Wallerstein: a direita avança na America Latina

publicada sexta, 17/07/2009 às 00:40 e atualizado sexta, 17/07/2009 às 00:44 | Comentários 7 Comentários

O professor Immanuel Wallerstein, da Unversidade de Yale, faz o alerta: "melhor ficar de olho na Guatemala". Ele teme que - depois do golpe em Honduras, a direita da América Latina esteja se articulando para o contra-ataque em outros países. Tudo isso diante dos aplausos dos conservadores nos EUA e diante dos vacilos de Obama na condução da crise hondurenha. 

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A DIREITA LATINA CONTRA-ATACA 

por Immanuel Wallerstein

O governo de George W. Bush foi o momento da maior onda de vitórias dos partidos à esquerda do centro na América Latina, em mais de dois séculos. O governo de Barack Obama corre o risco de ser o momento da vingança da direita na região.

O motivo pode ser o mesmo: a combinação entre o declínio do poderio americano e a posição central que os EUA ainda mantêm na política mundial. Os EUA são incapazes de se impor, mas ainda assim são vistos como aliados necessários por quase todo o mundo.

O que aconteceu em Honduras? O país vem sendo há muito tempo um dos mais seguros pilares das oligarquias latino-americanas -uma classe dominante arrogante e insubmissa, com estreitas conexões com os EUA, em um país que abriga uma grande base militar americana. As Forças Armadas do país são cuidadosamente recrutadas de maneira a evitar qualquer contágio por oficiais com simpatias populistas.

Como oriundo da classe dominante, a expectativa era a de que Zelaya continuasse a jogar o jogo como os presidentes hondurenhos sempre jogaram. Mas, em vez disso, sua posição política começou a ganhar tons esquerdistas. Zelaya empreendeu programas internos que, na verdade, faziam alguma coisa pela vasta maioria da população -construção de escolas em regiões rurais remotas, aumento no salário mínimo, criação de clínicas de saúde. Após dois anos, aderiu à Alba, a organização de cooperação internacional fundada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Depois, ele propôs realizar um plebiscito sobre a opinião da população quanto à possível convocação de uma Assembleia Constituinte. A oligarquia berrou que isso era uma tentativa de mudar a Constituição para que Zelaya pudesse disputar um segundo mandato. Mas, como o plebiscito seria realizado na mesma data em que a eleição de seu sucessor, a alegação era claramente falsa.

Por que, então, o Exército conduziu um golpe de Estado, com apoio da Corte Suprema, do Legislativo e da Igreja Católica? Dois fatores foram decisivos: a opinião desses grupos sobre Zelaya e sua opinião sobre os EUA. Para a oligarquia hondurenha, Zelaya traiu sua classe e por isso merece ser punido, para servir como exemplo.

E quanto aos EUA? Quando o golpe aconteceu, alguns dos mais ruidosos comentaristas de esquerda da blogosfera o definiram como "golpe de Obama". Mas isso ignora a realidade. Nem Zelaya, nem seus partidários nas ruas, nem Chávez e nem Fidel Castro analisam a situação de maneira tão simplista. Todos eles percebem a diferença entre Obama e a direita americana (políticos ou comandantes militares) e expressaram repetidamente uma análise muito mais balanceada.

Parece bastante claro que a última coisa que o governo Obama desejava era um golpe como esse. O golpe, na verdade, foi uma tentativa de forçar Obama a uma atitude. E essa posição foi sem dúvida encorajada por importantes figuras da direita americana, entre as quais Otto Reich, o americano de origem cubana que assessorava Bush sobre a política regional. Foi algo parecido com a tentativa do presidente Mikhail Saakashvili, da Geórgia, de forçar uma ação dos EUA, ao invadir a Ossétia do Sul. Aquela também foi uma ação empreendida com a conivência da direita dos EUA. Mas não funcionou porque os soldados da Rússia impediram.

Obama está vacilando desde o golpe em Honduras. E por enquanto a direita hondurenha e dos EUA está contente por ter conseguido reverter a política americana. Bastam algumas de suas declarações mais absurdas como prova. O chanceler hondurenho apontado após o golpe, Enrique Ortez, afirmou que Obama era "um negrinho que não sabe nada de nada". O embaixador dos EUA protestou contra o insulto, e Ortez terminou transferido a outro posto.

A direita dos EUA é mais polida, mas não menos feroz. O senador republicano Jim DeMint, a deputada de origem cubana Ileana Ros-Lethinen e o advogado conservador Manuel Estrada vêm insistindo em que o golpe era justificado porque, na verdade, não foi um golpe, e sim uma defesa da Constituição hondurenha. E Jennifer Rubin, uma blogueira de direita, publicou um post intitulado "Obama está errado, errado, errado sobre Honduras".
A direita hondurenha está tentando ganhar tempo, até que se encerre o mandato de Zelaya. Caso consigam realizar esse objetivo, terão vencido. E as direitas guatemalteca, salvadorenha e nicaraguense estão assistindo a tudo, ansiosas por promover golpes contra os governos de seus países.


A esquerda chegou ao poder na América Latina devido ao momento econômico propício e à distração dos EUA. Agora, a distração continua, mas o momento econômico é pior. E a esquerda leva a culpa por estar no poder, ainda que na verdade haja pouco que os governos de esquerda possam fazer quanto à economia mundial.
Será que os EUA podem fazer algo mais com relação ao golpe? Bem, é evidente que sim. Primeiro, Obama poderia oficialmente classificar o golpe como golpe. Isso faria com que passasse a valer a lei americana que dispõe que toda a assistência dos EUA a Honduras seja suspensa. Ele poderia retirar o embaixador americano do país.


Poderia dizer que não há nada a negociar, em lugar de insistir em "mediação" entre o governo legítimo e os líderes do golpe.

Por que não faz tudo isso? É simples. Há pelo menos quatro outros itens de grande urgência em sua agenda: a confirmação de Sonia Sotomayor para a Suprema Corte; a confusão no Oriente Médio; sua necessidade de aprovar ainda neste ano seu pacote de saúde; e a pressão pela abertura de um inquérito sobre os atos ilegais do governo Bush. Lamento, mas Honduras ocupa o quinto lugar.

Assim, Obama vacila. E ninguém ficará satisfeito. Zelaya pode ser restituído ao seu posto, mas talvez só daqui a três meses. Tarde demais. Melhor ficar de olho na Guatemala.

Comentários 7 Comentários | Comentar!

 

Marcel comentou em 21/07/2009 às 00:21

O Lula sempre evitou o enfrentamento direto com a direita (que ele chama de chavismo), e talvez por isso ainda continua no poder. No entanto, abriu mão de promessas feitas em campanhas e para compensar os mais pobres criou o assistencialismo. Ficou refém da direita, para a qual tem mais governado, e caso deixe o governo sem fazer o sucessor, tudo volta às origens. Sequer preocupou-se em romper velhos privilégios e feudos oligárquicos envolvido como sempre esteve com a volúpia dos reacionários. O seu jogo de cintura vai-lhe permitir chegar ao final de seu mandado, mas para o povo...valeu a pena!

Mateus Nascimento comentou em 20/07/2009 às 19:33

Ótimo texto Rodrigo, muito preciso a crítica dele.

Cláudia comentou em 19/07/2009 às 12:02

Obama não vacila. Wallerstein esquece quem é o modelo do homem. Sim, ele mesmo, Lula, que aprendeu bem cedo que macaco que muito pula quer chumbo, por isso o negócio é fazer e não alardear. Chávez, por exemplo, a despeito de todos os seus anos de governo ainda não conseguiu entender essa simples verdade. Pois é só por conta dessa verdade que Lula vêm conseguindo governar. Não perdeu tempo com discurso provocador que só serviria para comprometer sua causa. Pois se sem provocar passou todo o seu governo se esquivando dos golpistas, que dirá se entrasse nessa luta inglória. Mas é um fato que o golpismo aqui na Américas é ideologia corrente - e nem me venha com essa de dizer que a direita nos EUA é mais polida, ora, não foi lá que 4 presidentes foram assassinados? A não ser que ele esteja falando de falsa polidez, isto é, aquela que mostra com um verniz de fineza para declarar verdadeiras barbaridades, como esta nossa amiga aqui. http://www.linearclipping.com.br/conab/m_stca_detalhe_noticia.asp?cd_sistema=26&cd_noticia=803857

Flavio Lima comentou em 18/07/2009 às 11:41

Comentario de Caetano no blog Esquerdopata: "Você não sabe da maior: A Folha quer mudar o nome do país. Agora, Honduras vai se chamar Hombrandas. Pra ficar mais no gosto da FSP". Engraçadissimo, apesar de toda a tragedia.

mineiro comentou em 18/07/2009 às 09:18

mesmo que seja pra morrer o povo em geral de america latina , tem que lutar com unhas e dentes e nao deixar essa direita que representa a toda a burguesia da america latina, voltar ao poder , isso vai ser um retrocesso as dituduras dos 70 e 80.

Beto Lima comentou em 17/07/2009 às 16:40

Se eu entendi, então Obama está se vendo obrigado a governar os EUA, mas com um governo paralelo?(capitaneado pelos Resquícios de Bush e Cheney?).

Paulo Jonas comentou em 17/07/2009 às 10:49

Análise excelente!

Escrevinhador por Rodrigo Vianna