foi muito difícil. Por mais fantasias e tramoias que se inventasse, todo dia éramos superados pelos jornais. E como criar nomes melhores que Valdebran e Gedimar ? É dura a vida de ficcionista no Brasil.”. Alguém tem dúvidas do direcionamento ideológico de uma minissérie sobre a política brasileira escrita por figurinhas carimbadas como Nelson Motta e Guilherme Fiuza?

  5. nelson disse:

    na revista veja só tem jornalistas genéricos.

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