Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu

publicada quinta-feira, 11/08/2011 às 08:37 e atualizada quinta-feira, 11/08/2011 às 08:10

Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu
Por Michael Moore, no Opera Mundi

De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos irá me perguntar: “Quando tudo isso começou, o deslizamento da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com a renda de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). De um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas todo verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao cara que pintava sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, lhe daria as garantias de uma aposentadoria, aumentos eventuais, seguro saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.

As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam: “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de agosto de 1981.

A partir desta data, 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “botar para quebrar” – para ver se poderiam de fato destruir a classe média, e assim se tornarem mais ricos.

E eles se deram bem.

Em 5 de agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado sua ordem de retornarem ao trabalho e declarou seu sindicato ilegal. Eles estavam de greve há apenas dois dias.

Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o fato de que o PATCO foi um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará conosco?

Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, junto à direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.

Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e jogar seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:

* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.

* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as suas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Seus pais devem estar em casa na hora de pô-los para dormir.

* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E para metade das companhias de seguro: vão em frente e decidam quem vocês querem ajudar – ou não.

* Os sindicatos são maus! Você não será sindicalizado! Você não precisa de um advogado! Cale a boca e volte para o trabalho! Não, você não pode ir embora agora, não terminamos ainda. Suas crianças podem fazer seu próprio jantar.

* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!

*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!

E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO

A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de caminhão, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebra-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.

Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos apoiando a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de natal em Agosto para as corporações da América.

E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e o fizeram. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fusionassem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.

E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram e protegeram os seus empregos, suas moradias e escolas (os quais costumavam ser os melhores do mundo). Simplesmente aceitaram seu destino e tomaram porrada.

Eu sempre me pergunto o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar, ponto, em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê a esses controladores de voo os seus empregos de volta ou eles derrubarão o país”? Você sabe o que teria acontecido. A elite das corporações e seu boy, Reagan, teriam se dobrado.

Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média em nosso país e, em troca, arruinaram o futuro de nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados por 30 anos. Dê uma olhada nas estatísticas e você poderá ver que todo o declínio que estamos sofrendo agora teve seu início em 1981 (eis aqui http://www.youtube.com/watch?v=vvVAPsn3Fpk uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme mais recente).

Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixamos que isso ocorresse a nós. Sim, eles tinham o dinheiro e a mídia e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já se perguntou o que seria se 200 milhões tivessem se enfurecido e quisessem seu país, sua vida, seu emprego, seu fim de semana, seu tempo com suas crianças de volta?

Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos esperando? Esqueça os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam sair dos seus gabinetes de trabalho local no próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro de corporações – ou as deixem de lado.

Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano de Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para você?

Por que não aproveitar este momento para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que você pode dar pela sua vizinhança e em seu local de trabalho, em sua escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?

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4 Comentários

4 Comentários para “Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu”

  1. Flavio Z disse:

    Rodrigo,

    Muito obrigado pela aula de história. Confesso que eu nunca tinha ouvido falar sobre isto antes. Realmente, neste nosso mundo, quem tem o controle da mídia, tem o controle da população e dos votos.

    Complementando, hoje de manhã ouvi na CBN, por quase 1 hora, um debate uníssono a favor da ética (tomando por base as investigações nos Minitérios). Pude ouvir que a noveda das 9 (Globo) também está com estes discursos em seus diãlogos. Cara, estou com medo!! EStão criando um clima de comoção nacional contra a corrupção bastando somente que uma Operação da Polícia Federal pegue a Casa Civil novamente para que tentem derrubar a Dilma. É questão de tempo, pouco tempo. Acho que a nossa Presidenta não vai conseguir nem ter tempo de saber o que aconteceu. Segundo o manual que ensina a se fazer revoluções, primeiro cria-se um inimigo nacional (corrupção, comunismo, censura da mídia, armas nucleares), mobiliza-se a massa contra ele e depois une-se este inimigo à imagem de uma pessoa ou grupo. Pronto, está feita a base para o golpe sem reação. Estes caras não têm tempo a perder, os EUA e Europa precisam urgentemente de mercado consumidor, commodities baratas e empresas lucrativas. O Brasil é a bola da vez!!

    • Roberto Sa disse:

      Isto funciona quando a economia vai mal e o desemprego muito alto, daria certo no final do governo FHHC e foi possível derrubar o Collor. Felizmente agora as coisas estão um pouco diferentes e o Brasil ainda pode avançar, mas falta escola, sem educação o povo é facilmente manipulado.

  2. Edna Nogueira disse:

    “O fim dos sindicatos significa a destruiçao das garantias de emprego”.

    Se não for a força do sindicato que apoia o trabalhador, sem sombra de dúvida não serão os políticos e nem muito menos esses empresários capitalistas.

    É triste, mas acredito que existe muitos sindicatos que são dominados pelo patrão (empresário) e os funcionário por sua vez, gostam de serem subordinados(ganhando uma grana extra).

    Infelizmente não há uma fiscalização mais rígida que possa punir e até mesmo mudar essa política suja.

    Temos que nos preocupar sempre com esse fator social que estamos inseridos.

    Belo post, Michael Moore.

  3. Mardones Ferreira disse:

    Pois é. Porém, isso vem à tona agora, pois vivemos os anos glorioso de 1990, tendo os EUA como uma nação rica e democrática.

    Eu que tenho parentes lá, desde os anos 1980, sei que a realidade americana nunca coincidiu com o veiculado por aqui.

    Quando meu irmão mudou para NY – nos idos dos 1990 – deu de cara com outro país chamado Brooklyn e Harley. Muito diferente de tudo o que sempre veicularam os jornais e revistas do Brasil.

    Michael, nos últimos anos, vem provendo um abre-olhos ao mundo para a situação nos EUA, porém a crítica precisa ser feita ao sistema capitalista como um todo, pois desde que o Sr K. Marx debruçou-se sobre o tal sistema, descobriu-se que nem um fruto bom para a sociedade poderia sair de lá.

    A grande questão é: substituir o Capitalismo por qual sistema? Quais mecanismos efetivos de defesa da ordem social?

    Não há sistema que não possa ser corrompido e pensar utopicamente que pessoas vão se unir contra o ”mal” que pode atingi-las é um erro.

    A execução da democracia é por demais trabalhosa, pois exige seres humanos.

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