Quanta verdade o Brasil suporta?
publicada terça-feira, 20/09/2011 às 13:46 e atualizada quinta-feira, 22/09/2011 às 09:03
Suportar a verdade
Por Vladimir Safatle
Nos próximos dias, o governo deve conseguir aprovar, no Congresso, seu projeto para a constituição de uma Comissão da Verdade. O que deveria ser motivo de comemoração para aqueles realmente preocupados com o legado da ditadura militar e com os crimes contra a humanidade cometidos neste período será, no entanto, razão para profundo sentimento de vergonha.
Pressionado pela Corte Interamericana de Justiça, que denunciou a situação aberrante do Brasil quanto à elucidação e punição dos crimes de tortura, sequestro, assassinato, estupro e ocultação de cadáveres perpetrados pelo Estado ilegal que vigorou durante a ditadura militar, o governo brasileiro precisava mostrar que fizera algo.
No caso, “algo” significa uma Comissão da Verdade aprovada a toque de caixa, sem autonomia orçamentária, sem poder de julgar, com apenas sete membros que devem trabalhar por dois anos, sendo que comissões similares chegam a ter 200 pessoas.
Tal comissão terá representantes dos militares, ou seja, daqueles que serão investigados. Como se isso não bastasse, a fim de tirar o foco e não melindrar os que se locupletaram com a ditadura e que ainda dão o ar de sua graça na política nacional, ela investigará também crimes que porventura teriam ocorrido no período 1946-64. Algo mais próximo de uma piada de mau gosto.
Um país que, na contramão do resto do mundo, tende a compreender exigências amplas de justiça como “revanchismo” não tem o direito de se indignar com a impunidade que se dissemina em vários setores da vida nacional.
Aqueles que preferem nada saber sobre os crimes do passado ainda estão intelectualmente associados ao espírito do que procuram esquecer.
O povo brasileiro tem o direito de saber, por exemplo, que os aparelhos de tortura e assassinato foram pagos com dinheiro de empresas privadas, empreiteiras e multinacionais que hoje gastam fortunas em publicidade para falar de ética. Ele tem o direito de saber quem pagou e quanto.
Esta é, sem dúvida, a parte mais obscura da ditadura militar. Ou seja, espera-se de uma Comissão da Verdade que ela exponha, além dos crimes citados, o vínculo incestuoso entre militares e empresariado. Vínculo este que ajuda a explicar o fato da ditadura militar ter sido um dos momentos de alta corrupção na história brasileira (basta lembrar casos como Capemi, Coroa Brastel, Lutfalla, Baumgarten, Tucuruí, Banco Econômico, Transamazônica, ponte Rio-Niterói, relatório Saraiva acusando de corrupção Delfim Netto, entre tantos outros).
Está na hora de perguntar, como faz um seminário hoje no Departamento de Filosofia da USP: Quanta verdade o Brasil suporta?
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6 Comentários







Essa aberração que nos estigmatiza até hoje precisa acabar, os culpados pelo crimes precisam ser julgados, condenados e punidos e seus nomes retirados de ruas, praças e viadutos onde permanecem até hoje como lembrança de nossa própria covardia e amnésia seletiva amedrontada e conveniente, e também como símbolos perenes do autoritarismo e impunidade que permeam as relações de poder em nossa sociedade.
“O BRASIL PARA TODOS não passa na glObo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”
Yacove está certíssimo. Precisamos esclarecer esses crimes e deixar bem claro para a sociedade os horrores que foram cometidos pela ditadura. Muitos jovens que não viveram esse período tenebroso da nossa história nem acreditam que isso aconteceu. Não podemos deixar que esses crimes e criminosos caiam no esquecimento.
O profesor Safatle sempre transbordando esclarecimento. De fato, ele faz parecer simples um contexto extremamente complexo. Obrigado por não subestimar o poder de influência que tem as suas palavras.
Cometi um pequeno erro devido à pressa. “Professor”, não “Profesor”.
Na realidade é muito fácil saber quais as empresas que financiaram a ditadura e que, realmente, estão vivíssimas, financiando candidatos a eleições de qualquer naipe. Basta procurar, por exemplo, no estados de São Paulo, na Junta Comercial ou nos DIários Oficiais (ineditoriais) da época, onde estão publicados, balanços, Atas Gerais Ordinárias e Extraordinárias. Nessas publicações constam eleições de militares como presidentes de várias empresas muito poderosas.
Ironicamente,a TV Cultura,onde o Vladimir Safatle é
comentarista,foi criada no regime militar.A concessão foi
dada pelo Costa e Silva….e durante o regime militar,nenhuma estatal foi privatizada.Já na democracia,
privatizaram quase tudo.Só faltaram privatizar a floresta
amazônica.Nem precisa dizer qual governo foi,né?