"Folha" rumo ao esgoto: ficha de Dilma era falsa?

publicada domingo, 19/04/2009 às 14:12 e atualizado quarta, 22/04/2009 às 00:55 | Comentários 18 Comentários

Participei no último fim-de-semana de debate organizado pelo "Fórum dos Ex-presos Políticos de São Paulo". O tema: "O papel da mídia na democracia e durante a ditadura militar".

O encontro ocorreu no "Memorial da Resistência", sede do antigo DOPS - base policial comandada, durante a ditadura, pelo Delegado Fleury, conhecido torturador de presos.

Abri minha participação ressaltando um fato sintomático: o debate acontecia no mesmo dia em que a "Folha" abriu manchete em alto de página para destacar que pode ter usado uma ficha falsa do DOPS para "colar" em Dilma Roussef o selo de "terrorista".

                                                                     

             Depois de estampar a ficha na primeira página, "Folha" agora avisa que vai checar se é verdadeira!

 

A tal ficha foi usada para ilustrar "reportagem" sobre a participação da ministra no sequetsro que nunca existiu: o sequestro do ex-ministro Delfim Netto. O selo "capturado" não era comum em fichas desse tipo no DOPS. Documento pode ter sido forjado por sites de "extrema-direita". A "Folha", pelo visto, mantem as velhas parcerias...

Estava já evidente que a tal "reportagem" fora feita sob encomenda para ser usada no programa politico de 2010. O uso de uma falsa  ficha do DOPS seria apenas um passo a mais na caminhada da "Folha" rumo ao esgoto. Veja os detalhes aqui: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=54571

Suspeito que atitudes como essa por parte de um jornal que, poucas semanas antes, usou a expressão "ditabranda" para se referir à ditadura brasileira, serviram para mobilizar mais gente em torno do tema. 

Talvez por isso a presença de público tenha sido tão grande no debate (foto). Eu imaginava uma reunião pequena, com 30 ou 40 ex-militantes contando suas histórias. A sala recebeu mais de 150 pessoas - incluindo muitos jovens: estudantes, trabalhadores e sindicalistas da nova geração.

Claro que lá estavam também veteranos militantes, que contaram suas experiências e trouxeram relatos importantes.

Tive a honra de compor a mesa, ao lado de Alípio Freire (jornalista, editor do Brasil de Fato, e ex-preso político) e  Beatriz Kushnir (autora de "Cães de Guarda", livro que narra com detalhes a promiscudade entre o grupo "Folha" e a ditadura).

Não vou reconstituir tudo o que se discutiu lá. A fala de Beatriz trouxe dados valiosos sobre a promiscuidade entre jornalistas e censores durante a ditadura. Alípio ressaltou o "cinismo" da "Folha" ao falar em ditabranda.

Li para o público editoriais e manchetes dos jornais brasileiros, publicados em abril de 64: todos comemoravam o golpe contra um presidente constitucional, João Goulart. Ou seja, a "Folha" não foi a única a colaborar com a ditadura. Foi,  "apenas",  o jornal que chegou mais longe na colaboração, emprestando até carros de entrega de jornal para transportar presos politicos.

Centrei minha fala no seguinte tema: a ideia de que a imprensa deve ser neutra, independete, plural é algo recentíssimo na história brasileira. Trata-se de uma máscara ideológica com a qual os jornais passaram a se apresentar ao público no pós-ditadura.

A "Folha" foi a pioneira, vendendo a imagem de "pluralismo" e "independência" (e assim - de quebra - escondia o passado nebuloso). Obrigou outros diários (e até TVs) a correrem atrás dessa "imagem". Ou miragem?

Isso durou duas décadas, aproximadamente. Do ano 2000 pra cá, a imprensa vem retirando a máscara. A pioneira foi a Veja, seguida por Globo, Folha e os outros.

A questão é: que vantagem levam em baixar a máscara? Não seria mais conveniente - pra eles - seguir vendendo a imagem da "neutralidade"?

Essa questão ainda merece mais reflexão.

Mas o fato é que estão baixando as máscaras. Diogo Cão, Cidadão Frias Ratzinger e outros são ótimos pauteiros: ajudam o público a entender melhor como opera a chamada "grande mídia". Ao dizerem que "não somos racistas", por exemplo, fazem a sociedade debater o tema. Ao escreverem editoriais sobre a "ditabranda", levam os mais jovens discutirem a ditadura  (incluindo o  papel que a própria "Folha" teve na ditadura).  

Sem querer - por incompetência ou vaidade - prestam um grande serviço ao público.  Portanto, deixemos essa turma trabalhar: eles não percebem como são didáticos para os brasileiros! 

Os jornais (no mundo) nasceram como órgãos de defesa de opinião, eram feitos para divulgar teses de facções politicas (foi assim, por exemplo, na Revolução Francesa: Robespierre, Danton, Desmoulins tinham seu jornais e , com eles, tentavam conquistar  público para suas teses; não havia a ilusão de "neutralidade").

No debate do último sábado, lembrei - no caso brasileiro - de um dos primeiros diários publicados no Rio, em 1823, pelos Andrada (José Bonifácio e irmãos): "O Tamoio" era um jornal de opinião, feito para travar debate na Assembléia Constitunte que se instalava no pós-independência.

Ao longo de décadas, e séculos, os jornais foram assumidamente órgãos de facção. O que vemos hoje no Brasil é apenas a volta da mídia ao velho leito. Nada mais que isso.

Será que devemos pedir que a mídia volte a ser "plural"? Devemos escrever cartas para os jornais? Isso não seria ingenuidade?

Devemos implorar que a mídia não seja aquilo que ela nasceu para ser? Seria como implorar ao carrasco: por favor, não corte minha cabeça...

Ou devemos construir outra imprensa: nos blogs, sites e ?

2010 vai mostrar como a velha mídia brasileira levará ao limite esse movimento de regressão ao partidarismo aberto. A ficha de Dilma foi só  o aperitivo.  

Comentários 18 Comentários | Comentar!

 

Coil comentou em 11/05/2009 às 19:30

Raio X de uma Fraude http://vjcoil.com/fraude/

Maria Carolina comentou em 01/05/2009 às 01:32

Rodrigo, gostaria de parabenizá-lo pela sua palestra no debate ocorrido no Memorial da Resistência. Foi excelente.

André Raboni comentou em 23/04/2009 às 16:46

Nós, do blog Acerto de Contas, estamos movendo um abaixo-assinado online em defesa do ministro do STF, Joaquim Barbosa. Para mais informações, ler: http://acertodecontas.blog.br/sala-de-justica/estou-com-barbosa-e-nao-abro-apoie-voce-tambem/ Para assinar diretamente a petição, que será enviada ao SFT, STJ, OAB, Presidência da República, Senado, Câmara, etc.: http://www.ipetitions.com/petition/credibilidade_judiciario/ PS: lembramos que, apesar de o ipetition pedir doação, não é preciso fazê-la. Basta assinar com nome e email, e depois fechar a janela. Um abraço a todos!

ana cruz comentou em 23/04/2009 às 07:37

O ministro JOAQUIM BARBOSA lavou a alma do povo brasileiro. VAMOS CRIAR PETIÇÃO ON LINE DE APOIO AO MINISTRO JOAQUIM BARBOSA JÁ! MOSTRAREMOS A FORÇA DO POVO BRASILEIRO COM O REPUDIO AO GILMAR DANTAS, SEGUNDO NOBLAT!

Jeca Tatu comentou em 22/04/2009 às 19:53

Rodrigo, por falar em ditadura, você sabe o motivo pelo qual o blog do Teixeirinha foi excluído? Ele era um blog muito engraçado que zombava do Serra e o endereço era: www.amigosdopresidenteserra.blogspot.com. Será que foi censurado? Sabemos muito bem que o Serra mandou excluir alguns blogues e esse tinha tudo para que retirassem do ar por ordem do pedágio.

Rivaldo - Salvador comentou em 21/04/2009 às 23:19

Rodrigo, Agora já está circulando na internet a ficha do Serra. Será que a Folha vai fazer uma manchete também? Veja a ficha do Serra no link a seguir e a coloque ao lado da ficha da Dilma, para comparação: http://3.bp.blogspot.com/_F607SuO_4iA/SezIWyepITI/AAAAAAAAA_k/aeUVuaVdQY4/s1600-h/serragio.jpg

Cecéu comentou em 21/04/2009 às 19:36

Até a inclinação e o local da ficha onde é assentado, até mesmo o tamanho e o formato do carimbo são iguais ao que a CIA coloca na foto de terroristas capturados: CAPTURED.

carlos costa comentou em 21/04/2009 às 18:54

a midia não precisa ser plural; ela pode ser pardidarizada, só não pode é se dizer plural e fazer apologia partidaria. não tem problema nenhum a folha ser de direita. mas tem que assumir.

Amalia comentou em 21/04/2009 às 16:38

Venho acompanhando este debate a respeito da imprensa brasileira há bastante tempo. Desde meus velhos tempos de universidade, na década de 70. A imprensa brasileira jamais foi plural. Jamais foi pelo Brasil e seu Povo. Sempre defendeu interesses escusos, estrangeiros, estranhos. Interesses próprios. A diferença é que a internet veio para quebrar este dogma. Quando a imprensa brasileira fala mal do Lula; quando divulga com estardalhaço a corrupção; quando os jornais televisivos só pautam matérias negativas, principalmnte para o Brasil, nada mais estão fazendo do que aquilo que sempre fizeram: atos de desamoer para com o País. Corrupção sempre houve, e das piores, somente a população não tomava conhecimento, pois não havia interesse em que soubesse. Senão, para onde foram parar os bilhõe de US$ da dívida externa? Para o mesmo lugar dos US$ da privatização da CVRD e do sistema Telebrás, ou seja no bolso de alguém que não foi o Tesouro Nacional. Hoje, porém, a corrupção está sendo investigada e vindo a público. Os blogs estão bombando e informando. A população já não é tão alienada como supõem os "sabidões" da imprensa. O Povo Brasileiro deve incentivar a imprensa a continuar obtusa como tem sido, e agradecer-lhe pois hoje o mundo vê o Povo Brasileiro como um povo alegre, hospitaleiro, livre, independente, pacífico e inteligente, que, mesmo sendo manipulado diaria e intensamente tem opinião própria e sabe escolher o que é melhor para si e para o país. E sabe escolher bem: o Presidente é um Homem admirado pelo mundo afora, por ser bom articulador, carismático e sensível às grandes causas. Deixe a imprensa como está, que diremos como é que fica. Já. Já.

laura comentou em 20/04/2009 às 18:46

Inacreditável! Saiu no Blog do Nassif. Paulo Renato vai assinar PARA TODAS AS ESCOLAS SEM LICITAÇÃO EM SAO PAULO OS JORNAIS O ESTADO DE SAO PAULO E FOLHA DE SAO PAULO. Isso sim é que é mensalao. esta pagando o pedagio das "Boas noticias nesses periodicos para o PSDB". Fora isso, propaganda como educacao. O pensamento obrigatorio coim o educacao. As cartilhas que as professoras sao aobrigadas a dar em Sala de aula provavelmente "educarao" as criancinhas com a salutar opiniao do PIG. Isso é ou nao é fascismo? Leiam: As bondades para 2010 Por NaMaria Paulo Renato manda assinar Folha e Estado para todas as escolas Começou o pacote de bondades que já vinha ajudando o caixa da Abril. Agora é a vez da Folha e do Estado. Os jornalões paulistas vão ganhar cabeças e corações em todas as escolas paulistas já que a Secretaria vai fazer 5.449 assinaturas dos dois periódicos. Veja a seguir a informação sobre compra sem licitação no Diário Oficial do Estado de um sábado (eita dia bom para ninguém perceber) 4/4/2009: %u201CDespachos da Diretoria de Projetos Especiais, de 3-4-2009 - Declarando inexigível, com fundamento no Art. 25, inciso I, da Lei 8666/93 e suas atualizações, a licitação, para o processo 15/0199/09/04, cujo objeto é a aquisição de 5.449 assinaturas do jornal %u201CO Estado de São Paulo%u201D destinadas a todas as escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo, a serem fornecidas pela empresa: S.A. %u201CO Estado de S. Paulo%u201D. Ato Ratificado pelo Presidente da FDE nos termos do Art. 26 da referida Lei; com fundamento no Art. 25, inciso I, da Lei 8666/93 e suas atualizações, a licitação, para o processo 15/0200/09/04, cujo objeto é a aquisição de 5.449 assinaturas do jornal %u201CFolha de São Paulo%u201D destinadas a todas as escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo, a serem fornecidas pela empresa: Empresa Folha da Manhã S/A. Ato Ratificado pelo Presidente da FDE nos termos do Art. 26 da referida Lei.%u201D

José Melquíades Ursi comentou em 20/04/2009 às 11:07

Rodrigo, pode parecer ingenuidade, mas a sensibilidades das pessoas, incluise das menos informadas, está "online". Hoje tive a anuência de um carreteiro de komby: "Chamam o Lula de ignorante aqui no Brasil e o mundo o aplaude. O Lula diz duas ou três frases na nossa limguagem e arrebenta com os diplomados. É melhor ficarem quietos". A ficha de Dilma caiu, falta cair a ficha da grande mídia. Sabe, talvez como você insunua, melhor será que a presunção estúpida não deixe cair mesmo. Falta pouco para se darem conta de que o barco de folha, veja, globo e cia faz água de forma incontrolada.

C.Medeiros comentou em 20/04/2009 às 05:57

A que pontos estes caras chegaram. O pior é que eles sabem que mesmo se retratando, o estrago está feito perante a opinião pública e não há como repará-lo. É continuar denunciando esses vândalos trasvestidos de jornalistas e tentar criar meios, através de Leis de imprensa mais severas, de tirar do meio circulante panfletos da qualidade da Folha, Veja, Estadão...

Marcelo Martins comentou em 19/04/2009 às 23:30

Vianna, Eu já penso um pouco diferente. Acho que a imprensa nunca precisou muito de máscaras. Veja o caso do notório Carlos Lacerda, por exemplo, que fustigava, sem dó nem piedade, o governo constituído. Acabou governador na Guanabara. Se você for procurar na história da imprensa Brasileira encontrará muitos outros exemplos. (Parênteses: rapaz, já pensou se um maluco que escreve hoje em dia resolve seguir o exemplo do Lacerda. Imaginou o tipo de lei que o Ratzinguer, só para citar um dos mais doidinhos, é capaz de criar? Melhor nem dar idéia... Tesconjuro!!!! Fecha parênteses) O que eu acho que está acontecendo, é que, com o advento da internet, uma massa crítica consegue fazer valer sua opinião. E não só isso: desmontam as intenções dos órgãos de imprensa. Funcionam como uma espécie de ombudsman da imprensa, mas ao contrário daquele da Foia, com muito mais poder e independência.

Luciano Prado comentou em 19/04/2009 às 22:08

%u201COu devemos construir outra imprensa: nos blogs, sites e ?%u201D Esta construção, Rodrigo, já está em andamento. É irreversível. A imprensa como vemos hoje está em plena decadência. Com dia marcado para morrer. À medida que as pessoas vão constatando as manipulações, a parcialidade, a partidarização, vão também se indignando e perdendo os últimos laços que ainda os unem. A descrença espalha-se por toda a sociedade. Não acredito em um retorno à pluralidade. O uso do cachimbo faz a boca torta. E entorta também, por conveniência, imobilismo ou sobrevivência, a boca de jovens jornalistas que insistem em não pensar. É lamentável a ausência de uma imprensa imparcial, plural, informativa, voltada para o interesse público. Também não acredito nessa história que querem nos emporrar goela abaixo: ruim com ela, pior sem ela. Melhor, é a que vem surgindo na internet.

Sérgio Luiz comentou em 19/04/2009 às 20:00

Olá Rodrigo, estudo a ditadura brasileira, não fiquei sabendo desse evento, gostaria que você divulgasse nesse blog quando for ocorrer eventos desse tipo, parabéns!!

Rafael Rodrigues comentou em 19/04/2009 às 19:39

Fora de pauta: TIMÃÃÃO EÔÔÔÔ, TIMÃÃÃO EÔÔÔÔ!!!!! Nem Keyrrison nem Washington. Agora é Ronaldo x Kleber Pereira.

Rodrigo Hoschett comentou em 19/04/2009 às 15:21

Boa tarde Rodrigo, sou estudante de jornalismo, estou no 3º semestre. Estava presente ontem no debate promovido pelo memorial, a ditadura sempre foi um assunto que me interessou bastante, pois foi uma época que grandes jornalistas lutaram pela liberdade que hoje eu tenho, mas sempre soube sobre o assunto assistindo há documentários ou lendo em livros,matérias,etc e estar presente com pessoas que participaram da história não só da profissão de jornalista mas da história do nosso país, foi algo que com certeza jamais esquecerei, foi realmente emocionante. Com todas as informações que você e a historiadora Beatriz passaram, acredito que cada vez mais a Internet seja um "refúgio" para uma outra imprensa, infelizmente a atual está provando que jovens jornalistas como eu, serão apenas marionetes de grupos empresariais, e sinceramente não faz parte da minha índole ser capacho de alguém, sou a favor de um jornalismo que provoque mudanças para a sociedade, pelo menos é o que tentarei enquanto jornalista. Parabéns, gostei muito do debate ontem. Abraços. Rodrigo Hoschett,23 Estudante

Afonso Duarte comentou em 19/04/2009 às 15:14

Meu caro Rodrigo, Meus parabéns pela coragem! Enquanto os Reinaldo Azevedos caminham na direção oposta, você vai fundo questionamento da imprensa que se pratica no Brasil. Sucesso e vá em frente !

Escrevinhador por Rodrigo Vianna