Operação 2010: como e por que a Folha ataca Dilma

publicada segunda-feira, 06/04/2009 às 16:32 e atualizada quarta-feira, 02/06/2010 às 16:30

A Operação 2010 já começou. Neste domingo, tivemos mais um capítulo, na “Folha”.

A quem serve a manchete que o jornal pôs em sua primeira página?Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto“, diz o jornal da família Frias.

Vejam: trata-se de uma afirmação. O jornal não atribui a informação, no título, a ninguém. Afirma. E ponto.

No texto da primeira página, e na matéria interna, há a negativa de Dilma. Mas, a manchete está aí: prontinha pra ser usada no programa eleitoral em 2010.

Outro dia, eu disse aqui que as aparições seguidas de FHC na mídia, nas últimas semanas, tinham um sentido claro: o PSDB sabe que o ex-presidente será associado a Serra na campanha do ano que vem; sabe que FHC é impopular; sabe que ele é um peso difícil de carregar. Então, o mais inteligente não é escondê-lo (como fez Alckmin em 2006), mas “trabalhar” desde já para criar uma imagem melhor para FHC. A mídia amiga está aí pra isso mesmo.

Como Lula segue popular, tática é constranger Dilma

A matéria sobre Dilma na “Folha” segue a mesma lógica. Trata-se de constranger Dilma, e gerar material pro horário político. Serra sabe que não poderá atacar Lula (o presidente seguirá popular até 2010). O negócio é desconstruir Dilma. Colar nela a imagem de “guerrilheira”.

Não acho difícil que, nesta segunda-feira, a “reportagem” esteja na tela da Globo. Podem esperar!

Ah, dirão alguns: a “Folha” fez só o seu trabalho. Expôs fatos. Trouxe de volta a “memória da ditadura”.  Esse é  o “chapéu” (pequeno título) que aparece acima da matéria, nas páginas internas da “Folha”.

“Cidadão Frias” tinha bons aliados nos anos 70; o filho do cidadão também já escolheu seu aliado em 2010?

Louvo o objetivo do jornal. A “Folha” quer vasculhar a “memória da ditadura”? Ótimo!  Mas, queremos memórias completas. Não pedaços de dossiês, vazados sob interesse eleitoral. Queremos memórias completas também sobre a atuação de empresários como Otávio Frias no apoio a torturadores aqui no Brasil. Material e testemunhas não faltam.

Mas, voltando à “reportagem” sobre Dilma: por que começar a relembrar a “memória da ditadura” justamente com a candidata que aparece em segundo (ou terceiro) lugar nas pesquisas?

Serra também teve militância durante a ditadura. Por que os leitores não foram brindados com a ficha dele no DEOPS? Ele será submetido a perguntas constrangedoras -  como a que fez a repórter à ministra Dilma? A jornalista chega a perguntar sobre pessoas que Dilma (sob tortura) teria “entregue” aos algozes.

Quero ver se a ”Folha” tem coragem de perguntar a Serra por que ele fugiu do Brasil  depois do golpe de 64? Era liderança estudantil, e escafedeu-se, fugiu. Agiu bem?

Em 2002, Serra ajudou a desconstruir Roseana Sarney (lembram-se do caso Lunus? Sarney pai até hoje não perdoa Serra – atribui a ele a operação policial que inviabilizou a candidatura da filha). Também ajudou a torpedear Ciro.

Tudo isso contando com a imprensa amiga.

Na campanha de 2006, quando Serra ainda disputava a indicação com Alckmin, dentro do PSDB, uma reportagem da revista Época trouxe detalhes sobre o envolvimento de Alckmin com a organização católica Opus Dei. Nos bastidores da politica paulista, atribui-se a reportagem ao “esquema de inteligência” serrista.

Dessa vez, o alvo é Dilma. A ministra reagiu à repórter e ao jornal. Dilma não é besta. Sabe o que se arma contra ela. Gostei de uma das respostas que ela deu à repórter. “minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado (…) Não dá pra chamar de ditabranda, não.”

A moça da “Folha” também perguntou se Dilma faz  “mea culpa” por ter feito guerrilha.

A “Folha” quer “mea culpa” dos outros. E o “mea culpa” do jornal sobre seu apoio a torturadores?

“Cidadão Boilesen” ganhou prêmio de “melhor filme no festival “É tudo Verdade”. Agora, falta um outro filme: “Cidadão Frias”.

Material não falta.

Dilma foi constrangida pelo jornal. Ao menos, teve a dignidade de tratar do assunto (inclusive das torturas que sofreu). E o jornal? Vai tratar de seu passado? Humildemente, disponho-me a ajudar…

Leia outros textos de Plenos Poderes

Nenhum Comentário

Comentar