O que move o partido-imprensa

publicada segunda-feira, 09/01/2012 às 16:20 e atualizada quarta-feira, 11/01/2012 às 23:47

Por Gilson Caroni Filho, da Carta Maior

A leitura diária dos jornais pode ser um interessante exercício de sociologia política se tomarmos os conteúdos dos editoriais e das principais colunas pelo que de fato são: a tradução ideológica dos interesses do capital financeiro, a partitura das prioridades do mercado. O que lemos é a propagação, através dos principais órgãos de imprensa, das políticas neoliberais recomendadas pelas grandes organizações econômicas internacionais que usam e abusam do crédito, das estatísticas e da autoridade que ainda lhes resta: o Banco Mundial (BIrd), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC). É a eles, além das simplificações elaboradas pelas agências de classificação de risco, que prestam vassalagem as editorias de política e economia da grande mídia corporativa.

Claramente partidarizado, o jornalismo brasileiro pratica a legitimação adulatória de uma nova ditadura, onde a política não deve ser nada além do palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão das pequenas diferenças que os distinguem para melhor dissimular a enormidade das proibições e submissões que os une. É neste contexto, que visa à produção do desencanto político-eleitoral, que deve ser visto o exercício da desqualificação dos atores políticos e do Estado. Até 2002, era fina a sintonia entre essa prática editorial e o consórcio encastelado nas estruturas de poder. O discurso “modernizante” pretendia – e ainda pretende – substituir o “arcaísmo” do fazer político pela “eficiência” do economicamente correto. Mas qual o perigo do Estado para o partido-imprensa? Em que ele ameaça suas formulações programáticas e seus interesses econômicos?

O Estado não é uma realidade externa ao homem, alheia à sua vida, apartada do seu destino. E não o pode ser porque ele é uma criação humana, um produto da sociedade em que os homens se congregam. Mesmo quando ele agencia os interesses de uma só classe, como nas sociedades capitalistas, ainda aí o Estado não se aliena dos interesses das demais categorias sociais.

O reconhecimento dos direitos humanos, embora seja um reconhecimento formal pelo Estado burguês, prova que ele não pode ser uma instituição inteiramente ligada aos membros da classe dominante. O grau maior ou menor da sensibilidade social do Estado depende da consciência humana de quem o encarna. É vista nesta perspectiva que se trava a luta pela hegemonia. De um lado os que querem um Estado ampliado no curso de uma democracia progressiva. De outro os que só o concebem na sua dimensão meramente repressiva; braço armado da segurança e da propriedade.

O partido-imprensa abomina os movimentos sociais os sindicatos (que não devem ter senão uma representatividade corporativa), a nação, antevista como ante-câmara do nacionalismo, e o povo sempre embriagado de populismo. Repele tudo que represente um obstáculo à livre-iniciativa, à desregulamentação e às privatizações. Aprendeu que a expansão capitalista só é possível baseada em “ganhos de eficiência”, com desemprego em grande escala e com redução dos custos indiretos de segurança social, através de reduções fiscais.

Quando lemos os vitupérios dos seus principais articulistas contra políticas públicas como Bolsa Família, ProUni e Plano de Erradicação da Pobreza, dentre outros, temos que levar em conta que trabalham como quadros orgânicos de uma política fundamentalista que, de 1994 a 2002, implementou radical mecanismo de decadência auto-sustentada, caracterizada por crescentes dívidas, desemprego e anemia da atividade econômica.

Como arautos de uma ordem excludente e ventríloquos da injustiça, em nome de um suposto discurso da competência , endossaram a alienação de quase todo patrimônio público, propagando a mais desmoralizante e sistemática ofensiva contra a cultura cívica do país. Não fizeram- e fazem- apenas o serviço sujo para os que assinam os cheques, reestruturam e demitem. São intelectuais orgânicos do totalitarismo financeiro, têm com ele uma relação simbiótica. E é assim que devem ser compreendidos: como agentes de uma lógica transversa.

Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer e outros mais necessitam ser analisados sob essa perspectiva. É ela que molda a ética e o profissionalismo de todos eles. Sem mais nem menos.

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19 Comentários

19 Comentários para “O que move o partido-imprensa”

  1. Marcos disse:

    Uma paulada bem dada na cabeça dos colunistas.

  2. Alex disse:

    O interessante disso tudo é que esse partido já não convence mais no Brasil, exceto em alguns estados que ainda insistem com a podridao tucana.

    • Regina Gonçalves disse:

      É isto mesmo. Não convencer mais o povo brasileiro. Eles estão desesperados. Para minha residência ligam diariamente oferecendo assinaturas de jornais e revistas. Estão atados com o avanço da internet nas classes menos favorecidas. O que temos que fazer é circular, para um numero cada vez maior de pessoas, artigos como o mencionado acima.

  3. Joselito disse:

    Qual é o principal nome da oposição????

    Poisé, o PIG, só se for.
    Engraçado que o Brasil retratado pelos supramencionados colunistas não é o mesmo daquele visto internacionalmente, até mesmo por aqueles que detêm o capital.

  4. Eunice disse:

    Não nos esqueçamos de Jabor, que pontualmente estava lá – todas as noites – com seu discurso rápido e preciso e adjetivado, em “defesa” matracal intransigente da privataria, durante vários anos. Além de sua presença em vários jornais impressos, inclusive in interior, fazendo assim uma rede infalível contra idéias diferentes.

  5. Luiz Fernando Viegas disse:

    Ventrílocos da injustiça, melhor definição dessa gente!!!

    brilhante!!!

  6. JOSE ANTONIO BATATA disse:

    A PM de São Paulo não combateu O PCC quando foi necessário,mas agora quer descontar tudo nas costas dos estudantes da USP. O Governo do PSDB em São Paulo se transformou num reduto de Extrema-Direita. Perdoa o PCC e espanca os pobres coitados da Cracolândia. A Crise do Governo Paulista só não é maior porque o PIG (GRANDE IMPRENSA) apoia este grupo fascista. Os moradores da CracoLândia precisam de assistência médica e psicológica. A USP precisa de um reforço com vigilantes da própria UNIVERSIDADE. Esta PM da USP precisa ir para a rua combater o PCC.

  7. Décio disse:

    Brilhante artigo, em defesa de uma imprensa isenta e despartidarizada.Lembraram muito bem.O Arnaldo Jabor, aquele que se acoberta, como se cineasta fosse, mas que defendeu com unhas e dentes, as Privatarias Tucanas e um Estado “aberto” e desregulamentado para a iniciativa privada transformando cada vez mais, um Brasil para poucos, em detrimento do povo brasileiro.

  8. Paulo disse:

    Bom texto, Rodrigo. A ideologia abrange uma concepção de mundo e necessita de atores para mantê-la. Interessante é que apesar de toda a prova contra esse princíio financeiro de regulação social, ainda continuam com toda carga. Daí penso que para prosseguirem com sua ideologia devem pregar moralismo contra o Estado e também a questão da ordem pública, com a polícia tomando conta das ruas e movimentos sociais. Financeirização, ordem, “liberdade” e eficiência são os ingridientes da mistura ideológica. Vem mais violência contra a sociedade por aí…abraço.

  9. Antonio Elias disse:

    Quem lê as notícias e assiste os telejornais, tem a impressão que o Brasil está pior que a Grécia, um caos total, pois enquanto o mundo está de olho no nosso sucesso, a mídia brasileira (tucana por opção), só escreve mentiras e tenta enganar o povo, porém esse não é mais bobo,sabe separar as coisas e valoriza o novo Brasil!!!!

  10. Neto Sampaio disse:

    “Ressurge a Democracia” (Dilma) Governo Trabalhista – O Desespero da Imprensa Golpista.

    http://pigimprensagolpista.blogspot.com/2012/01/ressurge-democracia-dilma-governo.html

  11. Paulo Roberto disse:

    A CPI da Privataria Tucana tem um papel muito maior do
    que defenestrar os tucanos envolvidos na roubalheira. Quiçá, venha abrir a discussão sobre a privatização das empresas públicas, em um cenário que a mídia não possa controlar, e mostrar, de uma vez por todas, a maioria do povo brasileiro, a perfídia da pregação neoliberal.

  12. Olga disse:

    Maravilha de texto!!Obrigada,Rodrigo!!

  13. Saulo disse:

    O desespero dessa mídia cínica, demagógica, mercenária, partidarizada, facista e corrupta é que apesar do barulho q ainda faz, não é suficiente pra eleger um presidente.

  14. José Luiz Rossi disse:

    Que injustiça com o jabor e outros intelectuais(sic)”orgânicos”!Afinal eles precisam comer e alimentar sua prole.Não falam o que pensam,nem pensam o que falam.

  15. Paulo L Fernandes disse:

    Estes senhores, na realidade, escrevem o pensamento do patrãocaso contrário, perdem o emprego.Jabour, Sardenberg e os outros “jornalistas”, sabem perfeitamente o que devem e o que não devem escrever para não contrariar o sistema dominante.Caso desafinem além de perderem o emprego, não lhes será oferecido mais nenhum espaço em qualquer orgão da grande midia.

  16. Paulo Ribeiro disse:

    A mídia golpista abomina os movimentos populares por que sabe que poderá ser vítima da vontade popular. Como, por exemplo, um plebiscito que trate da criação do Conselho Federal de Jornalismo e da regulamentação da mídia.

  17. Julio Cesar Montenegro disse:

    Ah! que saudade do monopólio da voz, da palavra, quando se colocavam cultamente na vanguarda. Não em qualquer uma, apenas na que tinha correspondências nos paises sérios, mais civilizados & desenvolvidos… nas eternas metrópoles COLONIAIS. As que parecem estar, finalmente, desmoronando. Seu desespero é mostrado quando substituem o antigo desprezo armado pela gentinha, pelo horror que têm das FORÇAS do atraso. Haja barragens de muros & artigos furibundos… Como previa o roqui: os tempos estão mudando. Sejamos mutantes.

  18. pauloricette disse:

    Concordo plenamente, só achei exagero chamar esses imbecis de intelectuais.

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