Poesia num feriado de abril: T. S. Eliot e os homens ocos
publicada quarta-feira, 21/04/2010 às 11:45 e atualizada sexta-feira, 28/05/2010 às 11:34
Os versos se revelam, devagar. É preciso ler, reler. Vou até o fim da estrofe. Fico com a impressão de não ter compreendido bem o que o poeta quis dizer. Retorno ao começo, sorvo as palavras, as metáforas – belas metáforas – e então a poesia se revela.
“Sigamos então, tu e eu/Enquanto o poente no céu se entende/Como um paciente anestesiado sobre a mesa”.
O feriado e a luz fraca que entra pela janela parecem um convite para retomar a leitura de T. S. Eliot. Mesmo traduzido (e em ótima tradução, de Ivan Junqueira), não é leitura fácil. Poeta, crítico literário, dramaturgo, ele nasceu nos Estados Unidos – no fim do século XIX – e depois se radicou na Inglaterra.
Curiosos os caminhos que nos levam a um escritor. Dia desses, contei aqui porque me encantei pelo uruguaio Mario Benedetti – http://www.rodrigovianna.com.br/sopa-de-letras/a-prosa-comovente-do-uruguaio-mario-benedetti.
Claro, foi porque li “A Tregua”, um romance comovente e espantoso por sua simplicidade. Mas antes de “A Trégua” o que me encantou foi a foto de Benedetti na orelha de outro livro: olhar bonachão, nariz batatudo, aquele jeito de um velho tio que tem muitas histórias pra contar. Foi o que me fez mergulhar em Benedetti (além da simpatia que sinto pelo Uruguai - nosso pequeno e tinhoso vizinho do sul).
Com Eliot, foi diferente. Dia desses, um leitor escreveu-me. Disse que lembrava de mim como repórter na TV Globo, e que se espantou ao ver meus textos aqui no blog: “pensei que você fosse só mais um daqueles caras empalhados que aparecem na TV”, ele falou com muita honestidade.
Respondi a ele que não me deixei empalhar totalmente… Estava adormecido. Não deixei de ser quem eu era, mas reprimi, guardei, “empalhei” minhas convicções durante alguns anos.
Disse a ele, ainda, que a frase que escrevera sobre mim fazia-me lembrar de um poema de T.S.Eliot, chamado “Os homens ocos”:
“Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.”
O leitor escreveu de volta pra contar que não conhecia o poema. Eu, na verdade, também não lembrava direito dos versos. Lembrava de tê-los ouvido, pela boca de Marlon Brando, em “Apocalipse Now”. Lembrava, ainda, de tê-los saboreado em alguma aula de literatura no colégio, lá pelos distantes anos 80.
Fui atrás do poema na internet. Fiquei maravilhado. Decidi que precisava conhecer melhor esse “tal” Eliot. E cá estou com um volume de “Poesia”, da editora Nova Fronteira. A apresentação é de Affonso Romano de Sant´Anna (com dois efes, e essa anacrônica apóstrofe no nome da santa – ainda mais anacrônica do que os dois enes do meu Vianna, que ao mesmo tempo me orgulham e me atormentam, desde a infância).
Sant`Anna ressalta um dado curioso, sobre Eliot: “diferentemente do que ocorre com a maioria dos autores, difícil se torna localizar na poesia de Eliot rastros de sua vida privada. Neste sentido, é um poeta apolíneo, nada dionisíaco, que fez com que sua biografia fosse essencialmente sua grafia, seu texto.”
As emoções que Eliot traz à superfície revelam pouco sobre ele mesmo. Mas dizem muito sobre a penumbra de todos nós, o medo de todos nós, a inconsistência e as dúvidas que nos invadem – seja numa tarde chuvosa, ou num crepúsculo enevoado (e como há crepúsculos e névoas em seus poemas!).
“Ousarei
Perturbar o Universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga”
Os versos acima, bem como os que reproduzi no segundo parágrafo desse texto, são de um poema chamado “A canção de amor de J. Alfred Prufrock” – de 1917. Foi escrito quando Eliot tinha 29 anos. Belíssimo.
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1 Comentário




Rodrigo,
Deparar-me com alguém (do jornalismo e não da literatura, propriamente) que aprecia e conhece Elitot é quase o insólito.
Eliot “te pega”. Você passa algum tempo agarrado a ele, depois se desvencilha, quase esquece, a obra completa é pesada, mas de repente, ele ressurge, e te pega novamente…
Sempre gostei de misturar politica com literatura, quando colunista. Nas crises de abril, que foram recorrentes na politica brasileira durante algum tempo (correção do salário-mínimo, abril vermelho do MST, vésperas do Primeiro de Maio, reformas ministeriais pós-desincompatibilizações etc) usei mais uma vez aquele verso tão poderoso e belo de Waste Land: “Abril, o mais cruel dos meses, Narcisos nascem da terra morta…”.
Apreciei seu blog, mas não só por Eliot.
Tereza Cruvinel