Palavra Minha

Tucano: "há muita água pra rolar debaixo da ponte"
Depois das pesquisas Vox Populi e CNT/Sensus, a mostrar que Dilma se aproxima de Serra, não resisti e liguei para um bom amigo tucano (nao sou sectário, tenho amigos tucanos, palmeirenses e até sãopaulinos), e provoquei: "desse jeito o Serra desiste, e voces vão ter que chamar o FHC pra ser candidato!" Ele devolveu, com um ar de sabedoria - "calma, até outubro ainda há muita água pra rolar debaixo da ponte." Argumentei que essa nao é uma boa expressão para ser usada pelos tucanos, especialmente em São Paulo. A água que passa debaixo da ponte inunda as ruas, irrita os eleitores, e lança Serra no lamaçal da dúvida. A água que passa debaixo da ponte carrega votos para Dilma.
O Paraguai, o Brasil, a Guerra e os vices - lá e cá
Escrevi outro dia um texto, com breve referência à chamada "Guerra do Paraguai". Vários leitores corrigiram-me, lembrando que a antiga tese, que apontava os interesses ingleses como causa principal da Guerra, já foi amplamente superada pela historiografia mais recente. Mas peço licença agora para falar de outra guerra, do presente. Refiro-me à guerra política - travada tanto no Paraguai como no Brasil. O vice de Lugo usa o cargo para atacar o presidente: a imprensa paraguaia abre grandes espaços para que Federico Franco (foto), muy amigo, faça os ataques. Fico a imaginar um governo de Dilma, com Michel Temer na vice. Seria o vice dos sonhos... da oposição.
Madame Lynch, o Paraguai e a guerra de Cabañas
Motivos familiares me trazem a Assunção – de onde escrevo agora. Aqui não se fala de política nem de economia. Mal desembarquei, e o taxista consternado já me perguntou: “o que dizem no Brasil sobre Cabañas?”. Eu, envergonhado, não sabia de nada. O ótimo centro-avante paraguaio tem um biotipo improvável: é gorducho. Cabañas foi baleado, na cabeça, no México. Dizem que está consciente, mas os médicos não conseguiram retirar a bala. Aqui no Paraguai, só se fala nisso. Eu aproveito a viagem para aprender algo sobre Elisa Lynch - outra improvável personagem. Irlandesa, foi a mulher de Solano Lopez - presidente paraguaio. Hospedo-me num hotel que já foi a casa dela.
Gramsci fora do lugar numa noite calorenta do Rio
Meu filho dorme mansamente, e traz para o quarto aquela calma que só o sono das crianças é capaz de proporcionar. Foi um dia muito mais do que abafado: calorento, suarento, quase insuportável. Estamos em Ipanema. A rua está tomada de gente: jovens cariocas, jovens argentinos, além de italianos, ingleses e franceses nem tão jovens assim. Música alta vem dos bares. Em todos eles, há telões, com clips, filmes, noticiário de TV. Eles se divertem, de verdade? Quem sou eu para julgar... Carrego debaixo do braço um livro sobre Gramsci. Numa noite quente, no verão da zona sul carioca, Gramsci e eu é que estamos fora do lugar.
Os cafajestes não querem a Comissão de Verdade
Numa atitude cafajeste, alguns setores da sociedade brasileira apresentam a “proposta” de – ao se instituir uma Comissão de Verdade sobre a ditadura – investigar-se “os dois lados”. Não faz o menor sentido. É como se, ao fim do nazismo, alguém propusesse: “ok, vamos investigar os carrascos, mas é preciso levar ao banco dos réus também os judeus que resistiram ao legítimo regime nazista”. É preciso investigar os que seguem impunes. Assassinos e torturadores. A Justiça poderá puni-los? Talvez. Mas o principal é estabelecer a verdade. Não há nada de "revanchismo" nisso. Revanchismo seria pegar os torturadores e pendurá-los no pau-de-arara, ou arrancar-lhes as unhas e dentes. Não é isso que se propõe. Entidades que representam as famílias lançaram uma carta, no fim do ano, no Rio. É uma espécie de roteiro para que a Comissão de Verdade funcione bem. Confira.
A rádio no interior do RS: comunicação na veia!
Por conta das chuvas, que fizeram desabar uma ponte sobre o rio Jacuí, no município gaúcho de Agudo, fui enviado ao interior do Rio Grande do Sul, pela TV Record. Meu objetivo em Agudo era entrevistar Márcio Nunes, jornalista da "Rádio Agudo" (pequena estação local), que narrou ao vivo o momento em que a ponte desabou. O Márcio não estava, mas no estúdio trabalhavam o locutor Luiz Henrique e o operador de aúdio André. Que belo trabalho eles fazem. Lá pelas tantas, o locutor Luiz Henrique surpreendeu-me: "agora, um aviso de desaparecimento; seu fulano, morador da comunidade X, avisa que perdeu uma novilha no campo". Achei o máximo! Pensei se essa não é a verdadeira "comunicação social". Era assim, com a simplicidade deles na rádio, que eu sonhava fazer jornalismo.
Boris Casoy, Tolstói e meus dias com o pé na areia
Passei dez dias de pernas pro ar, na praia. Com a família e alguns bons amigos. Só não descansei mais porque meu filho Francisco não deixou. Meus dias se passaram assim: protetor solar no Francisco, um mergulho no mar, papo furado de frente para o Altântico. Quando sobrava tempo, eu me debruçava sobre "A Última Estação", de Jay Parini. Trata-se de um romance - baseado em fatos reais - que reconstitui os (traumáticos) últimos meses de vida do gigantesco Leon Tolstói. Leitura comovente. O nobre Tolstói valorizava os homens simples. Achava que do mujique (camponês) russo vinha a verdadeira sabedoria. Boris Casoy (que tem ascendência russa) pelo visto segue outra linha. Ele despreza os garis. Senti pena do Boris. Acho que os dias na praia amoleceram meu coração. Agora, já estou longe do mar e perto do asfalto. Bom 2010 a todos!
Belluzzo chama juiz de "vigarista", e ameaça Globo
Como sabem alguns dos leitores desse "Escrevinhador", sou corinthiano de nascença. O que não me impede de (às vezes) manter alguma racionalidade futebolística. É o que me faz afirmar que, neste domingo, o Palmeiras foi prejudicado pela arbitragem, no Maracanã, contra o Fluminense. O juiz Carlos Eugênio Simon viu falta de Obina no gol que o palmeirense marcou, de cabeça. Acontece que o gol foi legítimo, limpo, irretocável. Há forças ocultas nos bastidores do Campeonato Brasileiro? Quem viu o gol anulado fica em dúvida. O presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Beluzzo não tem dúvida. Sempre tão educado, ele está botando fogo pelas ventas. Ao "Lance", Beluzzo deu a seguinte definição sobre Simon: "É vigarista, safado e crápula" (lembrei do Otavio Augusto - foto - que interpreta um antológico juiz ladrão em "Boleiros"). E disse ao "Terra" que não vai aceitar jogo antecipado pela Globo.
A resposta de Juca Kfouri: para quem?
Urubus e jornalismo: colunistas de costas para os fatos
Fui tomar café-da-manhã na padaria. Sobre a mesa, outro cliente havia esquecido o "Estadão". O jornal estava aberto bem na página da coluna da Dora Kramer. O título: "Uma nação de cócoras". A Dora Kramer parecia apenas mal-humorada com a popularidade de Lula. E inconformada com a pouca disposição dos tucanos para brigarem com Lula. O jornalismo, no Brasil, tem cumprido o papel de "formulador" e "animador" da oposição. Mas a oposição é indisciplinada. Aí, o comitê central do partido reclama. E enquadra os infiéis. O jornalismo, comandado por certas colunistas, coloca-se de costas para os fatos. De costas para o país. Outro exemplo é Miriam Leitão. Previu queda da Bolsa: dise que a Bovespa chegaria, ao fim de 2009, aos 45 mil pontos. Resta-lhe o papel de urubulina... A torcida do Fluminense vai passar as próximas semanas torcendo pro time não cair, a Miriam vai torcer pela derrocada da Bolsa.
Batalha da mídia: diferenças entre Argentina e Brasil
A Argentina comprou briga com a mídia conservadora. Os argentinos aprovaram a nova Lei de Comunicações. Ela restringe o poder das grandes corporações de imprensa. O jornalista Altamiro Borges tem um livro muito interessante em que mostra como – na América Latina – a mídia se transformou num partido político que formula e repercute as teses mais conservadoras. Na Venezuela o confronto é permanente (TVs e jornais participaram do golpe contra Chavez em 2002); na Bolívia, os jornais conservadores tratam Evo Morales com desprezo e, em alguns casos, com indisfarçado racismo; no Equador, Rafael Correa enfrenta dilemas semelhantes. Equador, Bolívia e Venezuela decidiram enfrentar o problema de frente. Na melhor tradição "espanhola". Agora, os Kirchner fazem o mesmo na Argentina. É pau a pau. Conflito aberto. Batalha campal. Pois bem. E no Brasil? No Brasil, é bem diferente: o jogo é mais sofisticado, mais sutil, mais dissimulado. Lula come pelas beiradas...
Vira-latas tentam atrapalhar a festa do Rio-2016
O complexo de vira-lata segue fortíssimo em nosso país. Se bem que, agora, parece mais restrito a setores da classe média... Falo das estranhas reações a esse acontecimento maravilhoso: a vitória do Rio como sede das Olimpíadas de 2016. Em qualquer lugar do planeta seria motivo para comemorar. Mas, no Brasil, aparecem nessas horas os corvos agourentos: e a a corrupção? e as favelas? e a violência? Mas que diabos! Parece-me tão óbvio que Olimpíadas não são (nem nunca serão) o remédio para nossos problemas seculares, parece-me isso tão óbvio (repito!) que sinto até certa vergonha de precisar argumentar. No futebol, o brasileiro superou (com ajuda de Pelé) esse complexo de vira-lata. A vitória e a reeleição de Lula são a prova de que parte dos brasileiros, especialmente os de origem mais humilde, também superou o complexo. Com Lula, o Brasil deixou de se ver como colônia.
Marola nós achamos; mas e Marolinha, cadê?
Quando eu não sei direito onde foi parar um jogador antigo, tenho dois caminhos: vasculho a sessão "Que Fim Levou", no blog do Milton Neves; ou então pergunto ao Melado. O Melado é um assistente de câmera com quem trabalhei na Globo. Agora, trabalhamos juntos na Record. O Melado adora seguir o rastro de ex-ídolos do futebol. Foi o Melado quem me revelou, há alguns anos, o paradeiro do Marola. Vocês lembram dele? Goleiro do Santos (e do Atlético Paranaense - vejam a foto acima) ele vive em Jaú (SP). O próprio Milton Neves me escreveu pra confirmar: Marola, na verdade, trabalha num hospital de Jaú. Bem, então está resolvido. Marola sabemos onde foi parar. A dúvida é quanto a Marolinha. Com o resultado do PIB do segundo trimestre de 2009, Marolinha sumiu. Deve ter avançado sobre a rua Irineu Marinho, invadindo a coluna da Miriam Leitão... O Brasil deixou Marolinha (e Miriam) pra trás.
Maradona, "Clarin" e a implicância com os argentinos
A Argentina está nas manchetes. E nem falo da "invasão" do "Clarin" pelos fiscais de Kirchner. Sobre isso escrevo mais adiante. O que me espanta mesmo é a torcida dos brasileiros contra a Argentina de Maradona. Cada vez mais acirrada. Por que os argentinos incomodam tanto? Tenho uma simpatia imensa pela Argentina. Adoro Buenos Aires. Tive a sorte, também, de conhecer razoavelmente bem o interior do país. Que belo país. E que povo acolhedor. Por isso, não entendo essa implicância com os argentinos. Torço para que os argentinos estejam na Copa da África do Sul. Também torço pelo Maradona. Personalidade menos linear e menos óbvia do que a do nosso grandioso Pelé. E torço – voltando ao tema de abertura desse texto – para que os Kirchner vençam a queda de braço com o grupo “Clarin”. Torço para que a Argentina se liberte. Torço para que a Argentina seja grande e feliz. Dentro de campo e fora dele.
PSDB agora vai defender o ´bolsa-esmola´
Acordei tarde para o café da manhã. Sobre a mesa, além de umas broas de milho, havia o "Estadão" e "O Globo". Desde que decidi cancelar a assinatura da "Folha", após o episódio "ditabranda", minha mulher vez por outra compra outros jornais. Acho que é uma campanha subliminar para que eu assine algum deles. Hoje, tentei ler os dois. Mas são patéticos. Mais patética foi a notícia que eu encontrei no "Estadão, na página A-11: "PSDB quer abandonar crítica a projetos de Lula". O jornal "informa" que os tucanos estão orientando as bases do partido a dar "visão positiva" dos programas sociais de Lula. O comando do PSDB não quer passar a "impressão" (impressão?) de que é contra Bolsa-Família, por exemplo. Tarefa inglória. Que programa os tucanos têm a oferecer? A base social tucana é a classe média raivosa que acredita no "Estadão", na "Folha", em "O Globo" e no "Zero Hora". Jornais terão trabalho para defender o 'bolsa-esmola'. Azar o deles. Coloco os jornais no lixo. E vou comer minhas broas de milho.
Renato Rovai: "A ditadura da mídia" é livro dos bons
Renato Rovai, em seu blog, comenta o novo livro de Altamiro Borges: "Desconheço no Brasil um trabalho com o fôlego de pesquisa deste "A Ditadura da Mídia" que organize de maneira tão sintética o problema da disputa midiática atual. Até por isso, disse ao Miro que acho o título da obra um tanto enganador. Ele trata de uma batalha, de uma disputa, de uma luta entre aqueles que têm construído um novo patamar na democratização das comunicações e ao mesmo tempo denuncia as corporações midiáticas e suas mazelas. Ou seja, não fala de uma ditadura, mas de um conflito. Até acho que é um conflito assimétrico. Algo como um exército tradicional e um bando meio desorganizado mas ao mesmo tempo relativamente eficiente de guerrilheiros. É um livro que tem potencial para fazer história. Como um outro livro lançado como “livrete” e que virou best seller: "O Brasil Privatizado", de Aloysio Biondi."
Sarney e Parreira: saíram da história para cair na vida
Meu pai costumava dizer que o Pelé é o Pelé por dois motivos: porque foi um gênio, e porque soube parar na hora certa, no auge. Ninguém viu Pelé definhar, encolher em público, tropeçando nas pernas, na idade ou na bola. Fico a pensar nisso quando leio as notícias sobre Carlos Alberto Parreira e José Sarney. Os dois estão longe de ser gênios, eu sei. Mas podiam ter entrado para a história de forma mais digna. Pelo Sarney, nunca tive simpatia. Fez um governo medíocre... Não tenho nada contra o Parreira. Pelo contrário. Quando ele dirigiu meu time, em 2002 , vivemos tempos estranhamente tranquilos. Não entendo porque ele foi entrar nessa fria: dirigir o Fluminense a essa altura da vida? Pra que? Acabou demitido, humilhado. Se seguir assim, vai virar um Leão, um Luxemburgo. Vai virar um .... Sarney! Com uma diferença: é mais fácil tirar o Parreira do Fluminense do que o Sarney do Senado.
Michael e a moça de Paris: dor da gente não sai no jornal
Agora há pouco, checava na internet datas de lançamento dos discos de Michael Jackson, quando encontrei uma nota que me tocou de verdade: a história da moça que se jogou da Torre Eiffel. Planejou a morte, ou tudo se deu num impulso, enquanto observava a linda paisagem parisiense? Foram dores de amor que a levaram ao gesto extremo? Parece que no último instante o irmão correu até ela e tentou evitar o salto no vazio. Foi inútil. Ela caiu sobre um restaurante. E o mais triste: os clientes seguiram comendo, contou um garçon. Nas próximas semanas, muito vai se falar sobre as dores (da alma) de Michael Jackson, as dores que faziam a vida ser quase insuportável pra ele. E as dores da moça de Paris? E as dores de todos nós?
Praia e sertão: cabeças cortadas e cabeças coroadas
No meu périplo sertanejo, a descoberta do dia é uma cidade que nem estava no roteiro original: Piranhas (AL), na beira do rio São Francisco. Cidadezinha encantadora, com lindo casario, e conhecida também porque lá ficaram expostas as cabeças de Lampião e outos cangaceiros mortos em 1938. Depois, sigo para Aracaju (SE). Ali, na orla, encontro um conjunto pomposo de esculturas: José Bonifácio, Dom Pedro II, Duque de Caxias, Barão do Rio Branco, Getúlio, Juscelino... Todos engravatados, engalonados. No sertão de Sergipe, não há engravatados nos monumentos. A pracinha na avenida principal de Poço Redondo tem um monumento simples, com chapéu de cangaceiro e o nome de Lampião.
Lampião, Marx e Bin Laden na terra do "Bom Ladrão"
Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, é a terra de Lampião. Serra Talhada é também a terra de “O Bom Ladrão”. Esse é o nome do principal mercado da cidade. O dono é uma figura: Geraldo Pereira é fã de Bin Laden e de Lampião. Não é o único espírito rebelde por aqui. O coordenador do "Museu do Cangaço" de Serra Talhada tem dois filhos. Um chamado Karl Marx, o outro Sandino Lamarca. Original, não? Mas os rebeldes do sertão não conseguem mudar a política local. Aqui, quem dá as cartas é um velho conhecido dos brasileiros - um trânsfuga que trai sempre na hora certa, para ficar ao lado de quem ocupa o poder central. Na terra do "Bom Ladrão", ele, Inocêncio Oliveira, ainda é o rei.

 

Escrevinhador por Rodrigo Vianna