Fatos e fotos: "ditabranda é a porra!"

publicada domingo, 08/03/2009 às 21:06 e atualizado segunda, 09/03/2009 às 17:00 | Comentários 5 Comentários

 

O primeiro a falar, em frente ao prédio da "Folha" no último sábado, foi Eduardo Guimarães - idealizador do protesto contra  o jornal.

Atrás dele, o cartaz com o desenho do artista plástico Latuff, feito especialmente para o ato: mostra o jornalista Vladimir Herzog morto (ele foi assassinado pelos militares na prisão), mas com roupa de turista.

Será que, para a família Frias, a "ditabranda" era assim?

  

Eduardo Guimarães abriu a manifestação; Sérgio Lopes foi direto: "ditabranda é a porra!"

Depois, sucederam-se os oradores: parentes de pessoas mortas pela ditadura, sobreviventes da tortura e leitores/cidadãos indignados. Entre eles, Sérgio Pinheiro Lopes (primeiro a escrever pra seção de cartas do jornal, protestando contra  editorial que definia a ditadura brasileira como "ditabranda").

Sérgio foi direto, minimalista. Sua fala foi como um direto no estômago dos Frias: "ditadura é ditadura; ditabranda é a porra!"

Foi aplaudidíssimo!

   

Cartazes para lembrar os mortos; e a presença de quem não esquece o que foi a ditadura

Cerca de 300 pessoas compareceram ao ato. Havia veteranos da luta contra a ditadura, mas também havia muitos jovens. Carregavam cartazes com fotos dos que moreram lutando contra o regime apoiado por Frias pai e Frias filho.

O discurso mais articulado politicamente foi  de Ivan Seixas. Aqui no Escrevinhador você conheceu a história dele http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/por-que-a-folha-nao-publica-cartas-de-ivan-seixas.

Ivan disse que Otavio Frias Filho e ele têm um ponto em comum: "nós dois honramos a história de nossos pais. "Eu continuo na luta de meu pai [Joaquim Seixas, militante de esquerda, morto sob tortura], por um país mais justo; e o Otavinho continua na luta do paizinho dele, colocando o jornal a serviço da pior direita desse país."

Ivan disse mais: "o Estadão conspirou contra a democracia em 64, mas depois nunca compactuou com tortura (...) A Folha, além dos carros à disposição dos torturadores, colocou um jornal inteiro a serviço do DOI-CODI: a "Folha da Tarde."

E concluiu: "exigimos da Folha um pedido de desculpas à nação."

 

Ivan Seixas, com a foto do pai morto: "Folha deve pedido de desculpas à nação"

A Folha mandou um fotógrafo e dois repórteres para cobrir o ato. Mas, na edição impressa de domingo, não havia propriamente uma reportagem sobre o protesto. Foi uma cobertura malandra, sem fotos, sem a declaração de nenhum dos presentes.

(sobre a cobertura malandra da "Folha" , leia aqui http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/a-folha-e-o-ato-uma-cobertura-malandra).

No boteco em frente ao jornal, os blogueiros montaram um quartel-general (aliás, criaram até um "agregador" com textos sobre o protesto, nesse endereço http://ditabranda.nasretinas.com.br),  para transmissão de fotos e textos. Entre fios, laptops e máquinas fotográficas, algumas garrafas de cerveja e muito bom-humor.

 

No boteco, a "guerrilha" dos blogueiros; e o prédio onde os Frias se escondiam com medo

Observei os blogueiros, em plena guerrilha informativa, ali no bar. Depois, olhei para o prédio do grupo "Folha", do outro lado da rua. E fiquei a imaginar, lá nos últimos andares, o apartamento em que os Frias (colaboradores da ditadura) se esconderam nos anos 70, com medo das represálias da esquerda armada.

Hoje, já não há medo de atentados ou bombas. A guerrilha é feita aqui, na internet: com palavras, fotos e fatos.

Comentários 5 Comentários | Comentar!

 

Flavia comentou em 10/03/2009 às 08:23

postei no blog http://flaviabrites.blogspot.com/ algumas fotos (e há link para mais fotos) do protesto (não dá pra mandar o link direto, pois são vários posts; sugestão: use o Page Down até chegar nas fotos). Há também no flickr uma série de fotos do protesto http://www.flickr.com/photos/tags/ditabranda/ e o Nas Retinas tem vídeos http://emerluis.wordpress.com/ e está preparando a postagem de mais materiais. O Sérgio Lopes: alguém sabe dizer se ele tem blog? Conversei com ele lá e achei o sujeito fabuloso, no entanto, ao googlar o nome só achei cantor góspel. um abraço a todos

antonio barbosa filho comentou em 09/03/2009 às 18:35

A Folha e a mídia cartelizada não podem diminuir a importância do ato de 7 de março. Cada manifestante trazia consigo, de inúmeras cidades e Estados, o repúdio de muitos mais à tentativa de se reescrever a História, com propósitos inconfessáveis. Será que este revisionismo não visaria objetivos eleitorais em 2010? Caso conseguissem "apagar" a ditadura, ou seus crimes mais notórios, talvez pudessem mostrar uma candidata como Dilma Roussef como uma "porra-louca" que lutou contra um regime "legal" ou "brando". Poderiam tentar mostrá-la como uma guerrilheira sem bandeira, ou algo assim. Felizmente, a indignação correu o país, e mostramos que este caminho da direita e de sua mídia não tem chances de êxito. Foi marcante o ato, comovente, pacífico e firme. Ficou claro que muitos brasileiros, todos responsáveis pelas conquistas democráticas (inclusive muitos jovens, que não viveram pessoalmente sob o terror, mas têm consciência do que ele significou), estão alertas e prontos a barrar tais manobras do atraso e da venalidade. Parabéns pela cobertura, Rodrigo.

Eduardo Guimarães comentou em 09/03/2009 às 15:37

Rodrigo, adorei a abordagem que você deu ao tema, sobretudo contrapondo os dois "quartéis-generais".

Victor Zacharias comentou em 08/03/2009 às 22:12

Foi ótimo ! De acordo com o que li sobre o ato, 385 pessoas assinaram uma lista que passou entre os presentes. É verdade que Sérgio foi aplaudidíssimo, foi muito emocionante estar lá participando deste protesto. Reparei que quando se falava em ditadura e as torturas o povo estava solidário, mas quando se falava da mídia que faz e desfaz o povo aplaudia eufórico, porque ninguém aguenta mais esta ditadura da mídia. Outro fato interessante é que o movimento foi feito e construído a partir de blogs e listas de terceiro setor, canais que ainda são livres para manifestação. Oxalá toda vez que a mídia mentisse fôssemos a rua para protestar, então muita coisa iria mudar.

Maurício Gil - Floripa (SC) comentou em 08/03/2009 às 22:08

Parabéns a todos os 300, não os de Esparta, mas, como aqueles, verdadeiros combatentes. Pena morar tão longe e não poder estar presente. Minha irrestrita solidariedade àqueles que pugnam por um país mais justo e fraterno.

Escrevinhador por Rodrigo Vianna