Copa do mundo: vitórias inesperadas do futebol “feio”
publicada domingo, 13/06/2010 às 20:38 e atualizada quarta-feira, 16/06/2010 às 14:55
Quem não se lembra do bigodudo italiano Gentile a correr – feito uma sombra – atrás do nosso camisa 10, Zico? Bem, a maioria talvez não se lembre, porque isso se passou no longínquo ano de 1982, na Copa da Espanha. Pra mim, parece que foi na semana passada, tamanhas são as emoções que ainda guardo daquela partida.
O corpulento Gentile grudou feito carrapato em Zico, chegou a rasgar a camisa do “galinho” na área. A TV mostrou, só o juiz não viu o pênalti. Verdade que o Brasil também tinha Sócrates, Falcão, Junior, Leandro. Era um timaço. Mesmo assim, acabou batido pelo futebol feio dos italianos. A derrota, por 3 a 2, ficou conhecida como “A Tragédia de Sarriá” (nome do estádio espanhol onde se deu a malfadada partida).
Aquela foi uma derrota tão marcante como a de 1950 no Maracanã. Depois de Sarriá, os brasileiros nunca mais ousaram jogar “pra frente”, com liberdade total para os craques. Desde então, o Brasil aprendeu que – pra ganhar – muitas vezes é preciso jogar “feio”. Mais ou menos como Lula fez com os juros do Banco Central no primeiro mandato!
Mas não precisamos exagerar (nem nos juros, nem no futebol). Na lamentável Copa de 1990, por exemplo, o Brasil jogou um futebol tão burocrático e previsível como a política de Meirelles no BC.
As conquistas de 94 e de 2002 mostram bem isso.
Depois de abandonar o “complexo de vira-lata” em 1958, o Brasil aprendeu – com a derrota de 1982 - a não apostar tudo no futebol “cordial” (a expressão “homem cordial”, cunhada por Sérgio Buarque de Holanda, designa uma tendência brasileira à informalidade, ao predomínio do coração, a colocar as relações pessoais acima e à frente de considerações coletivas).
Pode ser uma boa lição. Desde que o “coletivo” não funcione como uma camisa de força, desde que se abra espaço para a criatividade surgir aqui e ali. Foi assim com a genialidade de Romário em 94, e com a categoria de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo em 2002.
O Brasil aprendeu, com as lágrimas derramadas após a derrota de 1982, a mesclar o coletivo e o individual. Sinal de amadurecimento. Por mais que muitas vezes tenhamos saudades do futebol mais “solto” e “irresponsável” de outros tempos.
Mas o tema desse artigo não é o Brasil. Voltemos aos nossos adversários de 82…
A Itália, além do brutamontes Gentile, tinha a firmeza de Zoff no gol, e o oportunismo de Paolo Rossi na frente. Ele fez os três gols da vitória contra o Brasil. Nunca mais jogou tanto, como naquela Copa, em que a Itália seria campeã de forma surpreendente – depois de se classificar para a segunda fase jogando um futebol medíocre, com três empates e apenas dois gols marcado!
Não foi a primeira vez que o time que joga “feio” leva a taça.
Nas últimas décadas, os italianos ficaram com a fama de retranqueiros (justa, aliás); mas os especialistas em ganhar sem ter o time mais vistoso são os alemães.
Foi assim em 1954. A máquina do futebol mundial era a Hungria de Puskas. Meu avô sempre contava que os húngaros eram tão bons que, no começo dos anos 50, clubes paulistas importavam treinadores de futebol da Hungria – para ensinar técnica aos brasileiros (como bater na bola, como dominá-la, como chutar com efeito, usando o lado do pé).
Na primeira fase, a Hungria massacrou os alemães: 8 a 3! Quem viu os húngaros jogar (não é o meu caso) garante que era um futebol tão bonito quanto o brasileiro entre 1958 e 1982. Havia espaço para a criatividade dos craques, comandados por Puskas.
O time germânico não tinha nada disso. Mas tinha o esforço coletivo. E tinha a vontade sobre-humana de conquistar o título para mostrar ao Mundo que – após a barbárie na Segunda Guerra – o país era capaz de se organizar e vencer.
Húngaros e alemães foram pra final. E a eficiência germânica derrotou a genialidade de Puskas: 3 a 2.
Em 74, a história se repetiu. O esquadrão da moda era a Holanda de Cruyff. Na “laranja mecânica”, não havia posíções fixas. Os jogadores tinham liberdade para girar pelo campo, sem grandes amarras. Os holandeses eliminaram o Brasil, e foram à final contra a Alemanha, como favoritos.
Mas a Alemanha tinha o esforço coletivo. E tinha mais que isso: a categoria de Beckenbauer, a segurança de Zepp Mayer no gol, e o oportunismo de Gerd Muller. Na final, Vogts grudou em Cruyff (como Gentile faria com Zico em 82). Vitória alemã, em casa, por 2 a 1.
Muito antes do Brasil, a Alemanha já tinha aprendido que talento e jogo coletivo podem entrar juntos em campo. E, normalmente, trazem vitórias.
Em 2010, essa será a tônica?
Quem joga mais “bonito”, mais “solto”? A Espanha, sem dúvida, seguida talvez pela Argentina de Messi.
Do lado da eficiência estão Brasil e (como sempre) Alemanha.
Será que a eficiência brasileira vai embotar e tolir o talento de nossos jogadores. Pelo que vi nos treinos por aqui, temo que sim.
Temo que a vitória possa vir de um time que fica no meio do caminho, como a Inglaterra: aposta no coletivo, mas abre espaço para o individual – com Rooney, Lampard e Gerrard (sem falar no ótimo zagueiro Terry).
Para vencer, a (favorita) Espanha terá que aprender a dura lição: é preciso dar espaço para a criatividade, sim, mas sem esquecer que no futebol um brutamontes como Gentile pode sempre barrar o talento de um Zico.
Para vencer, é preciso mais do que craques – como mostram os exemplos de 1954, 1974 e 1982.
* esse texto foi publicado originalmente no “Portal Vermelho”, na seção especial sobre a Copa do Mundo - http://www.vermelho.org.br/copa2010/.
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19 Comentários




rodrigo,
em 1974 a alemanha também era um timaço,pois, além daqueles que você citou ela tinha os craques breitner,bonhof e overath.
Mas não esqueçamos que o Toninho Cereso teve papel crucial na Tragédia de Sarriá, dos 3 gols marcados pela Itália, dois saíram dos pés dele. Lamentável, mas fazer o que. Entre o futebol feio e o bonito, sou radical: prefiro o bonito. Afinal tanto como o feio e o bonito não se ganha todas. As conquistas do Brasil até 70 foram maravilhosas. A de 94 foi medíocre, daí para frente nem vou lembrar. Bom, o futebol mundial se europeizou. Vejam essa copa, tudo mundo joga igual, só muda o uniforme dos selecionados. Com o Brasil hoje em campo não será diferente. Ontem foi muito triste ver Camarões totalmente apático e sem criatividade nenhuma. A África no geral morreu, assim como a América do Sul, times como Chile, Brasil e Argentina fazem já parte da escola européia de futebol. Na minha opinião a Argentina até que resistiu na última copa quanto a esse padrão europeu, mas nesta copa morreu também o futebol arte. A Fifa até que tentou criar uma bola mágica para tentar aumentar a média de gols nesta copa, mas pelo jeito não deu muito certo. A “nossa” seleção Brasiliana de Futebol entrará hoje em campo com dois laterais fazendo a função dos pontas, lamentável este fato para um país que se consolidou como potência mundial pelas pontas. Depois que o técnico virou professor o aluno malando, esperto, criativo, que tirava notas boas, mesmo sem estudar, que dormia com a bola, treinava depois dos término dos treinos, sumiu, desapareceu para sempre. Porque ele não respeitava padrões, não entendia muito porque tinha que aprender a jogar, treinar jogadas mediócres ensaiadas, se eles simplesmente teria que entrar em campo e jogar. Não entende o que é ser profissional (na concepção de hoje), apenas quer jogar bola… Ainda existe, mas não nos nossos campos.. Ficou então o bom aluno, aquele que estuda o básico, aprende a chutar (somente daquele jeito e não de outro), aprende os fundamentos do futebol antes de saber a arte de jogar de fato, tira notas boas (entre 5 e 7), é educado, é padronizado. Padrões, padrões, padrões… até para falar, se comunicar com a imprensa, hoje tudo é padrão. Fico triste por tudo isto, para quem viu Socrates, Zico, Falção, Rivelino, Pelé, Amarildo, Garrincha, Palinha, Ademir da Guia, Coltinho, Clodolado, Nílton Santos, Didi, Gerson e tantos outros craques que dão saldades. Fico na dúvida se a próxima copa será totalmente virtual, pois está cada vez mais fácil reproduzir esses jogos no playstation.
Absolutamente, não foram duas falhas do Toninho Cerezzo. Ele cometeu um erro de cruzar uma bola em nossa defesa que resultou em gol dos italianos. Se v. gosta e entende de futebol e procura ser justo, quando passarem os gols da partida veja o que aconteceu no terceiro gol (de Rossi) da Itália, quando toda a defesa saiu (adiantando a linha do impedimento) e o Júnior bobeou e deu condições de jogo ao atacante italiano. Depois do gol levantou o braço pedindo impedimento, mas já era tarde.Este sim, foi o erro fatal.
Quanto ao Cerezzo você tem razão.
Legal Rodrigo, concordo absolutamente contigo… Mas e aquela “seleção” brasileira de 1970, a que muitos dizem ser o maior selecionado já reunido. Como classificar aquele time? Alguns dizem que aquela defesa era fraca, mas que tinha um ataque poderosíssimo. Outros falam que só ganhamos porque tínhamos um preparo físico muito superior do que as demais seleções… Acho que o ideal seria tentar formar uma seleção como aquela, mesmo sabendo que o futebol hoje é mais dinâmico, com maior predomínio da força e da velocidade. Mas ainda carecemos de um meia a la Gerson, com aqueles lançamentos primorosos. Ah, já ia me esquecendo… Não temos mais um Pelé!!!!
Só faltou dizer que, quando perdeu por 8 a 3 para a Hungria, na primeira fase de 54, a Alemanha jogou com reservas.
Verdade, Ivan. A Alemanha jogou com os reservas na primeira fase. A goleada não expressou a diferença entre os dois times. Ainda assim, quem viu a Copa (já ouvi relatos do recém-falecido Armando Nogueira) garante que a Hungria jogava muito mais, muito mais, do que a Alemanha. Só que não ganhou a final. Abs, Rodrigo.
Eu tenho comentado com os amigos que essa copa com os seus 0×0 e 1×0 está provando que o futebol está ficando cada vez mais “japonês” (tudo igual).
Basta observar pelo crescente preparo físico dos atletas impede as jogadas individuais e/ou coletivas) mais criativas. Onde chega a bola, em instantes tem mais de 3 ou 4 jogadores disputando a jogada.
Eu fiz um balanço e posso dizer que a última grande novidade que vi no futebol foi a Laranja Mecanica em 74.
Já tem tempo… e depois disso é só “mesmisse”.
Eu defendo a tese que uma grande mudança para neutralizar com esse placares “magros” e essa igualdade entre os “desiguais” seria acabar de vez com o “impedimento”.
Se a Fifa fosse menos conservadora, o futebol certamente renasceria…
Em primeiro lugar queiramos ou não, no futebol a vitória é o valor real … times diferenes, épocas diferentes .. só uma coisa eu nõ entendo essa fixção brasileira pel argentina .. o que ela jogou até agora pra ficarem falando tanto … a última vez que a seleção argentina foi campeã foi em 1986 … não jogou nada esses últimos anos e agora não tem jogado nada …os brasileiros estãso entrando no “marketing” argentino … a argentina tem mais conversa do que futebol …
Em 1982 eu tinha quatorze anos de idade e vi a derrota do Sarriá num escritório em que eu trabalhava na cidade de São Paulo. Esse Sarriá era um estádio apertadíssimo e pequeno, onde o futebol brasileiro jogava pelo empate, era só empatar e pronto. Mas naquela tarde o empate era uma coisa efêmera, pois o time italiano jogava tudo o que não tinha jogado anteriormente, os italianos viviam uma crise com a sua imprensa e parte da torcida. O jogador Paolo Rossi, o bambino d’oro já não era tão bambino assim, já tinha participado do escândalo da loteria esportiva italiana e até aquele momento não tinha feito nenhum gol na Copa e era pressionado por torcedores e imprensa italianos. O time mais fraco, a Itália se sustentava na retranca, fez um a zero num descuido fenomenal de nossa zaga e quando o Brasil empatava, eis que eles avançavam e num descuido da zaga brasileira desempatavam novamente com o tal do bambino d’oro. Aquela tarde não era de Telê Santana, nem de Zico, nem de Sócrates ou Falcão, era tarde de Dino Zoff e Paolo Rossi. Aquela geração de jogadores foi marcada pela derrota e pelo belo futebol. É muito mais lembrada do que as seleções seguintes, inclusive a que ganhou com o futebol sem graça e sem estilo de 1994.
Importante é ganhar. Ninguém comemora eliminação em Copa do Mundo. A Espanha, se quiser ganhar, vai ter que jogar com muita raça, deixando até a técnica de lado.
A seleção de 1970 é exceção, pois a regra é “bola para o mato”.
Lógico que é muito mais agradável ver um time com muitos craques jogarem, mas essa cobrança, que tem que jogar bonito e ganhar, é até certo ponto exagerada. Ninguém nunca falou que um time de vôlei ganhou, mas não jogou bonito. Ou que o maratonista conquistou a medalha sem estilo.
Rodrigo: Você esqueceu de dizer que em 1986 Telê continuou a insisitir no erro do futebol solto. Naquela eliminação pra França, porém, ao contrário da Itália em 1982, o que nos faltou foi sorte mesmo. Em 1990, o Braisl foi eliminado pela medíocre Argentina (mesmo com Maradona), quando fez a sua melhor partida. O primeiro tempo desse jogo deveria ser no mínimo uns 3×0 pro Brasil (foram 3 bolas na trave e gols de cara perdidos). COpa do mundo, ao meu ver, é mais organização coletiva e sorte (são apenas 7 jogos) do que talento individual.
A seleção de 1982 realmente era muito forte, só o Serginho é que distoava naquele time. E inclusive contra a Itália foi melhor. Perdeu porque no futebol nem sempre o melhor vence. Agora a seleção de 1994 era o mesmo estilo da de 1990, com a diferença que contou com a sorte nos pênaltis.
Rodrigo, assisti ao jogo Espanha e Suíça, hoje, 11:00. A Espanha perdeu. E confirmou o que vc escreveu. hehehhe
Resposta ao comentário de Cassio Magalhães, postado às 10:44:
Absolutamente, não foram duas falhas do Toninho Cerezzo. Ele cometeu um grande erro de cruzar uma bola em nossa defesa que resultou em gol dos italianos. Se v. gosta e entende de futebol e procura ser justo, quando passarem os gols da partida veja o que aconteceu no terceiro gol (de Rossi) da Itália, quando toda a defesa saiu (adiantando a linha do impedimento) e o Júnior bobeou e deu condições de jogo ao atacante italiano. Depois do gol levantou o braço pedindo impedimento, mas já era tarde.Este sim, foi o erro fatal.
Caras(os),
Convenhamos, o futebol que Dunga jogou e, agora, como treinador tenta nos impor é a própria negação do futebol brasileiro, do futebol, enfim do prazer de jogar ou ver uma partida. Vencer com Dunga é mais trágico que a derrota de 1982, que abriu espaço para os professores e brucutus, não dá para continuar ouvindo barbaridades como:”grupo”, “focado”, “guerreiros”, cars(os) Dunga e seus auxiliares são os “SERRAS-DEMO-TUCANOS’ do futebol!
Rodrigo,
Se a Inglaterra é o meio termo por ter “Rooney, Lampard e Gerrard(sem falar no ótimo zagueiro Terry)”. Nós também somos, pois, temos talentos do mesmo nível, o que dizer de L. Fabiano, Robinho e Kaká (sem falar da ótima dupla de zaga, mesmo não tendo a qualidade técnica do Terry.
Hoje, sábado, 9 horas e 27 minutos, a Copa do Mundo está se tornando um saco, com jogos horríveis como Inglaterra e Argélia, Uruguai e França, Costa do Marfim e Portugal, e muitos outros. Neste momento a Holanda vai empatando em zero a zero com o Japão, mas um jogo horroroso, onde os goleiros não tiveram participação nenhuma. Será que a maioria dos jogos serão assim? Ou será que nas fases seguintes este futebol sem graça vai mudar e melhorar?
Oi Rodrigo
Vendo esses jogos da atual Copa do Mundo, com esses ridiculos resultados, acho que a Fifa tem a obrigação de mudar a quantidade de jogadores de cada time, em vez dos tradicionais 11 deveria autorizar apenas 9.
Haveria mais espaço para que voltássemos a assistir uma partida de futebol com placares mais altos, veríamos mais arte e beleza num jogo que se tornou monótono, pois todos os jogadores correm o campo todo e ocupam todos os espaços do campo, onde o talento de um jogador e sua criatividade em uma jogada individual acabou.
Um abraço
Roberto